15% off para você conhecer a Plataforma Assaad

Didática mágica, resultados garantidos. Aproveite mais de 15% de desconto na Plataforma Assaad e garanta sua aprovação em Medicina ainda em 2025.

Questão 07, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

Mais iluminada que outras

Tenho dois seios, estas duas coxas, duas mãos que me são muito úteis, olhos escuros, estas duas sobrancelhas que preencho com maquiagem comprada por dezenove e noventa e orelhas que não aceitam bijuterias. Este corpo é um corpo faminto, dentado, cruel, capaz e violento. Movo os braços e multidões correm desesperadas. Caminho no escuro com o rosto para baixo, pois cada parte isolada de mim tem sua própria vida e não quero domá-las. Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos. Dizem e eu ouvi, mas depois também li, que o estado do Ceará aboliu a escravidão quatro anos antes do restante do país. Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo, todos eles foram interrompidos no porto. Um homem – dizem e eu ouvi e depois também li — liderou o levante. E todos esses corpos foram buscar outros incômodos. Foram ser incomodados.

ARRAES. J. Redemoinho em dia quente. São Paulo: Alfaguara, 2019.

Nesse texto, os recursos expressivos usados pela narradora

a) revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.

b) questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.

c) reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.

d) sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.

e) mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Literário
    • Literatura Contemporânea Brasileira
    • Estudos de Gênero e Raciais
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar como a construção da identidade de uma narradora negra contemporânea é atravessada pela herança histórica da violência racial e de gênero, expressa através de uma linguagem corporal e visceral.
  • Nível da Questão: Difícil.
    • Justificativa: A questão é difícil pela linguagem altamente poética e fragmentada do texto. A conexão entre a descrição do corpo no primeiro parágrafo e a menção à escravidão no segundo não é linear. Exige do leitor a capacidade de inferir que a “fome”, a “crueldade” e a “violência” do corpo da narradora não são características literais, mas metáforas da força e da resistência forjadas pela história de opressão de seus ancestrais.
  • Gabarito: A) revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o texto estabelece uma ponte direta entre a autopercepção corporal da narradora — descrita com termos de agressividade e força (“faminto, dentado, cruel, violento”) — e a memória da escravidão, sugerindo que sua identidade é construída a partir das marcas e da resistência a essa violência histórica de raça e gênero.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto é o desabafo de uma narradora. Na primeira parte, ela descreve seu corpo de uma forma muito intensa e agressiva. Na segunda parte, ela fala sobre a história da escravidão no Ceará, sua terra natal. A questão nos pede para entender o que a forma como ela descreve seu corpo (seus “recursos expressivos”) revela.

Simplificando, imagine que alguém te diz: “Minha pele é uma armadura, minhas mãos são garras, meu coração é uma fortaleza”. E logo em seguida, essa pessoa te conta que cresceu em um ambiente muito violento e hostil. O que a descrição do corpo dela revela? Revela que a identidade dela foi moldada, construída, a partir da necessidade de se defender dessa violência. A armadura, as garras, a fortaleza são as marcas dessa luta. A nossa tarefa é aplicar essa mesma lógica à narradora do texto.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Analisar a Autodescrição do Corpo: Vamos listar os adjetivos e imagens que a narradora usa para descrever seu próprio corpo.
  • 2. Analisar a Conexão Histórica: Vamos entender por que ela, de repente, começa a falar sobre a abolição da escravidão no Ceará. Qual é a ponte entre o corpo dela e essa história?
  • 3. Sintetizar a Relação Causal: Vamos juntar as duas partes para entender como a história da violência moldou a identidade expressa no corpo.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial para este caso é a análise da Justaposição Semântica, ou seja, como o significado de uma parte do texto é iluminado pela parte que vem em seguida.

Dossiê da Construção da Identidade:

  • Parte 1: O Corpo (A Identidade Presente)
    • Descrição: Começa com uma descrição física (“dois seios, duas coxas…”) mas rapidamente se torna visceral e metafórica.
    • Adjetivos-Chave: “faminto, dentado, cruel, capaz e violento”.
    • Imagens de Poder: “Movo os braços e multidões correm desesperadas”.
    • Auto-identificação: “Animal da caatinga. Forte demais. Engolidora de espadas e espinhos”.
    • Diagnóstico Parcial: A narradora se vê como uma força da natureza, indomável, poderosa e potencialmente perigosa. Ela recusa a domesticação (“não quero domá-las”).
  • Parte 2: A História (A Origem da Identidade)
    • O Tema: A abolição da escravidão no Ceará.
    • Descrição dos Ancestrais: “Todos aqueles corpos que eram trazidos com seus dedos contados, seus calcanhares prontos e seus umbigos em fogo”. Uma descrição que reduz os escravizados a corpos controlados e marcados.
    • A “Libertação”: “todos eles foram interrompidos no porto” e foram “ser incomodados” de outras formas.
    • Diagnóstico Parcial: A história de seus ancestrais é uma história de violência, controle corporal e uma liberdade incompleta.

