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Questão 69 caderno azul ENEM 2025 Dia 1

A difusão pelos cônegos do ideal apostólico, bem como a influência dos eremitas e dos pregadores errantes que na sua esteira propagavam temas evangélicos, contribuíram para fazer nascer, entre os fiéis, o desejo de se erguerem ao nível espiritual do clero e de obterem a sua salvação, sem que para isso tivessem de renunciar ao seu estado. Pela primeira vez, a Igreja entreabria as portas da graça em benefício da totalidade dos fiéis, colocando, como única condição, a sua partida para o Oriente, a fim de aí lutarem contra os inimigos de Cristo.

VAUCHEZ, A. A espiritualidade da Idade Média Ocidental, séc. VIII-XIII. Lisboa: Estampa, 1995.

Conforme o texto, no imaginário dos fiéis cristãos do período medieval, a salvação era alcançada por meio das

A) palavras escritas.

B) práticas litúrgicas.

C) ações voluntárias.

D) ideias messiânicas.

E) celebrações coletivas.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História (Idade Média, Cruzadas, Igreja Medieval)
  • Sociologia da Religião
  • Interpretação de Texto Histórico

Tema/Objetivo Geral:
A questão exige a interpretação de um texto sobre a espiritualidade medieval para identificar qual meio específico a Igreja passou a oferecer aos fiéis leigos como um caminho para a salvação, em um contexto que provavelmente se refere às Cruzadas.

Nível da Questão: Médio

  • A questão é de nível médio. Embora o texto forneça a resposta de forma relativamente direta, ela está expressa em uma linguagem que precisa ser decodificada (“partida para o Oriente, a fim de aí lutarem”). O candidato precisa conectar essa descrição a um conceito mais amplo (“ações voluntárias”). Além disso, o distrator “práticas litúrgicas” (letra B) é muito forte, pois representa o caminho tradicional para a salvação, exigindo que o candidato perceba a novidade que o texto está apresentando.

Gabarito: C

  • Esta alternativa está correta porque o texto afirma que a Igreja abriu um novo caminho para a salvação com a “única condição” de que os fiéis partissem para o Oriente para lutar. Essa partida e essa luta são ações concretas, realizadas por vontade própria, ou seja, ações voluntárias.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto e descobrir qual era a “nova receita” que a Igreja ofereceu para as pessoas comuns alcançarem a salvação na Idade Média. O que, especificamente, um fiel precisava fazer para garantir seu lugar no céu, segundo essa nova proposta?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que a “salvação” é um prêmio em uma competição. Antes, para ganhar, você precisava seguir regras muito estritas dentro de um ginásio (a vida monástica, as liturgias na igreja). O texto descreve um momento em que os juízes anunciam uma nova prova: “Agora, você também pode ganhar o grande prêmio se, voluntariamente, se inscrever e participar de uma grande gincana que acontecerá em uma terra distante”. A questão nos pede para identificar o que é essa “inscrição voluntária na gincana”. O verdadeiro desafio aqui é traduzir a “partida para o Oriente para lutar” para um conceito mais geral.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Identificar o desejo dos fiéis descrito no texto.
  • Identificar a “nova porta” que a Igreja abre para eles.
  • Analisar a “única condição” imposta para passar por essa porta.
  • Traduzir essa condição para a alternativa que melhor a descreve.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a mudança na mentalidade religiosa, vamos usar uma Tabela Comparativa que mostra o “antes” e o “depois” na busca pela salvação para os leigos (fiéis que não são do clero).

Característica O Caminho Tradicional O Novo Caminho (descrito no texto)
Foco da Ação Vida dentro da comunidade, rituais, orações, obediência às regras da Igreja. Uma missão específica, fora da vida cotidiana.
Nível de Envolvimento Passivo/Receptivo (assistir à missa, confessar). Ativo/Proativo (tomar a decisão de partir, lutar).
Natureza da Ação Práticas litúrgicas, sacramentos. Ações voluntárias, sacrifício pessoal e militar.
Quem pode alcançar? Todos, mas o clero e os monges tinham um caminho considerado “superior”. “Totalidade dos fiéis”, oferecendo uma forma de heroísmo religioso aos leigos.
Exemplo Histórico A vida paroquial comum. As Cruzadas (a “partida para o Oriente”).

