Questão 104 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

Seu nome define seu destino

   ”O nome pode ter uma força determinante sobre o seu destino”, diz James Bruning, professor da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, que passou 20 anos estudando a psicologia dos nomes. “Na maioria das vezes, o impacto vem da expectativa que ele cria nas demais pessoas. É comum julgarmos alguém com base no nome, mesmo que isso seja um bocado injusto.” Ele cita um exemplo óbvio: espera-se que alguém com nome oriental seja bom em matemática, por isso é possível que um empregador dê preferência a um nome japonês para uma vaga de programador.

   ”O nome próprio da pessoa marca a sua identidade e a sua experiência social, e por isso é um dado essencial na sua vida”, diz Francisco Martins, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília e autor do livro Nome próprio (editora UnB). “Mas não dá para dizer que ele conduz a um destino específico. É você quem constrói a sua identidade. Existe um processo de elaboração, em que você toma posse do nome que lhe foi dado. Então, ele pesa, mas não é decisivo.” De acordo com Martins, essa apropriação do nome se dá em várias fases: na infãncia, quando se desenvolve a identidade sexual; na adolescência, quando a pessoa começa a assinar o nome; no casamento, quando ela adiciona (ou não) o sobrenome do marido ao seu. “O importante é a pessoa tomar posse do nome, e não ficar brigando com ele.”

CHAMARY, J.V.; GIL, M. A. Knowledge, jul. 2010

O título do texto propõe uma discussão em que são evocadas as opiniões de dois especialistas. Há a relativização do valor dado ao nome próprio, a qual se configura na

A) argumentação desenvolvida pelo professor James Bruning.

B) tese proposta pelo autor do livro Nome próprio, da editora UnB.

C) ideia refutada pelos dois professores universitários citados no texto.

D) ideia defendida pelo professor Francisco Martins, que endossa a proposição do professor James Bruning.

E) hipótese apresentada pelo professor James Bruning, que é confirmada pelo professor Francisco Martins.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto Dissertativo-Argumentativo
  • Análise Comparativa de Argumentos

Tema/Objetivo Geral: Identificar, em um texto que apresenta duas opiniões de especialistas, qual delas introduz uma perspectiva que relativiza (ou seja, torna menos absoluto) o poder do nome próprio sobre o destino de uma pessoa.

Nível da Questão:

  • Médio. A dificuldade da questão reside primariamente na necessidade de compreender o significado do termo “relativização”. Uma vez superado esse obstáculo, a tarefa se torna uma comparação direta entre duas teses, mas que exige atenção aos detalhes para não cair em armadilhas de interpretação.

Gabarito: B) tese proposta pelo autor do livro Nome próprio, da editora UnB. 

  • A alternativa está correta porque a relativização ocorre na fala do professor Francisco Martins, que, ao contrário de Bruning, afirma que o nome “não é decisivo” e que é a pessoa quem “constrói a sua identidade”, tornando o poder do nome algo relativo e não absoluto.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos apresenta um debate entre dois professores sobre o poder de um nome. Nossa missão é identificar qual dos dois apresenta a ideia de “relativização”. Em bom português: Qual dos especialistas defende que o nome não é uma sentença final, mas sim uma influência que pode ser gerenciada pela própria pessoa?

Simplificação Radical (A Analogia Central): O verdadeiro desafio aqui é entender o choque entre duas visões de mundo. Para tornar esse conflito cristalino, toda a nossa investigação vai girar em torno de uma única peça de evidência visual, que apresentaremos a seguir. Imagine a discussão como uma batalha entre duas imagens: de um lado, uma pessoa como uma marionete, controlada pelos fios do seu “NOME”; do outro, uma pessoa que corta esses fios e começa a esculpir seu próprio destino. Nossa tarefa é descobrir qual professor defende a primeira imagem e qual defende a segunda.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Apresentar a Evidência-Mestra: No próximo passo, vamos introduzir e interrogar nossa imagem-guia, o “campo de batalha” visual das duas teses.
  • Decodificar os Símbolos: Usando um diálogo investigativo, vamos analisar cada detalhe dos dois painéis da imagem para construir nossa teoria do caso.
  • Confrontar o Texto com a Imagem: Analisaremos as falas de cada professor e provaremos qual painel da imagem corresponde a cada tese.
  • Emitir o Veredito: Com base na nossa análise visual, identificaremos a alternativa que aponta para o painel da “relativização” e descartaremos as demais.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, nossa principal ferramenta de investigação é a imagem a seguir. Ela não apenas ilustra, mas define o campo de batalha entre as duas teses.

