Questão 012 caderno azul ENEM 2008

Torno a ver-vos, ó montes; o destino (verso 1)
Aqui me torna a pôr nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte, rico e fino. (verso 4)

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros (verso 7)
Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,
Que chega a ter mais preço, e mais valia (verso 10)
Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,

Aqui descanse a louca fantasia,
E o que até agora se tornava em pranto (verso 13)
Se converta em afetos de alegria.

Cláudio Manoel da Costa. In: Domício Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 78-9.

Assinale a opção que apresenta um verso do soneto de Cláudio Manoel da Costa em que o poeta se dirige ao seu interlocutor.

A) “Torno a ver-vos, ó montes; o destino” (v.1)

B) “Aqui estou entre Almendro, entre Corino,” (v.5)

C) “Os meus fiéis, meus doces companheiros,” (v.6)

D) “Vendo correr os míseros vaqueiros” (v.7)

E) “Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,” (v.11)

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Poético
    • Figuras de Linguagem (Apóstrofe)
    • Gramática (Funções Sintáticas – Vocativo)
    • Literatura (Arcadismo – Bucolismo)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar em um soneto o verso que contém um vocativo (ou apóstrofe), que é o chamamento direto a um interlocutor.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão é simples se o candidato domina o conceito de vocativo/apóstrofe. No entanto, a linguagem do poema, característica do século XVIII, pode criar uma barreira de interpretação, tornando a identificação do interlocutor um desafio para quem depende apenas do fluxo da leitura.
  • Gabarito: A
    • Explicação Resumida: Este é o único verso em que o eu lírico se dirige diretamente a algo ou alguém, utilizando o vocativo “ó montes” para invocar a paisagem como seu interlocutor.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “Em qual dos versos listados o poeta para de contar sua história e começa a conversar diretamente COM alguém ou COM alguma coisa?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no poema como um diário. Na maior parte do tempo, o poeta escreve sobre seus sentimentos e sobre os lugares onde esteve. A questão nos pede para encontrar a única linha em que ele para de escrever no diário e, de repente, olha para o lado e fala em voz alta com um objeto, como se dissesse: “Ah, mesa, só você entende meu sofrimento!”. Estamos procurando esse momento de “conversa” direta.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Definir o Suspeito: Vamos primeiro entender o que é um “interlocutor” e como identificá-lo em um texto. A pista principal se chama “Vocativo” ou “Apóstrofe”.
  • Preparar a Ferramenta: Criaremos um dossiê sobre essa figura de linguagem para sabermos exatamente o que procurar.
  • Analisar as Pistas: Vamos examinar cada verso da lista, um por um, aplicando nossa ferramenta para ver se o poeta está descrevendo algo ou falando com algo.
  • Confirmar a Identidade: Identificaremos o verso que corresponde perfeitamente ao perfil do nosso suspeito.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, nossa principal ferramenta de investigação é a capacidade de reconhecer uma figura de linguagem específica. Vamos criar um dossiê para ela.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ: A APÓSTROFE (ou VOCATIVO)

  • Codinome: “O Chamado do Poeta”.
  • Modus Operandi: É a técnica de interromper a narração para se dirigir diretamente a um ser, presente ou ausente, real ou imaginário. É um chamado, uma invocação.
  • Sinais Característicos: Frequentemente utiliza a interjeição “ó”, mas pode ser apenas um nome “jogado” na frase em tom de chamado.
  • Exemplos de Casos Anteriores:
    • “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?” (O poeta fala COM o mar).
    • “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?” (O poeta chama por Deus).
    • “Amor, é um fogo que arde sem se ver.” (O poeta se dirige ao conceito abstrato do Amor).

Com este dossiê, agora sabemos exatamente o que procurar: um chamado direto.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos aplicar nossa ferramenta de detecção de “Apóstrofe” a cada um dos versos suspeitos.

