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Questão 40, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

A neozelandesa Laurel Hubbard fez história nos Jogos Olimpicos. Apesar de ter ficado de fora da disputa por medalhas, a levantadora de peso deixou sua marca na edição de Tóquio por ser a primeira mulher abertamente transgênero a participar de uma competição olímpica. No início da carreira, na década de 1990, a neozelandesa participava de disputas na categoria masculina. Em 2001, aos 23 anos, ela se afastou da atividade. “A pressão de tentar me encaixar em um mundo que talvez não tenha sido feito para pessoas como eu se tornou um fardo muito grande para suportar.” Em 2012, Laurel começou sua transição de gênero por meio de terapias hormonais e, em 2013, declarou abertamente ser uma mulher trans. Para o Comitê Olímpico Internacional, a participação de mulheres trans nos Jogos é permitida caso o nível de testosterona, hormônio que aumenta a massa muscular, esteja abaixo de 10 nanomols por litro por pelo menos 12 meses.

Disponivel em: https://revistagalileu.globo.com Acesso em: 18 nov. 2021 (adaptado).

No texto, os limites do potencial inclusivo do esporte são dados pela

a) dificuldade de conseguir bons resultados esportivos.

b) dependência de características biológicas padronizadas.

c) inexistência de uma categoria para pessoas transgênero.

d) necessidade de afastamento temporário das competições.

e) impossibilidade de uso controlado de substâncias exógenas.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • Sociologia (Inclusão Social, Gênero e Esporte)
    • Biologia (Fisiologia Hormonal)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar a complexa relação entre inclusão de atletas trans e a regulamentação do esporte de alto rendimento, que se baseia em critérios biológicos para definir as categorias.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque exige que o candidato interprete uma regra específica (o nível de testosterona) não como uma solução, mas como a própria manifestação de um limite. É preciso entender o paradoxo: a regra que permite a inclusão é, ao mesmo tempo, a regra que limita a inclusão a um padrão biológico, revelando a dificuldade do esporte em lidar com a identidade de gênero para além da biologia.
  • Gabarito: B) dependência de características biológicas padronizadas.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o texto deixa claro que a inclusão de Laurel Hubbard não se baseou em sua identidade de gênero, mas foi condicionada a ela se enquadrar em um padrão biológico específico e mensurável (nível de testosterona), o que demonstra que a biologia padronizada ainda é o limite para a inclusão no esporte.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto celebra a participação histórica de Laurel Hubbard, uma mulher trans, nas Olimpíadas. No entanto, ele também nos conta qual foi a regra que ela precisou seguir para ser aceita. A questão quer que a gente olhe para essa regra e entenda por que ela, ao mesmo tempo que inclui, também mostra os limites da inclusão no esporte.

Simplificando, imagine que um clube de elite decide se tornar mais inclusivo e aceitar novos membros que não são ricos. No entanto, ele impõe uma regra: os novos membros só podem entrar se passarem por um teste e provarem que seu “nível de sofisticação” está abaixo de um certo limite. A regra permite a entrada de alguns, mas mostra que o clube ainda não está totalmente aberto; ele ainda usa uma régua antiga para medir as pessoas. A questão quer saber qual é a “régua” que o esporte usa e que limita sua própria inclusão.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Entender a Luta Pessoal de Hubbard: Vamos analisar o motivo de seu afastamento inicial para compreender a barreira social que ela enfrentou.
  • 2. Identificar a “Regra de Ouro” do COI: Vamos focar na regra específica que o Comitê Olímpico Internacional impôs para permitir a participação de mulheres trans.
  • 3. Diagnosticar a Limitação: Vamos analisar a natureza dessa regra para entender por que ela representa um limite ao potencial inclusivo do esporte.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta essencial é a análise da Lógica do Esporte de Competição.

Dossiê da Inclusão Esportiva:

  • O Ideal da Inclusão: O esporte moderno busca ser uma força de união, celebrando a diversidade humana. O lema olímpico “Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte – Juntos” reflete isso.
  • O Dilema da Competição: Ao mesmo tempo, o esporte de alto rendimento é baseado na ideia de “competição justa” (fair play), o que exige a criação de categorias para que atletas com características semelhantes compitam entre si. A divisão mais fundamental é entre as categorias masculina e feminina.
  • A Base da Divisão Tradicional: Historicamente, essa divisão foi baseada unicamente no sexo biológico designado no nascimento.
  • O Desafio Transgênero: Atletas transgênero desafiam essa divisão simples. Laurel Hubbard se identifica e vive como mulher (identidade de gênero), mas passou pela puberdade masculina (sexo biológico).
  • A “Solução” do COI (A Pista do Texto): O Comitê Olímpico não baseia a inclusão na identidade de gênero. Ele cria uma “ponte” baseada na fisiologia: se a atleta trans conseguir modificar seu corpo para se adequar a um padrão biológico (nível de testosterona) próximo ao das mulheres cisgênero, ela pode competir.

