Questão 105 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

Antiga viola

    A minha antiga viola

    Feita de pau de pinhero

    É minha eterna lembrança

    Do meu tempo de violero

    A saudade dos fandango

    Do meu sertão brasilero.

    O recortado e catira

    Faiz lembrá dos mutirão

    O xote alembro as gaúchas

    O churrasco no galpão

    As moda de viola é triste

    Faiz chorá quem tem paixão.

    O baião é lá do Norte Paulista é o cateretê

    Quando escuto Cana-Verde

    Alembro de Tietê

    Numa festa do Divino

    Que me encontrei com você.

    A valsa é uma serenata

    Na janela das morena

    O rasqueado faiz lembrá

    O cantar das siriema

    Do tempo de boiadero

    Nas madrugada serena.

    Cantei muitos desafio

    Já fui cabra fandanguero

    Na congada já fui rei

    Em todo sertão minero

    Hoje só canto a saudade

    Do folclore brasilero.

TONICO E TINOCO. Cantando para o Brasil, 1963 Disponível em: http://letras.terra.com.br. Acesso em: 24 set. 2011

A letra da música de Tonico e Tinoco revela que, entre tantas funções da língua, ela contribui para a preservação da identidade nacional sertaneja. No texto, o que caracteriza linguisticamente essa identidade?

A) O uso de adjetivos qualificadores das experiências do enunciador.

B) O emprego de palavras contrárias à destruição da natureza.

C) As escolhas lexicais caracterizadoras da fala coloquial.

D) As palavras sugestivas do caráter romântico do homem sertanejo.

E) A marca pronominal indicativa de um interlocutor feminino.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Variação Linguística (Norma Padrão vs. Norma Coloquial)
  • Análise Lexical e Morfossintática
  • Interpretação de Texto Poético (Letra de Música)
  • Cultura Brasileira e Identidade Nacional

Tema/Objetivo Geral: Identificar os recursos léxicos e gramaticais específicos que caracterizam a variedade linguística sertaneja, construindo a identidade cultural do eu lírico.

Nível da Questão:

  • Médio. A questão transcende a simples interpretação de conteúdo. Ela exige que o candidato tenha conhecimentos de linguística para identificar e nomear os fenômenos de variação lexical (vocabulário específico) e morfossintática (desvios da norma padrão) que constituem a “fala coloquial” mencionada na alternativa correta.

Gabarito: C) As escolhas lexicais caracterizadoras da fala coloquial.

  • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a identidade sertaneja é construída linguisticamente através de duas frentes: o uso de um vocabulário (léxico) específico do universo rural (fandango, mutirão, boiadeiro) e a adoção de estruturas gramaticais típicas da oralidade e do falar regional (a fala coloquial), como em “Faz lembrá”.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pergunta: “Ok, a gente sabe que essa música fala sobre a vida sertaneja. Mas, olhando apenas para as palavras e a forma como elas são usadas, o que exatamente ‘entrega’ que estamos ouvindo um falante dessa região? Qual é o DNA linguístico da identidade sertaneja no texto?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que a identidade de um povo é uma receita culinária. Os temas da música (viola, saudade, sertão) são os ingredientes principais. A questão, no entanto, não é sobre os ingredientes, mas sobre o tempero e o modo de preparo que dão àquele prato um sabor único e autêntico. Nossa missão é identificar qual é esse “tempero linguístico” especial.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Definir as Ferramentas: Vamos primeiro usar um diálogo para explicar as duas ferramentas de detetive que precisamos: “Escolhas Lexicais” e “Fala Coloquial”.
  • Coletar as Pistas: Faremos uma varredura na letra da música, caçando as evidências que se encaixam nessas duas categorias.
  • Construir o Caso: Juntaremos as pistas para mostrar como elas, em conjunto, pintam um retrato linguístico inconfundível.
  • Criar o Retrato Falado: Com base em nossa análise, vamos prever como deve ser a alternativa correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o “tempero” da música, vamos a um diálogo rápido com nosso mentor detetive.

