
A divulgação das notas do ENEM 2025 veio acompanhada de um sentimento coletivo que se espalhou rapidamente entre estudantes e professores nas redes sociais: estranhamento.
Muitos candidatos que saíram da prova confiantes — especialmente em relação à redação — se depararam com notas abaixo do esperado. Para outros, a surpresa foi ainda maior: desempenhos muito diferentes entre áreas, quedas inesperadas e uma sensação generalizada de que “algo mudou”.
Não demorou para surgirem comparações com edições anteriores, relatos de frustração e uma pergunta que passou a ecoar com força: as notas do ENEM 2025 caíram? E, se caíram, por quê? Continue a leitura e entenda melhor!
Confira a seguir:
TogglePor que tanta gente estranhou as notas do ENEM 2025?
Embora o ENEM seja uma prova estatisticamente complexa e influenciada por diversos fatores, como a Teoria de Resposta ao Item (TRI), a percepção dos estudantes foi bastante consistente:
- a redação pareceu mais exigente;
- mais criteriosa;
- e menos tolerância a erros que antes passavam despercebidos.
Para muitos, a discrepância entre o desempenho esperado e a nota final não foi apenas decepcionante — foi confusa. Esse cenário de surpresa e queda não pode ser ignorado. Pelo contrário: ele exige explicação.
A redação do ENEM ficou mais rigorosa?
A resposta objetiva é: sim, mas não da forma que muitos imaginam.
Não houve uma mudança oficial nas cinco competências avaliadas, nem na estrutura exigida do texto dissertativo-argumentativo. O que mudou, na prática, foi o nível de rigor na aplicação desses critérios, especialmente em aspectos que antes eram relativizados ou “compensados” por outros acertos.
Ou seja, a redação do ENEM não ficou diferente no papel — ela ficou mais exigente na correção. Isso fica evidente quando analisamos como cada competência tem sido cobrada.
Competência I — Domínio da norma-padrão da língua escrita
A Competência I continua avaliando:
- ortografia;
- acentuação;
- concordância;
- regência;
- e pontuação.
Erros pontuais ainda podem ocorrer sem zerar a competência, mas a reincidência de falhas gramaticais, possivelmente, passou a impactar mais diretamente a nota, especialmente quando o candidato demonstra domínio inconsistente da norma culta.
Competência II — Compreensão da proposta e desenvolvimento do tema
A Competência II é uma das competências que mais evidenciam o rigor atual. A banca tem cobrado leitura atenta do tema e dos textos motivadores, penalizando com mais frequência:
- interpretações genéricas;
- abordagens muito amplas;
- tangenciamentos e fugas temáticas.
Em 2025, escrever “sobre o assunto” não foi suficiente. Tornou-se indispensável responder ao recorte específico proposto, com clareza e precisão.
Competência III — Seleção e organização dos argumentos
Na Competência III, a principal mudança prática foi a desvalorização da argumentação superficial. Textos com ideias previsíveis, pouco aprofundadas ou apenas descritivas passaram a perder pontos com mais facilidade.
A correção passou a exigir:
- progressão lógica das ideias;
- relação clara entre causas, consequências e impactos sociais;
- consistência entre tese e argumentos.
Argumentar deixou de ser “cumprir estrutura” e passou a ser convencer de fato.
Competência IV — Coesão e uso dos mecanismos linguísticos
Já a Competência IV permanece avaliando a:
- fluidez do texto;
- encadeamento lógico;
- e a clareza das relações entre as ideias.
Nesse sentido, deve-se destacar que conectivos, pronomes e operadores argumentativos sempre foram exigidos, mas não basta uma aplicação mecânica deles.
Textos excessivamente engessados ou com conectivos mal-empregados têm sido penalizados, principalmente quando se assemelham a redações modelo.
Competência V — Proposta de intervenção
Por fim, aCompetência V continua exigindo os cinco elementos:
- agente;
- ação;
- meio;
- finalidade;
- e detalhamento.
O rigor maior está na coerência entre proposta e discussão desenvolvida ao longo do texto.
Intervenções genéricas, desconectadas dos argumentos ou excessivamente vagas passaram a perder força, mesmo quando apresentam todos os elementos formalmente.
Ou seja, recapitulando, de modo mais aprofundado…
O que mudou na prática da correção?
Abaixo, trouxe 3 mudanças que impactaram na correção da prova, impactando as notas do ENEM 2025. Confira!
1. Leitura mais atenta ao recorte temático
Cada vez menos textos estão sendo “salvos” quando tangenciam o tema. Fugas parciais, generalizações excessivas e interpretações apressadas passaram a pesar mais negativamente.
Muitos alunos escreveram “bons textos”, mas não textos plenamente ajustados ao recorte exigido.
