Questão 015 caderno azul ENEM 2008

William James Herschel, coletor do governo inglês, iniciou na Índia seus estudos sobre as impressões digitais ao tomar as impressões digitais dos nativos nos contratos que firmavam com o governo. Essas impressões serviam de assinatura. Aplicou-as, então, aos registros de falecimentos e usou esse processo nas prisões inglesas, na Índia, para reconhecimento dos fugitivos. Henry Faulds, outro inglês, médico de hospital em Tóquio, contribuiu para o estudo da datiloscopia. Examinando impressões digitais em peças de cerâmica pré-histórica japonesa, previu a possibilidade de se descobrir um criminoso pela identificação das linhas papilares e preconizou uma técnica para a tomada de impressões digitais, utilizando-se de uma placa de estanho e de tinta de imprensa.

Internet: www.fo.usp.br (com adaptações).

Que tipo de relação orientava os esforços que levaram à descoberta das impressões digitais pelos ingleses e, posteriormente, à sua utilização nos dois países asiáticos?

A) De fraternidade, já que ambos visavam aos mesmos fins, ou seja, autenticar contratos.

B) De dominação, já que os nativos puderam identificar os ingleses falecidos com mais facilidade.

C) De controle cultural, já que Faulds usou a técnica para libertar os detidos nas prisões japonesas.

D) De colonizador-colonizado, já que, na Índia, a invenção foi usada em favor dos interesses da coroa inglesa.

E) De médico-paciente, já que Faulds trabalhava em um hospital de Tóquio.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • História (Noções de Imperialismo/Neocolonialismo)
    • Sociologia (Relações de Poder e Controle Social)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar a relação de poder (colonizador-colonizado) implícita em um texto que descreve o desenvolvimento de uma tecnologia de controle.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão não exige um conhecimento prévio profundo de História, pois o próprio enunciado dá pistas fortes (como “governo inglês” aplicando regras sobre “nativos” na “Índia”) que permitem inferir a natureza da relação de poder. O desafio está em conectar essas pistas e não se deixar levar por interpretações literais ou ingênuas.
  • Gabarito: D
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a datiloscopia, conforme descrito no texto, foi desenvolvida e aplicada pela potência colonizadora (Inglaterra) como uma ferramenta para controlar e administrar a população colonizada (Índia) em áreas de seu interesse, como contratos e prisões.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pergunta: “Qual era a verdadeira dinâmica de poder entre os ingleses que desenvolveram a datiloscopia e os indianos/japoneses onde ela foi aplicada?”. Não é sobre a ciência, mas sobre a política por trás da ciência.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que o dono de uma grande fábrica inventa um crachá eletrônico que monitora cada passo dos seus empregados. Ele diz que é para “melhorar a organização”. A tecnologia (o crachá) parece neutra, mas a relação que orienta seu uso não é de amizade, é de chefe-empregado, de controle e supervisão. Nossa missão é identificar essa mesma relação de poder no texto.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Identificar os Agentes: Vamos primeiro identificar quem são os “inventores” (os ingleses) e quem são os “objetos” do estudo (os nativos).
  • Analisar as Ações: Investigaremos o que os ingleses fizeram com a tecnologia. Para que ela foi usada?
  • Determinar o Beneficiário: A pergunta crucial: quem se beneficiava com esse uso? As ações serviam aos interesses de quem?
  • Confrontar com o Contexto: Usaremos um diálogo para dar o nome correto a essa relação de poder.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é construir o raciocínio juntos. Vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.

Diálogo Mentor-Aluno 🕵️‍♂️&🧠:

  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Vamos começar pelo básico. Quem são os personagens principais nesta história que o texto nos conta?”
  • 🧠 Aluno: “Bem, temos os ingleses, como Herschel, que era ‘coletor do governo inglês’, e Faulds. E do outro lado, temos os ‘nativos’ na Índia e uma menção ao Japão.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Perfeito. Agora, observe a relação entre eles. Herschel está usando a técnica nas ‘prisões inglesas, na Índia’. Ele está agindo como um igual, um colega, ou como alguém em uma posição de autoridade?”
  • 🧠 Aluno: “Claramente como uma autoridade. Ele é do ‘governo’, e está aplicando a técnica para controlar prisioneiros e validar contratos. Parece que um lado manda e o outro obedece.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Exatamente! Você usou a palavra-chave: ‘autoridade’. Agora junte as peças: um governo europeu (Inglaterra) exercendo controle e poder sobre uma população nativa em outro continente (Índia). Que nome a gente dá para esse tipo de relação histórica?”
  • 🧠 Aluno: “Ah, isso é a relação de Colonizador-Colonizado!”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Bingo! E nessa relação, as invenções e as regras criadas pelo colonizador servem para quê?”
  • 🧠 Aluno: “Para manter o controle sobre o colonizado e garantir os interesses do colonizador. Faz todo o sentido!”