A tabela destaca que a novidade foi a valorização de uma ação concreta e voluntária como um atalho poderoso para a graça divina.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos executar nosso plano de ataque.

  1. Desejo dos Fiéis: Eles queriam “obterem a sua salvação, sem que para isso tivessem de renunciar ao seu estado” (ou seja, sem precisar virar monges ou padres).
  2. A Nova Porta: A Igreja “entreabria as portas da graça em benefício da totalidade dos fiéis”. Uma nova oportunidade foi criada.
  3. A “Única Condição”: A condição para obter essa graça especial era “a sua partida para o Oriente, a fim de aí lutarem contra os inimigos de Cristo”.
  4. Tradução da Condição: “Partir” e “lutar” não são rituais de igreja nem ideias abstratas. São ações. E como ninguém era obrigado a ir (a partida era uma resposta a um chamado), eram ações voluntárias.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais forte aqui é a alternativa (B) “práticas litúrgicas”. O candidato sabe que ir à missa, rezar e participar dos sacramentos sempre foi um caminho para a salvação. O erro é não perceber que o texto está descrevendo uma mudança, uma novidade, um caminho adicional que foi oferecido. A questão é sobre o que o texto apresenta como o novo mecanismo, e o texto foca na missão militar, não nos rituais dentro da igreja.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O texto descreve um momento em que a Igreja ofereceu aos leigos a possibilidade de redenção através de um ato de sacrifício físico e militar, realizado por decisão própria em nome da fé.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever esse meio de salvação como algo que envolve uma ação decidida e executada pelo próprio fiel, ou seja, uma ação voluntária.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Agora, vamos analisar cada alternativa com nossa bússola em mãos.

  • A) palavras escritas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar na importância da Bíblia ou dos textos sagrados.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não menciona a leitura ou a escrita como meio de salvação. Na Idade Média, a maioria dos fiéis era analfabeta, então esse não poderia ser o principal caminho oferecido à “totalidade dos fiéis”.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) práticas litúrgicas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na armadilha que previmos, associando salvação ao caminho mais tradicional da Igreja.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Não responde à novidade do texto. Embora as práticas litúrgicas (missas, sacramentos) fossem e continuassem sendo um meio de salvação, o texto está destacando uma nova condição específica que foi adicionada: a luta no Oriente. A alternativa descreve o método antigo, não a inovação mencionada.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) ações voluntárias.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo perfeito. A “partida para o Oriente” para “lutar” é uma ação concreta. Como era um chamado ao qual o fiel aderia por escolha própria (em busca da salvação), é, por definição, uma ação voluntária.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) ideias messiânicas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode associar a luta contra “inimigos de Cristo” a uma esperança messiânica.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual. Ideias messiânicas geralmente se referem à espera de um salvador ou a movimentos milenaristas. O texto não fala sobre esperar por um messias, mas sobre os próprios fiéis agirem para obter a salvação através de um ato concreto (a luta).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) celebrações coletivas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que a partida para a Cruzada poderia ser uma forma de celebração coletiva.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Embora a partida dos cruzados pudesse envolver cerimônias e um sentimento de comunidade, a “celebração” não era o meio de salvação. O meio era o ato de lutar e se sacrificar na guerra. A celebração seria, no máximo, uma parte do processo, não a condição fundamental.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (C) é a correta, pois o texto descreve um momento histórico em que a Igreja Católica valorizou as ações voluntárias de guerra e sacrifício (as Cruzadas) como um novo e poderoso caminho para a salvação dos fiéis leigos.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se disto: “Na Idade Média, a espada também podia ser a chave para o céu.”
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de oferecer “salvação” através de uma “ação voluntária” de sacrifício pode ser visto em ideologias políticas seculares. Pense em regimes totalitários do século XX. Eles frequentemente prometiam a criação de uma sociedade utópica, um “paraíso na Terra”. Para alcançar essa “salvação” coletiva, a condição era que os cidadãos se engajassem em ações voluntárias de sacrifício pelo Estado: denunciar “inimigos do povo”, trabalhar em condições extremas para cumprir metas de produção, ou ir para a guerra. A estrutura psicológica é surpreendentemente similar: uma autoridade (a Igreja, o Partido) define um objetivo transcendente e oferece a redenção (espiritual ou terrena) àqueles que, voluntariamente, se dedicam à luta para alcançá-lo
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