  • Analisando o Verso 1: “Torno a ver-vos, ó montes; o destino”
    • Investigação: O poeta diz “Torno a ver-vos…”. O pronome “vos” já indica que ele está falando com alguém. Mas com quem? A frase seguinte entrega o suspeito: “ó montes“. É um chamado cristalino, um vocativo clássico. Ele está falando diretamente COM os montes.
    • Veredito: Positivo para Apóstrofe/Vocativo. O interlocutor são os montes.
  • Analisando os outros versos:
    • Verso 5: “Aqui estou entre Almendro, entre Corino,” – Ele está descrevendo sua localização e companhia, não falando com eles. É uma narração.
    • Verso 6: “Os meus fiéis, meus doces companheiros,” – Ele está descrevendo quem são Almendro e Corino. É uma explicação (um aposto), não um chamado.
    • Verso 7: “Vendo correr os míseros vaqueiros” – Ele está descrevendo uma cena que ele observa.
    • Verso 11: “Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,” – Ele está comparando a vida no campo com o “encanto” da cidade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! O erro mais comum aqui é confundir mencionar alguém com falar com alguém. Nos versos 5 e 6, o poeta menciona seus amigos “Almendro” e “Corino”. A armadilha é pensar que, por citar os nomes, ele está falando com eles. Mas ele está apenas nos contando sobre eles. No verso 1, a diferença é o chamado explícito: “ó montes”.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação provou que apenas no primeiro verso o poeta interrompe sua narrativa para se dirigir a um interlocutor (os montes), usando a figura de linguagem da apóstrofe, marcada pelo vocativo “ó montes”.
  • Expectativa: A alternativa correta deve ser exatamente o verso que contém esse chamado direto e inconfundível.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora realizar a autópsia de cada alternativa para confirmar nossas suspeitas.

  • Alternativa A: “Torno a ver-vos, ó montes; o destino” (v.1)
    • Análise de Correspondência: Este verso é a “impressão digital” perfeita. Ele corresponde exatamente ao que procurávamos: um chamado direto a um interlocutor, o vocativo “ó montes”, que se encaixa perfeitamente na definição de apóstrofe do nosso dossiê.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • Alternativa B: “Aqui estou entre Almendro, entre Corino,” (v.5)
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato lê os nomes “Almendro” e “Corino” e assume que, por mencioná-los, o poeta está falando com eles.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Narração com Interlocução. O poeta está agindo como um narrador, descrevendo a cena para o leitor (“Olha, leitor, estou aqui entre eles”). Ele não está se virando para os amigos para dizer “Oi, amigos, estou entre vocês”.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • Alternativa C: “Os meus fiéis, meus doces companheiros,” (v.6)
    • A “Narrativa do Erro”: Semelhante ao anterior, o candidato vê a descrição afetuosa e interpreta como uma conversa.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Aposto com Vocativo. Gramaticalmente, “Os meus fiéis, meus doces companheiros” é um aposto, ou seja, uma explicação sobre quem são Almendro e Corino. Não é um chamado, mas sim uma informação adicional.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • Alternativa D: “Vendo correr os míseros vaqueiros” (v.7)
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar que, ao descrever a ação dos vaqueiros, há algum tipo de interação.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Observação com Diálogo. O poeta está simplesmente descrevendo o que ele vê, como alguém olhando pela janela e narrando a cena. Ele não está interagindo com os vaqueiros.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • Alternativa E: “Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,” (v.11)
    • A “Narrativa do Erro”: Esta alternativa é menos provável de ser escolhida, mas um candidato confuso pode se perder na estrutura da frase e não entender seu papel no poema.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Este verso é parte de uma estrutura comparativa (“o bem desta choupana… tem mais preço… Que… o encanto da Cidade”). Não há qualquer interlocutor sendo chamado ou invocado aqui.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a correta, pois o uso do vocativo “ó montes” é a prova irrefutável de que o poeta estabelece um diálogo direto com a paisagem, seu interlocutor naquele momento.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Para encontrar o interlocutor, não procure quem está sendo descrito; procure para quem o poeta está “tirando o chapéu” e dizendo “olá”.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da Apóstrofe é uma ferramenta poderosa na Oratória e nos Discursos Políticos. Um bom orador não diz apenas “A situação do país é difícil”. Ele quebra a quarta parede e fala diretamente com a plateia: “Meu povo, a situação é difícil, mas juntos, vamos superar!”. Ao criar interlocutores diretos (“meu povo”, “juntos”), ele transforma uma descrição passiva em um chamado à ação, criando uma conexão emocional muito mais forte. A técnica do poeta do século XVIII é a mesma do líder do século XXI.

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