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nosso diálogo já revelou a verdade. A invenção da impressão digital, no contexto apresentado, não foi um ato científico neutro. Foi uma ferramenta de poder!

  • Ação: Tomar impressões digitais de nativos.
  • Agente: O “governo inglês”.
  • Finalidade: Validar contratos, controlar prisões, reconhecer fugitivos.
  • Conclusão: Todas as finalidades beneficiam a administração colonial inglesa, reforçando seu controle sobre a população indiana. A relação é vertical, de cima para baixo.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (B). Ela usa a palavra correta (“dominação”), mas inverte o beneficiário. O texto nunca sugere que a tecnologia foi usada para que “os nativos pudessem identificar os ingleses”. O fluxo de controle é sempre em uma direção: do inglês para o nativo. É um erro de interpretação de quem se beneficia com a dominação.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação revela um padrão claro: uma potência (Inglaterra) desenvolve uma tecnologia de controle e a aplica sobre uma população dominada (Índia) para servir aos seus próprios interesses administrativos e policiais.
  • Expectativa: A alternativa correta deve nomear essa relação de poder de forma precisa, usando os termos que definem o contexto histórico do Imperialismo: a relação entre colonizador e colonizado.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora analisar cada suspeito à luz das provas irrefutáveis que coletamos em nosso diálogo.

  • Alternativa A: De fraternidade, já que ambos visavam aos mesmos fins…
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato adota uma visão ingênua, pensando que a tecnologia foi um esforço conjunto para o bem de todos.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Histórica. O contexto do Império Britânico na Índia não era de fraternidade, mas de dominação. Os fins não eram os mesmos; os fins eram os da Coroa Inglesa.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • Alternativa B: De dominação, já que os nativos puderam identificar os ingleses falecidos com mais facilidade.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato identifica corretamente a “dominação”, mas se confunde na hora de aplicar a lógica, inventando um benefício para os nativos que o texto não menciona.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão do Beneficiário. A dominação existiu, mas o benefício do controle fluía em uma única direção: para os ingleses. A justificativa apresentada na alternativa é falsa.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • Alternativa C: De controle cultural, já que Faulds usou a técnica para libertar os detidos nas prisões japonesas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato lê “prisões” e “técnica” e cria uma história que não está no texto.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta (Falsa Premissa). O texto diz que a técnica serviria para “descobrir um criminoso”, o oposto de “libertar os detidos”.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • Alternativa D: De colonizador-colonizado, já que, na Índia, a invenção foi usada em favor dos interesses da coroa inglesa.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um retrato falado da nossa conclusão. Ela nomeia corretamente a relação de poder (“colonizador-colonizado”) e identifica com precisão o beneficiário da tecnologia (“em favor dos interesses da coroa inglesa”). Todas as peças se encaixam.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
  • Alternativa E: De médico-paciente, já que Faulds trabalhava em um hospital de Tóquio.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca em um detalhe biográfico (Faulds era médico) e o eleva à categoria de relação principal, ignorando o contexto mais amplo.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A relação descrita não é sobre saúde, é sobre criminologia e controle. O fato de Faulds ser médico é apenas um detalhe, não a essência da relação de poder.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta, pois o desenvolvimento da datiloscopia não foi um ato de ciência pura, mas uma ferramenta forjada no contexto da dominação imperial, servindo como um mecanismo de controle da metrópole sobre a colônia.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A impressão digital não foi criada como uma assinatura, mas como uma marca; não para dar identidade, mas para impor controle.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo padrão se repete hoje na área da Tecnologia da Informação e Inteligência Artificial. Muitas tecnologias de vigilância e reconhecimento facial são desenvolvidas em países ricos e testadas ou implementadas em populações com menos poder ou em contextos de controle social. A discussão ética sobre o uso de algoritmos hoje espelha a questão do século XIX: uma tecnologia é realmente neutra ou ela inevitavelmente carrega e reforça as relações de poder existentes no momento de sua criação? A história da impressão digital é um alerta para o presente.

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