  • Diálogo Mentor-Aluno (🕵️‍♂️ & 🧠):
    • 🧠 Chefe, como a gente descobre a “identidade linguística” de alguém só pelo jeito que a pessoa escreve?
    • 🕵️‍♂️ Ótima pergunta, recruta. Pense nisso como investigar a “impressão digital” da linguagem de uma pessoa. Ela é formada por duas coisas principais: o Léxico e o Coloquialismo.
    • 🧠 Léxico? O que é isso?
    • 🕵️‍♂️ Léxico é o vocabulário, o conjunto de palavras que uma pessoa ou grupo mais usa. Pense em um pintor. Um pintor de marinhas usa uma paleta de cores com muitos tons de azul. Um pintor de florestas usa muitos tons de verde. O léxico é a “paleta de palavras”. Na nossa música, o “pintor” sertanejo usa palavras como fandango, mutirão, catira, boiadeiro. Essas são as “cores” que pintam o cenário dele. São as escolhas lexicais dele.
    • 🧠 Entendi! E “fala coloquial”?
    • 🕵️‍♂️ A fala coloquial é o jeito natural e espontâneo de falar no dia a dia, que muitas vezes não segue a gramática formal do livro. É o “modo de preparo” da nossa receita. Por exemplo, na norma padrão, falamos “Faz lembrar”. Na fala coloquial, é comum ouvir “Faz lembrá”, com a queda do “r” final. Isso não é um “erro”, é uma marca de oralidade, uma característica daquela variedade linguística.
    • 🧠 Ah, então para encontrar a identidade sertaneja, temos que procurar a paleta de palavras (léxico) e o jeitinho de falar (coloquial) deles!
    • 🕵️‍♂️ Exatamente! Agora vamos à caça.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos agora conduzir uma investigação profunda, em um fluxograma de raciocínio, para desvendar a construção da identidade sertaneja na letra da música.

  • 1. A Primeira Camada da Identidade: O Vocabulário (As Escolhas Lexicais)
    A primeira coisa que um detetive linguístico nota é a “paleta de palavras” usada pelo eu lírico. Ele não usa um vocabulário genérico; ele seleciona termos que são a própria essência do seu universo cultural. Vamos catalogar as evidências:
    • Termos do universo rural e do trabalho: violeiro, sertão, mutirão, galpão, boiadeiro, siriema.
    • Termos de festas e tradições folclóricas: fandango, catira, xote, baião, cateretê, Festa do Divino, congada, desafio.
      Dedução Parcial 1: O léxico escolhido não apenas descreve o cenário sertanejo; ele é o cenário sertanejo. A escolha dessas palavras é um ato deliberado de construção de identidade, transportando o ouvinte para aquele contexto específico.
  • 2. A Segunda Camada da Identidade: A Gramática (A Fala Coloquial)
    Aqui a investigação fica mais sutil. Não se trata mais do que é dito, mas de como é dito. O eu lírico não segue a “norma culta” da gramática, mas a “norma viva” da sua oralidade, o que confere uma autenticidade imensa à sua voz.
    • Evidência A (Morfologia Verbal): “Faz lembrá“, “Faz chorá“, “o cantá“. A supressão do “r” final dos verbos no infinitivo é uma marca fortíssima da fala popular brasileira. O texto poderia dizer “Faz lembrar”, mas a escolha por “lembrá” é uma decisão estilística para emular a fala real.
    • Evidência B (Concordância Nominal): “Na janela das morena“, “Faz lembrá dos mutirão“. A ausência da marca de plural no substantivo, quando o artigo ou a preposição já indicam o plural, é outro traço comum da coloquialidade. A norma culta exigiria “morenas” e “mutirões”.
      Dedução Parcial 2: O desvio intencional da norma gramatical padrão não é um erro, mas um recurso de estilo. Ele serve para reproduzir a sonoridade e a estrutura da fala coloquial, dando verossimilhança e legitimidade à voz do enunciador sertanejo.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é confundir o tema da música com a ferramenta linguística que a constrói. O texto fala de “paixão”, “saudade” e “morena”, o que pode levar um candidato apressado a marcar a alternativa (D), sobre o “caráter romântico”. No entanto, o romance é apenas um dos assuntos. A questão pede o que caracteriza linguisticamente a identidade como um todo, o que inclui o trabalho, a festa, a religião, etc. A resposta está na forma (no vocabulário e na gramática), não apenas no conteúdo temático do amor.