2. Rigor maior no uso de repertórios socioculturais
Repertórios coringas, citações soltas e referências apenas “decorativas” foram mais penalizadas.
O ENEM 2025 deixou claro que repertório só pontua quando é funcional, isto é, quando contribui diretamente para a construção do argumento. Citar não é suficiente. É preciso integrar, explicar e relacionar.
3. Aplicação mais criteriosa das competências
As cinco competências continuam as mesmas, mas a margem de compensação diminuiu. Um bom domínio da norma-padrão, por exemplo, já não “anula” ou “mascara” falhas argumentativas.
Da mesma forma, uma boa estrutura não encobre problemas de interpretação ou incoerências. Cada competência passou a ser avaliada com mais precisão e menos flexibilidade.
Ou seja, em síntese, o ENEM 2025 não reinventou a redação. Ele passou a cobrar com mais precisão aquilo que sempre declarou avaliar. A queda e a discrepância nas notas refletem menos uma mudança de regras e mais uma mudança de postura na correção.
Então por que tanta gente foi pega de surpresa?
Porque muitos estudantes estavam treinados para um padrão antigo de tolerância, baseado em fórmulas prontas, repertórios decorados e argumentos genéricos que “funcionavam”. Em 2025, esse modelo mostrou suas limitações.
O que essa mudança nas notas do ENEM 2025 nos ensina?
Que a redação do Exame Nacional do Ensino Médio não quer textos bonitos ou rebuscados, mas textos conscientes, bem interpretados e bem defendidos.
A queda e a discrepância nas notas não são aleatórias: elas refletem uma cobrança mais alinhada ao que a prova sempre declarou valorizar — mas agora aplica com mais rigor.
Entender isso é o primeiro passo para não repetir os mesmos erros. E, sobretudo, para escrever uma redação que não apenas “siga o modelo”, mas convença, argumente e se sustente.
Competência II: o novo filtro da redação do ENEM
Entre as cinco competências avaliadas na redação do ENEM, a Competência II ganhou, nos últimos anos, um papel central na diferenciação das notas — e, em 2025, tornou-se o principal filtro de qualidade dos textos.
Lembram-se daquele burburinho sobre “Repertório de Bolso”?
Esse é apenas um dos pontos dessa competência que se tornou mais criteriosa. Avaliar a Competência II significa analisar se o candidato compreendeu corretamente a proposta, desenvolveu o tema dentro do recorte exigido e mobilizou conhecimentos de modo produtivo, coerente e pertinente.
O que se observou na correção recente foi uma postura menos tolerante a textos que, embora bem escritos, não sustentam argumentação autoral nem diálogo real com a proposta.
Durante anos, o repertório sociocultural foi tratado por muitos estudantes como um adorno obrigatório: algo a ser citado para “valorizar” o texto. Em 2025, essa lógica se mostrou insuficiente.
A banca passou a cobrar relevância, não apenas presença. Citações gratuitas, nomes de autores inseridos sem explicação ou exemplos desconectados da tese deixaram de pontuar — e, em muitos casos, passaram a prejudicar o desempenho na Competência II, por evidenciar compreensão superficial do tema.
O repertório passou a funcionar como um teste de entendimento:
- se o aluno compreende o problema, ele consegue selecionar, explicar e integrar a referência ao argumento;
- se não compreende, a citação apresenta-se de modo desconectado e aleatório, sem agregar à discussão, comprometendo não apenas a Competência II, como também a Competência III.
Querem ver isso na prática?
“A gravidez precoce gera preconceito no Brasil. Segundo Erving Goffman, o estigma afeta a vida das pessoas. Assim, muitas adolescentes sofrem exclusão social, o que comprova a gravidade do problema.”
Aqui, embora o autor seja mencionado, o repertório:
- não é desenvolvido;
- não se articula claramente à tese;
- funciona apenas como citação ilustrativa;
- revela compreensão superficial do conceito utilizado.
Em contrapartida, o uso qualificado de um repertório pode alavancar toda a argumentação…
“Diante desse cenário, é válido destacar que a exclusão de convivência imposta às adolescentes constitui um dos principais efeitos dos preconceitos associados à gravidez precoce no Brasil. Nesse panorama, conforme aponta o sociólogo Erving Goffman, o estigma opera como uma marca social pejorativa que desqualifica o indivíduo, restringindo sua participação plena nos espaços coletivos — dinâmica que se manifesta, em geral, quando a jovem gestante passa a ser vista apenas por sua condição materna, tendo sua identidade estudantil e social anulada. De modo análogo à visão do pensador, nota-se, no contexto brasileiro, a concretização desse processo de segregação, potencializado pela fragilidade das redes de acolhimento familiar e comunitário…”
Nesse caso, o repertório:
- é pertinente ao problema discutido;
- é explicado, não apenas citado;
- ajuda a interpretar a realidade brasileira;
- fortalece a tese apresentada.
