Questão 081 caderno branco ENEM 2014 3ª Aplicação 1° Dia

A relação simbiótica entre plantas e certos microrganismos têm sido explorada pela agricultura para aumentar a produtividade. Um exemplo conhecido são as micorrizos, fungos associados a raízes de plantas que as ajudam a absorver nutrientes do solo. Recentemente, pesquisadores conseguiram inocular, em tomateiros, fungos simbiontes de plantas que crescem naturalmente em áreas próximas a fontes de águas quentes e que resistem a temperaturas em tono de 65 °C.

Scientific American Brazil, n. 97, jun. 2010 (adaptado).

A vantagem da inoculação desses fungos nos tomateiros deve-se à possibilidade de aumentar a produtividade, pois

a) o cultivo de tomate poderá ser feito em regiões de águas termais ricas em nutrientes.

b) as novas plantas de tomate serão mais resistentes a fungos patogênicos.

c) as novas plantas de tomate poderão ser cultivadas em regiões de temperaturas extremas.

d) a área de cultivo de tomate poderá ser ampliada para regiões com temperaturas mais quentes.

e) os frutos produzidos por essas plantas não serão suscetíveis a decomposição por fungos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Ecologia (Relações Ecológicas: Simbiose/Mutualismo)
  • Botânica (Fisiologia Vegetal)
  • Biotecnologia e Agricultura

Tema/Objetivo Geral:
Interpretar um experimento biotecnológico e deduzir a vantagem adaptativa transferida de um organismo para outro através de uma relação simbiótica, aplicando essa vantagem a um contexto agrícola.

Nível da Questão: Médio.

  • A questão exige um raciocínio lógico em múltiplas etapas: 1) Entender a relação de simbiose. 2) Identificar a característica específica do fungo (resistência ao calor). 3) Inferir que essa característica pode ser “emprestada” à planta. 4) Traduzir essa nova capacidade da planta em uma vantagem prática para a agricultura (produtividade). A necessidade de conectar todos esses pontos eleva o nível da questão.

Gabarito: D.

  • Ao inocular um fungo adaptado a altas temperaturas, a planta hospedeira (tomateiro) adquire essa resistência, o que permite expandir seu cultivo para áreas geograficamente mais quentes, onde antes não sobreviveria, aumentando assim a área produtiva total.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é entender o experimento descrito e explicar como “infectar” tomateiros com um fungo especial, que ama calor, pode ajudar a produzir mais tomates no geral.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no tomateiro como um soldado de infantaria normal, que luta bem em climas amenos. O fungo especial é um “super-equipamento” de resistência ao calor, como um traje de refrigeração usado por um soldado do deserto. Os cientistas pegaram esse super-equipamento e o instalaram no soldado de infantaria. A pergunta é: qual é a grande vantagem de ter um soldado agora equipado com essa proteção contra o calor? A resposta é que agora ele pode lutar em novos campos de batalha: os desertos quentes, onde antes ele não conseguiria operar.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Decodificar a Parceria: Vamos entender a relação simbiótica entre a planta e o fungo.
  • Identificar o “Superpoder”: Qual é a característica especial do fungo que foi selecionado pelos pesquisadores?
  • Analisar a Transferência: Deduziremos como o “superpoder” do fungo beneficia diretamente o tomateiro.
  • Traduzir para a Agricultura: Concluiremos como essa nova habilidade do tomateiro se converte em “aumento de produtividade” em larga escala.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial para este caso é um Fluxograma de Raciocínio, que nos permitirá seguir a cadeia de causa e efeito do experimento até sua consequência final.

Fluxograma de Raciocínio: O Caso do Tomateiro Super-Resistente

  1. Ponto de Partida (A Pista Original):
    • Existem plantas que vivem em locais muito quentes (perto de fontes termais, ~65 °C).
    • Essas plantas possuem uma parceria (simbiose) com fungos específicos (micorrizas).
  2. A Hipótese do Detetive (Cientista):
    • Talvez a resistência ao calor não seja da planta, mas sim do fungo parceiro. O fungo “protege” a planta.
  3. O Experimento (A Investigação):
    • Pegar esses fungos especiais (adaptados ao calor).
    • Inocular (introduzir) esses fungos em plantas que não são resistentes ao calor (tomateiros comuns).
  4. O Resultado Implícito (A Transferência de Habilidade):
    • O tomateiro, agora em simbiose com o fungo “amante do calor”, passa a tolerar temperaturas mais altas. A planta “pega emprestada” a resistência do seu parceiro.
  5. A Consequência Agrícola (O Impacto no Mundo Real):
    • Se o tomateiro agora suporta mais calor, ele pode ser plantado em lugares onde antes morreria por causa da temperatura.
    • Isso significa expandir o mapa de cultivo para novas regiões.
  6. O Veredito Final (A Conexão com a Produtividade):
    • Mais áreas de cultivo → Mais plantações de tomate → Aumento da produtividade total.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos executar a lógica do nosso fluxograma. A chave do enigma está na frase: “fungos simbiontes de plantas que crescem naturalmente em áreas próximas a fontes de águas quentes e que resistem a temperaturas em torno de 65 °C”.