  • 3. A Síntese Final: A Fusão das Camadas
    A identidade nacional sertaneja na música não é construída por apenas um desses fatores, mas pela fusão perfeita dos dois:
    • As escolhas lexicais (o vocabulário) criam o mundo.
    • A fala coloquial (a gramática) cria a voz autêntica que habita esse mundo.
      Juntas, elas formam uma unidade inseparável que caracteriza linguisticamente essa identidade.
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A identidade do eu lírico é forjada em duas frentes: primeiro, pela seleção de um vocabulário (léxico) profundamente enraizado na cultura rural e folclórica; segundo, pela adoção de uma gramática (morfossintaxe) que espelha a oralidade e a informalidade da fala regional (o coloquialismo).
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser capaz de nomear e unir esses dois fenômenos linguísticos: as palavras escolhidas (léxico) e o jeito de falar (coloquial).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nossa “Expectativa” com os suspeitos.

  • A) O uso de adjetivos qualificadores das experiências do enunciador.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno vê “minha antiga viola” e “eterna lembrança” e foca nos adjetivos.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Embora existam adjetivos, eles não são o recurso principal nem o mais característico. O que define a identidade é muito mais amplo do que isso.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) O emprego de palavras contrárias à destruição da natureza.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno associa o sertanejo à natureza e pode ver uma crítica ecológica implícita.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O poema é sobre memória cultural e saudade, não sobre ecologia. Não há palavras que se oponham diretamente à destruição da natureza.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) As escolhas lexicais caracterizadoras da fala coloquial.
    • Análise de Correspondência: Bingo. Esta alternativa é a síntese perfeita da nossa investigação. “Escolhas lexicais” (o vocabulário específico) e “fala coloquial” (o jeito de falar que foge à norma padrão). É a descrição técnica exata do que acontece no texto.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) As palavras sugestivas do caráter romântico do homem sertanejo.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca nos versos “Faz chorá quem tem paixão” e “me encontrei com você”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. O romantismo é apenas um dos muitos temas tocados. A música fala de trabalho (mutirão, boiadeiro), festa (fandango, congada) e cultura em geral. Focar só no romance é ver uma pequena parte do todo.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) A marca pronominal indicativa de um interlocutor feminino.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno lê “Na janela das morena” e “me encontrei com você” e generaliza.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A interlocução com uma figura feminina é um episódio dentro da canção, não a sua característica linguística definidora. A maior parte do texto é um monólogo de memórias.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: O caso está encerrado. A resposta correta é a C, pois a autenticidade da identidade sertaneja na música de Tonico e Tinoco é forjada na combinação magistral de um vocabulário específico (léxico) e um sotaque gramatical inconfundível (a fala coloquial).
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A identidade de um povo não está só no que ele conta, mas no sotaque com que ele canta.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de construção de identidade através do léxico e do coloquialismo é a espinha dorsal de outro gênero musical brasileiro poderosíssimo: o Funk Carioca. Assim como o sertanejo de raiz tem seu léxico (fandango, mutirão, boiadeiro), o funk tem o seu (baile, comunidade, mandelão, passinho). Ambos os gêneros utilizam variações da norma padrão que refletem a oralidade de suas comunidades de origem, seja na concordância verbal ou na pronúncia. Tanto “Faz lembrá” quanto uma gíria específica do funk são o mesmo fenômeno linguístico em ação: a afirmação de uma identidade cultural através de uma “impressão digital” linguística que se orgulha de suas próprias regras e vocabulário.

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