TEXTO I
Zapeei os canais, como há dezenas de anos faço, e pá: parei num que exibia um episódio daquela velha família do futuro, Os Jetsons.
Nesse episódio em particular, a Jane Jetson, esposa do George, tratava de dirigir aquele veículo voador deles. Meu queixo foi caindo à medida que as piadinhas machistas sobre mulheres dirigirem foram se acumulando.
Impressionante! Que futuro careta aqueles roteiristas imaginavam! Seriam incapazes de projetar algo melhor, e não apenas em termos de tecnologias, robôs e carros voadores? Será que nossa máxima visão de futuro só atinge as coisas, e jamais as pessoas? Como a Jane, uma mulher de 33 anos no desenho, poderia ser o que foram as minhas bisavós?
O futuro, naquele desenho, se esqueceu de ser melhor nas relações entre as pessoas. Aliás… tão parecido com a vida.
Fiquei de cara, como dizemos aqui, ou como dizíamos na minha adolescência, pobre adolescência, aprendendo, sem querer e sem muita defesa, um futuro tão besta quanto o passado.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: www.rascunho.com.br. Acesso em: 21 out. 2021 (adaptado).
TEXTO II
Masculino e feminino são campos escorregadios que só se definem por oposição, sempre incompleta, um do outro. São formações imaginárias que buscam produzir uma diferença radical e complementar onde só existem, de fato, mínimas diferenças. O resto é questão de estilo. Até pelo menos a segunda metade do século 19, o divisor de águas era claro: os homens ocupavam o espaço público. As mulheres tratavam da vida privada. Privada de quê? De visibilidade, diria Hannah Arendt. De visibilidade pública. Do que as mulheres estiveram privadas até o século 20 foi de presença pública manifesta não em imagem, mas em palavra. A palavra feminina, reservada ao espaço doméstico, não produzia diferença na vida social.
KHEL, M. R. Disponível em: https://alias.estadao.com.br. Acesso em: 19 out. 2021 (adaptado).
A representação da mulher apresentada no Texto I pode ser explicada pelo Texto II no que diz respeito à(às)
a) censura a formas de expressão femininas.
b) ausência da figura feminina na vida pública.
c) construções imaginárias cristalizadas na sociedade.
d) limitações inerentes às figuras femininas e masculinas.
e) dificuldade na atribuição de papéis masculinos e femininos.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto (Crítica Cultural e Ensaio Teórico)
- Sociologia (Estudos de Gênero, Construção Social)
- Comunicação (Análise de Mídia)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar como estereótipos de gênero, sendo construções sociais historicamente enraizadas, são reproduzidos na cultura popular, mesmo em narrativas que se propõem a imaginar o futuro.
- Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão é de nível médio porque exige a capacidade de conectar um exemplo concreto (a crítica ao desenho “Os Jetsons”) a uma teoria abstrata (a construção social do gênero). O candidato precisa entender o conceito de “formações imaginárias” do Texto II e aplicá-lo para explicar o fenômeno de anacronismo cultural descrito no Texto I.
- Gabarito: C) construções imaginárias cristalizadas na sociedade.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o Texto II explica que os papéis de gênero são “formações imaginárias” que se solidificam (“cristalizam”) na sociedade. O Texto I exemplifica isso ao mostrar como os roteiristas de “Os Jetsons”, mesmo imaginando um futuro tecnológico, foram incapazes de se libertar dessas ideias cristalizadas sobre o papel da mulher.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Em bom português, a missão é a seguinte: o Texto I descreve a decepção de alguém ao perceber que um desenho antigo sobre o futuro (“Os Jetsons”) era super machista. O Texto II, por sua vez, nos dá uma aula de sociologia, explicando que as ideias de “masculino” e “feminino” são, na verdade, invenções da nossa cultura. A questão quer que a gente use a “aula” do Texto II para explicar a “decepção” do Texto I.
Simplificando, o Texto I é alguém dizendo: “Não acredito que os criadores de um desenho com carros voadores pensavam que as mulheres do futuro seriam como as minhas bisavós!”. O Texto II é o professor que responde: “É porque as ideias sobre o que é ‘ser mulher’ são como fósseis na nossa cultura; são tão antigas e duras que é muito difícil quebrá-las, mesmo quando se está tentando imaginar o futuro”. A questão quer que a gente encontre a alternativa que resume a explicação do professor.
Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:
- 1. Diagnosticar o “Crime” em “Os Jetsons” (Texto I): Vamos identificar qual é o problema específico que o autor aponta na representação da personagem Jane Jetson.
- 2. Entender a “Teoria do Gênero” (Texto II): Vamos decifrar a tese principal do Texto II sobre o que são o “masculino” e o “feminino”.
- 3. Conectar a Teoria à Prática: Vamos usar a teoria do Texto II para explicar por que os roteiristas do desenho cometeram o “crime” identificado no Texto I.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
A ferramenta essencial para este caso é a análise do conceito de Construção Social, conforme apresentado no Texto II.
Dossiê da Construção de Gênero:
- A Tese de Maria Rita Kehl (Texto II):
- “Masculino e feminino […] só se definem por oposição“. Não são essências, são relações.