Portanto, a Competência II tornou-se o novo crivo da redação do ENEM porque avalia aquilo que não pode ser decorado:
- compreensão;
- coerência;
- e autoria.
A queda nas notas não decorre de arbitrariedade, mas do fim da tolerância a estratégias mecânicas que simulavam profundidade sem, de fato, argumentar.
Lições para quem vai fazer o ENEM 2026
Se a Competência II se consolidou como o novo filtro da redação do ENEM, a principal lição para quem prestará a prova em 2026 é clara: não basta escrever bem — é preciso compreender profundamente o que se escreve.
A preparação precisa migrar de uma lógica de acúmulo de fórmulas para uma:
- formação sólida em leitura interpretativa;
- argumentação;
- e uso funcional do repertório sociocultural.
1. Leitura interpretativa: o ponto de partida de toda boa redação
Antes de qualquer planejamento textual, está a leitura. Ler o tema com atenção, identificar o problema central, reconhecer o recorte específico e compreender o comando implícito deixaram de ser etapas intuitivas e passaram a ser habilidades decisivas.
A maior parte das perdas de nota em 2025 não ocorreu por erro gramatical, mas por desalinhamento interpretativo.
Em 2026, quem não treinar leitura estratégica continuará escrevendo textos medíocres.
2. Argumentação: menos enfeite, mais construção lógica
Argumentar no ENEM não é repetir ideias socialmente aceitas, mas organizar raciocínios consistentes.
A prova tem valorizado textos que apresentam tese clara, sustentada por argumentos desenvolvidos e articulados entre si. Isso exige treino direcionado:
- aprender a relacionar causa e consequência;
- a evitar generalizações vazias;
- e a construir parágrafos que realmente avancem na discussão.
A argumentação não nasce do improviso; ela se consolida com prática orientada.
3. Repertório útil: qualidade supera quantidade
O repertório sociocultural deixou de ser um “acessório obrigatório” e passou a funcionar como critério de distinção. Em 2026, será cada vez mais evidente que citar muito não é sinônimo de pontuar mais. O que importa é a capacidade de:
- selecionar referências pertinentes;
- explicá-las adequadamente;
- e integrá-las à tese.
Um único repertório bem articulado vale mais do que três citações soltas. Estudar repertório, portanto, significa aprender quando, como e por que usá-lo.
4. Treino com frequência e constância
Escrever uma redação esporadicamente não desenvolve competência argumentativa. A evolução ocorre com frequência e constância, mesmo que em intervalos curtos.
Treinos semanais, focados em aspectos específicos, tendem a gerar mais avanço do que produções isoladas e sem objetivo claro.
5. Correção profissional: onde o aprendizado se consolida
Por fim, nenhuma preparação é completa sem correção criteriosa e profissional. É na devolutiva qualificada que o aluno entende onde erra, por que perde pontos e como pode evoluir.
Em um cenário de correção mais rigorosa, depender apenas da autoavaliação ou de comentários genéricos é insuficiente. A correção precisa dialogar com as competências do ENEM e orientar ajustes concretos na escrita.
O ENEM 2026 não exigirá uma redação diferente — exigirá um candidato mais preparado. Quem compreender as lições deixadas pelas notas de 2025 sairá à frente:
- lendo melhor;
- argumentando com mais consciência;
- usando repertório com propósito;
- e treinando de forma constante e orientada.
Depois de entender como ajustar sua estratégia de redação para o ENEM 2026, é hora de olhar para a nota como um todo.
Acesse o artigo “Como calcular a nota do ENEM e saber se dá para passar em Medicina” e aprenda a calcular sua nota média com base nos critérios da prova.
Em resumo
O que aconteceu com as notas do ENEM 2025?
As notas do ENEM 2025 causaram estranhamento porque muitos estudantes tiveram resultados abaixo do esperado, especialmente na redação. A discrepância não indica mudança de regras, mas um rigor maior na aplicação dos critérios de correção.
A correção da redação do ENEM ficou mais criteriosa?
Sim. A estrutura da redação permaneceu a mesma, mas a correção passou a ser mais rigorosa e menos tolerante a erros interpretativos, argumentos genéricos e repertórios mal utilizados.
Quais as cinco competências de avaliação da redação do ENEM?
A redação do ENEM é avaliada com base em cinco competências:
- domínio da norma-padrão da língua;
- compreensão do tema e desenvolvimento do texto;
- organização e defesa dos argumentos;
- coesão e encadeamento das ideias;
- elaboração de uma proposta de intervenção coerente.
Artigo escrito por
Plataforma Assaad