Veredito do Detetive: A inclusão não é incondicional. Ela é condicionada a um critério biológico. O esporte diz: “Eu te aceito como mulher, desde que seu corpo se encaixe neste padrão que eu defini”. Este “desde que” é o limite.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a focar na regra da testosterona. Essa regra é uma tentativa de equilibrar dois princípios: a inclusão (permitir que mulheres trans compitam na categoria feminina) e a justiça competitiva (garantir que não haja uma vantagem fisiológica percebida como injusta).

No entanto, ao fazer isso, o esporte revela seu limite. Ele não consegue, ou ainda não está preparado para, abraçar a identidade de gênero como o único critério. Ele ainda precisa de uma âncora na biologia, em um número, um “padrão” mensurável. A identidade auto declarada da atleta não é suficiente; ela precisa ser validada por um exame de sangue.

É por isso que a regra da testosterona, mesmo sendo a porta de entrada para Hubbard, é também o muro que mostra até onde a inclusão vai. A porta só se abre se a chave biológica couber na fechadura.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a alternativa (C) “inexistência de uma categoria para pessoas transgênero”. O erro é pensar que a única solução seria criar uma “terceira categoria”. Embora seja uma possibilidade em debate, o texto não a menciona. A questão pede para identificar o limite dado pelo texto. E o limite que o texto apresenta é a regra dentro da categoria feminina, não a falta de outra categoria.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a inclusão de atletas trans no esporte de elite não é absoluta, mas condicionada à adequação do corpo da atleta a um critério fisiológico numérico e padronizado, estabelecido pelas autoridades esportivas.
    • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essa dependência de um padrão biológico como o fator limitante.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil do limite em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) dificuldade de conseguir bons resultados esportivos.
O erro é Foco Incorreto. O fato de Hubbard não ter ganhado medalha é um resultado, não um limite à sua participação. A inclusão é sobre o direito de competir, não sobre a obrigação de vencer.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) dependência de características biológicas padronizadas.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. A regra da testosterona é a definição exata de uma “característica biológica padronizada” da qual a participação “depende”. É a descrição precisa do limite imposto pelo COI.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

c) inexistência de uma categoria para pessoas transgênero.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é Fuga ao Tema do Texto. O texto discute as regras para a inclusão na categoria existente, não a criação de uma nova.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) necessidade de afastamento temporário das competições.
O erro é Interpretação Equivocada. O afastamento de Hubbard foi uma decisão pessoal motivada por pressões sociais, não uma regra ou um limite imposto pelo esporte para a inclusão.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) impossibilidade de uso controlado de substâncias exógenas.
O erro é Foco Incorreto. A regra não é sobre proibir o uso, mas sobre o resultado desse uso. A terapia hormonal (uso de substâncias exógenas) é justamente o que permite à atleta atingir o nível de testosterona exigido. A questão é o padrão a ser atingido, não as substâncias em si.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa B é a correta. A história de Laurel Hubbard ilustra o complexo dilema do esporte contemporâneo: enquanto busca ser mais inclusivo, ele ainda se vê preso à sua própria estrutura, que depende de características biológicas padronizadas para organizar a competição.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O esporte abriu a porta para Laurel Hubbard, mas antes exigiu ver o resultado do seu exame de sangue para ter certeza de que ela se encaixava no molde.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo dilema de “inclusão vs. padronização” é um debate central na área da Educação, especificamente na discussão sobre testes padronizados de larga escala (como o ENEM ou o PISA). Por um lado, esses testes buscam criar um padrão justo para avaliar todos os alunos (a “justiça competitiva”). Por outro, eles são criticados por imporem um “padrão biológico” em sentido figurado, ou seja, um modelo único de inteligência e conhecimento que ignora as diversas identidades, contextos sociais e formas de aprender dos alunos (o “limite da inclusão”). O debate sobre como criar um sistema que seja ao mesmo tempo justo e verdadeiramente inclusivo, reconhecendo a diversidade humana, é o mesmo, seja no estádio olímpico ou na sala de aula.

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