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Questão 09, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

A volta do marido pródigo
– Bom dia, seu Marrinha! Como passou de ontem?
– Bem. Já sabe, não é? Só ganha meio dia. […]
Lá além, Generoso cotuca Tercino:
– […] Vai em festa, dorme que-horas, e, quando chega, ainda é todo enfeitado e salamistrão!…
– Que é que hei de fazer, seu Marrinha… Amanheci com uma nevralgia… Fiquei com cisma de apanhar friagem…
– Hum…
– Mas o senhor vai ver como eu toco o meu serviço e ainda faço este povo trabalhar…
[…]
Pintão suou para desprender um pedrouço, e teve de pular para trás, para que a laje lhe não esmagasse um pé. Pragueja:
– Quem não tem brio engorda!
– É… Esse sujeito só é isso, e mais isso… – opina Sidu.
– Também, tudo p’ra ele sai bom, e no fim dá certo…
– diz Correia, suspirando e retomando o enxadão. –
“P’ra uns, as vacas morrem … p’ra outros até boi pega a parir…”.
Seu Marra já concordou:
– Está bem, seu Laio, por hoje, como foi por doença, eu aponto o dia todo. Que é a última vez!… E agora, deixa de conversa fiada e vai pegando a ferramenta!

ROSA, J. G. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.

Esse texto tem importância singular como patrimônio linguístico para a preservação da cultura nacional devido

A) à menção a enfermidades que indicam falta de cuidado pessoal.

B) à referência a profissões já extintas que caracterizam a vida no campo.

C) aos nomes de personagens que acentuam aspectos de sua personalidade.

D) ao emprego de ditados populares que resgatam memórias e saberes coletivos.

E) às descrições de costumes regionais que desmistificam crenças e superstições.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário
  • Literatura Brasileira (Regionalismo / Guimarães Rosa)
  • Variação Linguística e Patrimônio Cultural

Tema/Objetivo Geral: Identificar elementos da linguagem popular que funcionam como depositários da memória e sabedoria de uma comunidade.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige que o leitor vá além da trama superficial (um trabalhador chegando atrasado) e analise a linguagem como um objeto cultural. É preciso “pesar” o valor dos diferentes elementos linguísticos presentes (nomes, gírias, ditados) e concluir qual deles melhor representa um “saber coletivo”.

Gabarito: D) ao emprego de ditados populares que resgatam memórias e saberes coletivos.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque os ditados populares são a forma mais pura de “cápsulas de sabedoria”, transmitindo a visão de mundo e a experiência de gerações de forma concisa, sendo a essência do patrimônio linguístico imaterial.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pergunta: “Se este texto fosse um museu, qual seria a peça mais valiosa que ele guarda para proteger a cultura brasileira?”.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na cultura de um povo como um grande rio. A conversa do dia a dia são as águas da superfície, que passam e mudam. Os nomes das pessoas são como as pedras individuais no leito. Mas os ditados populares são como as pepitas de ouro no fundo do rio: densos, valiosos, formados ao longo de séculos e carregando a essência daquele lugar. O verdadeiro desafio aqui é encontrar as pepitas de ouro.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Mapear o Terreno: Faremos uma leitura atenta para identificar todos os diferentes tipos de linguagem “não-padrão” no texto.
    2. Isolar as “Pepitas”: Vamos focar nos trechos que soam como sabedoria antiga, frases prontas que servem para qualquer situação.
    3. Avaliar o Valor do Achado: Analisaremos por que essas “pepitas” são mais valiosas como “patrimônio coletivo” do que as outras pistas linguísticas.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para organizar as provas deste caso, vamos criar um Dossiê de Provas Linguísticas, avaliando o “nível de patrimônio” de cada elemento.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ: O PATRIMÔNIO LINGUÍSTICO DE SAGARANA

Tipo de Prova Exemplo no Texto Análise do Valor Cultural Nível de Patrimônio
Nomes Próprios Sugestivos Generoso, Marra Interessante para a caracterização individual dos personagens, mas não representa um saber coletivo. É uma escolha artística do autor. Individual
Coloquialismos e Regionalismos “cotuca”, “salamistrão”, “p’ra” Fundamental para dar cor e autenticidade ao diálogo. Captura o som de uma região e de uma classe social. Representa um hábito coletivo. Coletivo (Hábito)
Ditados Populares (Provérbios) 1. “Quem não tem brio engorda!”<br>2. “P’ra uns, as vacas morrem … p’ra outros até boi pega a parir…” Ouro puro! São frases que encapsulam uma filosofia de vida, uma moral, um saber sobre o mundo (justiça, sorte, destino). Elas não pertencem a um personagem, mas a toda a comunidade. São a herança oral. Coletivo (SABEDORIA)