- São “formações imaginárias“. Ou seja, são ideias, conceitos, imagens que a cultura cria e não coisas que a natureza dá prontas.
- Essas ideias buscam criar uma “diferença radical” onde só existem “mínimas diferenças” biológicas.
- Historicamente, essa invenção serviu para justificar uma divisão de poder: homens no espaço público, mulheres no espaço privado (“privada de visibilidade”).
- O Conceito-Chave: Cristalização
- Quando essas “formações imaginárias” são repetidas por séculos (na família, na escola, na mídia), elas se tornam tão sólidas e “naturais” que parecem ser a própria realidade. Elas se cristalizam. Quebrar esses cristais de pensamento é extremamente difícil.
Veredito do Detetive: O Texto II nos diz que os papéis de gênero não são fatos, são ficções poderosas que se tornaram tradição.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A execução do nosso plano agora consiste em aplicar essa teoria ao caso de “Os Jetsons”.
O autor do Texto I fica chocado porque os roteiristas conseguiram imaginar carros voadores, mas não conseguiram imaginar uma mulher que não fosse alvo de piadas machistas. A pergunta dele é reveladora: “Será que nossa máxima visão de futuro só atinge as coisas, e jamais as pessoas?”.
O Texto II responde a essa pergunta. Sim, é muito mais fácil imaginar novas tecnologias (“as coisas”) do que imaginar novas relações sociais (“as pessoas”). Por quê? Porque as tecnologias são novas, mas as ideias sobre gênero são antigas e cristalizadas. Os roteiristas de “Os Jetsons”, mesmo olhando para o futuro, estavam com os pés presos nesses “cristais” do passado. Eles reproduziram as “formações imaginárias” sobre a mulher que eram dominantes em sua época (o desenho é dos anos 60). A Jane Jetson do futuro é como a bisavó do autor porque ambos os personagens foram moldados pela mesma construção imaginária cristalizada sobre o papel da mulher.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B) “ausência da figura feminina na vida pública”. O erro é que, embora o Texto II use isso como um exemplo histórico, o problema no Texto I não é que Jane Jetson está ausente. Ela está presente, ela dirige um carro voador (uma atividade no espaço “público”). O problema não é sua ausência, mas a qualidade de sua presença: ela está lá para ser o alvo de “piadinhas machistas”, ou seja, para reforçar um estereótipo, não para quebrá-lo.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que a representação machista em “Os Jetsons” pode ser explicada como a reprodução de ideias sobre o feminino que, por serem construções sociais antigas e solidificadas, persistiram mesmo em uma narrativa sobre o futuro.
- Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essas ideias ou construções imaginárias como a causa do problema.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com nosso perfil da explicação em mãos, vamos interrogar os suspeitos.
a) censura a formas de expressão femininas.
O erro é Fuga ao Tema. O texto não fala de censura, mas da reprodução de estereótipos pelos próprios criadores do desenho.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
b) ausência da figura feminina na vida pública.
Esta é a armadilha que desarmamos. O problema não é a ausência, mas a representação estereotipada da presença.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) construções imaginárias cristalizadas na sociedade.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. Ela usa os próprios termos do Texto II (“formações imaginárias”, que são as construções) e a ideia de que elas se solidificam (“cristalizadas”) para explicar por que a representação no Texto I é tão anacrônica. A correspondência é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
d) limitações inerentes às figuras femininas e masculinas.
O erro é uma Contradição Direta com o Texto II, que afirma que as diferenças são “mínimas” e que as grandes limitações são construídas, não “inerentes” (naturais).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
e) dificuldade na atribuição de papéis masculinos e femininos.
O erro é uma Contradição Direta. O problema em “Os Jetsons” não é a dificuldade em atribuir papéis, mas a facilidade com que atribuíram os papéis mais velhos e estereotipados.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Confirmamos que a alternativa C é a correta. A crítica à representação da mulher em “Os Jetsons” é perfeitamente explicada pela teoria de que os papéis de gênero são construções imaginárias que se cristalizam na sociedade, tornando-se difíceis de desconstruir mesmo por aqueles que tentam imaginar o futuro.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Os roteiristas de “Os Jetsons” desenharam um carro voador, mas a motorista que colocaram dentro ainda era movida pelo motor a combustão do machismo do século XX.
- 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de que as “construções imaginárias cristalizadas” são difíceis de superar, mesmo em campos inovadores, é visível no desenvolvimento da Inteligência Artificial. Muitos dos primeiros assistentes virtuais (como Siri e Alexa) foram lançados com vozes e personalidades femininas, programadas para serem servis e passivas, reproduzindo a “construção imaginária” da mulher como assistente. Da mesma forma, algoritmos de reconhecimento facial historicamente tiveram mais dificuldade em identificar corretamente rostos de mulheres e de pessoas negras. Isso não acontece porque os computadores são “machistas” ou “racistas”, mas porque eles são treinados por humanos e com dados que carregam os vieses e as ideias “cristalizadas” da nossa sociedade. A tecnologia avança, mas as “bisavós” ideológicas continuam a assombrar o código.