Veredito do Detetive (A Justaposição): Por que a narradora justapõe essas duas descrições? Porque o corpo “violento” e “cruel” do presente é a resposta ao corpo controlado e violentado do passado. A força indomável da narradora é a herança de resistência contra a violência sofrida por seus ancestrais. Sua identidade é forjada no fogo da história da escravidão. As marcas não são físicas, são de identidade.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano revela a profunda conexão entre as duas partes do texto. A narradora, uma mulher negra cearense, não se descreve com adjetivos de beleza ou delicadeza. Ela se descreve com a linguagem da guerra, da sobrevivência. Ela é um “animal da caatinga”, um ser adaptado a um ambiente hostil.

Essa hostilidade não é apenas climática. O texto deixa claro que a hostilidade é histórica. A menção à escravidão não é aleatória. É a chave que decodifica o primeiro parágrafo. Os “corpos que eram trazidos com seus dedos contados” são os corpos de seus ancestrais. Eram corpos de mulheres (vítimas de violência de gênero) e corpos negros (vítimas de violência de raça).

A identidade “forte demais”, “cruel”, “violenta” da narradora é, portanto, a herança dessa dupla violência. É a força que ela precisou construir, ou que herdou, para sobreviver em um mundo que historicamente tentou domar e destruir os corpos como o dela. A sua identidade é a própria marca dessa luta.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C) “reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina”. O erro é uma completa inversão de lógica. A narradora está ativamente quebrando os padrões estéticos tradicionais de feminilidade (delicadeza, doçura). Ela se descreve como “cruel”, “violenta”, “animal”. É uma busca por autoestima, sim, mas através da rejeição dos padrões, e não da sua reprodução.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a narradora conecta a descrição de sua identidade corporal forte e agressiva à memória histórica da violência da escravidão, sugerindo que sua identidade é uma consequência e uma resposta a essa herança de opressão racial e de gênero.
    • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essa conexão entre a violência histórica (racial e de gênero) e a construção da identidade da personagem.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil da função dos recursos expressivos em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) revelam as marcas da violência de raça e de gênero na construção da identidade.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Marcas da violência de raça” (a história da escravidão) “e de gênero” (o corpo feminino descrito) “na construção da identidade” (a forma como ela se vê e se descreve). A descrição é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

b) questionam o pioneirismo do estado do Ceará no enfrentamento à escravidão.
O erro é Foco Incorreto. O texto menciona o pioneirismo como um fato histórico, mas a conclusão (“foram ser incomodados”) sugere que a abolição não foi uma solução completa. No entanto, o foco principal não é criticar o Ceará, mas usar essa história para explicar a identidade da narradora.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) reproduzem padrões estéticos em busca da valorização da autoestima feminina.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é uma Contradição Direta, pois a narradora quebra, em vez de reproduzir, os padrões estéticos tradicionais.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) sugerem uma atmosfera onírica alinhada ao desejo de resgate da espiritualidade.
O erro é Foco Incorreto. A linguagem é poética e visceral, mas não necessariamente “onírica” (de sonho). E o tema não é a espiritualidade, mas a história e o corpo.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) mimetizam, na paisagem, os corpos transformados pela violência da escravidão.
O erro é uma Inversão de Lógica. A narradora mimetiza a paisagem (“Animal da caatinga”) em seu corpo, e não o contrário. A metáfora vai da paisagem para o corpo, e serve para descrever sua identidade, não para falar da transformação física dos corpos escravizados.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa A é a correta. O texto de Jarid Arraes usa recursos expressivos poderosos para mostrar como a identidade de uma mulher negra contemporânea é profundamente marcada pela herança da violência de raça e de gênero, transformando o corpo em um território de memória e resistência.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O corpo da narradora não é um templo, é uma fortaleza construída com as pedras da história da escravidão para se defender no presente.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de que a identidade de um sistema é moldada pelas “marcas da violência” que ele sofreu é um conceito central em Imunologia, conhecido como Memória Imunológica. Quando nosso corpo é atacado por um patógeno (a “violência”), o sistema imunológico não apenas combate a infecção, ele “lembra”. Ele cria células de memória que carregam as “marcas” desse invasor. Essa memória transforma a identidade do sistema. Em um próximo encontro com o mesmo patógeno, a resposta será mais rápida, mais forte, mais “violenta” — assim como a identidade da narradora. A memória da violência nos torna mais fortes e preparados para a luta.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.