A análise do dossiê mostra que, embora todos os elementos sejam ricos, os ditados populares operam em um nível mais profundo de transmissão cultural.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A cena é simples: Laio chega atrasado, dá uma desculpa e os outros trabalhadores resmungam. Mas observe como eles resmungam. Eles não dizem apenas “que folgado!”. Eles recorrem a fórmulas que seus pais e avós provavelmente já usavam.

Quando Pintão pragueja “Quem não tem brio engorda!”, ele não está apenas xingando Laio. Ele está evocando um código moral inteiro sobre honra, trabalho e vergonha na cara. É uma lei não escrita, dita em forma de provérbio.

Quando Correia suspira “P’ra uns, as vacas morrem … p’ra outros até boi pega a parir…”, ele eleva a fofoca a um nível filosófico. Ele está falando sobre sorte, destino, a injustiça da vida. É uma observação que serve para Laio, mas também para qualquer outra situação de sorte ou azar. É universal dentro daquela cultura.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C), sobre os nomes dos personagens. É verdade que Guimarães Rosa é mestre em criar nomes simbólicos (“Marra” para o chefe, “Generoso” talvez ironicamente). Isso é uma característica importante da obra do autor. Mas a questão não é sobre o estilo de Rosa, e sim sobre o patrimônio linguístico que o texto registra. Os nomes são uma criação individual do artista; os ditados são uma coleta da sabedoria coletiva do povo.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que os ditados populares são os elementos que mais fortemente cumprem a função de “resgatar memórias e saberes coletivos”, pois são formulações anônimas, passadas de geração em geração, que carregam a essência da experiência e da filosofia de uma comunidade.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, focar em um elemento linguístico que seja compartilhado, tradicional e portador de um saber ou de uma moral.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) à menção a enfermidades que indicam falta de cuidado pessoal.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na desculpa da “nevralgia”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Focar em um detalhe secundário da trama). A doença é apenas um pretexto no diálogo, não um elemento central da cultura sendo preservada.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) à referência a profissões já extintas que caracterizam a vida no campo.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor assume que o texto descreve profissões que não existem mais.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema / Informação Ausente. O texto não detalha ou nomeia profissões, muito menos extintas. Fala de “serviço” e “ferramenta” de forma genérica.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) aos nomes de personagens que acentuam aspectos de sua personalidade.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica” e foca no estilo do autor.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Criação Autoral com Patrimônio Coletivo. Os nomes são geniais, mas são da lavra de Guimarães Rosa, não um “saber coletivo” que ele resgatou.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) ao emprego de ditados populares que resgatam memórias e saberes coletivos.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. Esta alternativa descreve com precisão cirúrgica a função das “pepitas de ouro” que encontramos. Os ditados são o veículo perfeito para “memórias e saberes coletivos”.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) às descrições de costumes regionais que desmistificam crenças e superstições.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor associa “cultura regional” com “crenças e superstições”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. O texto não descreve costumes (como festas ou rituais) nem se propõe a desmistificar nada. Ele apresenta a linguagem e a mentalidade de forma crua, sem julgamento.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois Guimarães Rosa atua como um antropólogo da linguagem, mostrando que em pequenas frases populares se escondem grandes filosofias de vida, o verdadeiro tesouro da cultura de um povo.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Ditados populares são o DNA da cultura: em um pequeno fragmento, está o código genético de um povo inteiro.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conceito de ditados populares como patrimônio conecta-se diretamente à ideia de “Memes”, proposta pelo biólogo Richard Dawkins. Um meme é uma unidade de informação cultural (uma ideia, melodia, ou, neste caso, um provérbio) que se replica de cérebro para cérebro, de geração para geração, de forma análoga a um gene. Os ditados “Quem não tem brio engorda!” e “até boi pega a parir…” são memes culturais extremamente bem-sucedidos. Eles “sobreviveram” e se “reproduziram” por serem eficientes em encapsular e transmitir uma ideia complexa, garantindo a perpetuação de um saber coletivo.

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