O que os cientistas fizeram foi um “transplante de habilidade”. Eles identificaram uma característica desejável (resistência ao calor) e perceberam que ela estava ligada a um simbionte (o fungo). Ao transferir o simbionte, eles transferiram a característica para uma nova planta.

O resultado direto é um tomateiro com maior tolerância térmica. Agora, como isso aumenta a produtividade? Produtividade não se refere apenas a um pé de tomate dar mais frutos. Em escala agrícola, produtividade está diretamente ligada à área total cultivada. Se uma cultura que antes só podia ser plantada no Sul do Brasil agora pode ser plantada também no Nordeste, a produtividade nacional dessa cultura aumentou drasticamente.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é interpretar “aumentar a produtividade” de forma restrita, pensando apenas em “fazer o tomateiro produzir mais frutos no mesmo lugar”. Embora a simbiose com micorrizas possa, sim, melhorar a absorção de nutrientes e levar a frutos maiores ou em maior quantidade, a inovação específica destacada no texto é a resistência ao calor. A vantagem mais direta e significativa dessa inovação é a expansão geográfica, não necessariamente o aumento do rendimento por planta em condições normais.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O experimento confere tolerância a altas temperaturas aos tomateiros. Em termos agrícolas, essa nova adaptação permite que a cultura seja introduzida em regiões climáticas antes inadequadas, expandindo a área geográfica de plantio e, consequentemente, a produção total.
    • Expectativa: A alternativa correta deve conectar a resistência ao calor com a possibilidade de cultivar tomates em regiões mais quentes ou de expandir a área de cultivo para locais com essas características.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) o cultivo de tomate poderá ser feito em regiões de águas termais ricas em nutrientes.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca literalmente na origem do fungo (“fontes de águas quentes”) e acha que o tomateiro agora será plantado lá.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Interpretação Literal). A fonte termal foi o local de coleta do fungo, não o novo local de cultivo do tomate. A característica transferida foi a resistência ao calor em geral, não a capacidade de viver em um ecossistema tão específico.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) as novas plantas de tomate serão mais resistentes a fungos patogênicos.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa que a introdução de um fungo “bom” protege contra fungos “ruins”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto é explícito sobre a vantagem do fungo: resistência a altas temperaturas. Não há nenhuma informação que sugira uma proteção contra doenças (patógenos).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) as novas plantas de tomate poderão ser cultivadas em regiões de temperaturas extremas.

  • A “Narrativa do Erro”: Esta alternativa está muito próxima da correta, mas usa uma palavra que a torna menos precisa.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. “Temperaturas extremas” é um termo muito amplo. Pode significar calor extremo ou frio extremo. O fungo confere resistência especificamente ao calor. A alternativa (d) é mais precisa ao falar de temperaturas “mais quentes”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) a área de cultivo de tomate poderá ser ampliada para regiões com temperaturas mais quentes.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. Ela conecta a nova habilidade (resistir a mais calor) com sua aplicação agrícola direta (ampliar a área de cultivo para regiões mais quentes), o que leva ao aumento da produtividade total.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

e) os frutos produzidos por essas plantas não serão suscetíveis a decomposição por fungos.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato faz uma conexão incorreta: “se a planta tem um fungo ‘amigo’, talvez ela se torne imune a outros fungos que apodrecem o fruto”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A simbiose ocorre nas raízes e afeta a fisiologia da planta viva. Não há nenhuma relação lógica ou informação no texto que sugira que isso afetaria o processo de decomposição do fruto após a colheita.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta, pois a biotecnologia, neste caso, agiu como uma diplomata, forjando uma aliança entre um fungo especialista em calor e uma planta, expandindo assim as fronteiras do seu reino agrícola.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A planta pegou emprestado o “ar-condicionado” do fungo para poder se mudar para uma “casa” mais quente.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “pegar emprestado” características de um microrganismo para beneficiar um hospedeiro é a base do funcionamento da nossa própria microbiota intestinal. Nós não conseguimos digerir certas fibras vegetais, mas as bactérias que vivem em nosso intestino conseguem. Elas quebram essas fibras para nós e, no processo, produzem vitaminas essenciais (como a vitamina K) e ácidos graxos de cadeia curta que nutrem nossas células intestinais e regulam nosso sistema imunológico. Essencialmente, nós “terceirizamos” parte da nossa digestão e produção de nutrientes para nossos simbiontes microbianos. A agricultura imita a natureza: assim como nós usamos bactérias para expandir nossas capacidades digestivas, os cientistas usaram um fungo para expandir as capacidades climáticas do tomateiro.

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