  • Descrição da Imagem: Esta ilustração é dividida em dois painéis que contrastam duas ideias.
    • Painel Esquerdo (Determinismo): Mostra uma pessoa como uma marionete, passiva, controlada por fios ligados à palavra “NOME”. Representa a ideia de que o nome determina quem você é.
    • Painel Direito (Construção): Mostra a mesma pessoa, agora ativa, cortando os fios que a prendiam. Com ferramentas de escultor ao lado, ela se prepara para esculpir sua própria estátua. Representa a ideia de que a pessoa constrói a própria identidade, relativizando o poder do nome.

Vamos agora aprofundar nossa análise com um diálogo investigativo expandido.

Diálogo Investigativo: Uma Imersão nos Símbolos

🕵️‍♂️ Detetive Sênior: “Recruta, vamos mergulhar fundo nesta imagem. No painel da esquerda, o que a postura da marionete lhe diz? Não é apenas um boneco, é um símbolo.”

🧠 Recruta: “Ela está curvada, resignada. A cabeça baixa. Parece que ela não tem vontade própria, apenas aceita ser movida pelos fios que vêm da palavra ‘NOME’.”

🕵️‍♂️ Detetive Sênior: “Exato. Essa é a essência do Determinismo. A crença de que forças externas definem nosso caminho. Agora, olhe para o painel da direita. A transformação é brutal. O que mudou fundamentalmente na figura?”

🧠 Recruta: “Tudo! A postura é ereta, ativa. Ela segura uma ferramenta, a tesoura. Ela não está mais sendo controlada; ela está agindo. Ela está cortando a conexão com a palavra ‘NOME’.”

🕵️‍♂️ Detetive Sênior: “E essa ação de cortar os fios, recruta… essa é a manifestação visual de um conceito-chave para esta questão: relativizar. O aluno que não entende essa palavra, erra a questão. Relativizar não é negar que os fios existem, mas é o ato de cortar o poder absoluto deles. É dizer: ‘Sim, esses fios me influenciaram, mas eles não me definem. Eu decido a partir de agora’. A tesoura é o símbolo da relativização.”

🧠 Recruta: “Entendi! Relativizar é tomar a tesoura. E depois de cortar os fios, o que ela faz? As ferramentas ao lado… o martelo, o cinzel, o bloco de mármore…”

🕵️‍♂️ Detetive Sênior: “Essa é a consequência da relativização. Uma vez que você se liberta do determinismo, você ganha uma nova responsabilidade: a de construir. Ela deixa de ser uma marionete de madeira, uma obra acabada por outros, e se torna uma escultora, a artista da própria identidade. É exatamente isso que a questão quer que a gente encontre: o argumento que descreve essa passagem do painel esquerdo para o direito.”


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos usar nossa compreensão aprofundada da imagem como uma lente de aumento sobre o texto. Cada fala será comparada diretamente com os painéis.

Análise Forense de Painéis: Associando as Teses à Imagem

PAINEL ESQUERDO: A TESE DE BRUNING (DETERMINISMO)

  • Evidência Textual (Bruning): “O nome pode ter uma força determinante sobre o seu destino (…) o impacto vem da expectativa que ele cria nas demais pessoas.”
  • Conexão com a Imagem: A fala de Bruning é a narrativa do painel da esquerda. A “força determinante” é visualizada pelos fios grossos e imponentes que ligam o “NOME” à marionete. A “expectativa” da sociedade é a força invisível que puxa esses fios, fazendo a marionete se mover. A figura é passiva, de madeira inerte, capturando perfeitamente a ideia de que somos moldados por uma força externa que não controlamos. A visão de Bruning congela o indivíduo na pose resignada da marionete.

PAINEL DIREITO: A TESE DE MARTINS (CONSTRUÇÃO E RELATIVIZAÇÃO)

  • Evidência Textual (Martins): “O nome (…) é um dado essencial (…) Mas não dá para dizer que ele conduz a um destino específico. (…) Então, ele pesa, mas não é decisivo.”
  • Conexão com a Imagem: A tese de Martins é a sequência de ações do painel da direita.
    1. “é um dado essencial”: Martins olha para o painel esquerdo e reconhece que a marionete e seus fios são um ponto de partida real. Ele não nega sua existência.
    2. “Mas…”: Esta palavra é o som da tesoura sendo empunhada. É o ponto de virada, o instante em que a passividade do painel esquerdo é desafiada pela agência do painel direito.
    3. “pesa, mas não é decisivo”: Esta é a imagem do fio sendo cortado. É a definição perfeita de relativizar. Olhe para o painel direito: a palavra “NOME” ainda flutua ali (seu “peso” é reconhecido), mas está mais clara, e os fios que a conectavam à pessoa estão partidos (seu poder “decisivo” foi quebrado).
  • Evidência Textual (Martins): “É você quem constrói a sua identidade.”
  • Conexão com a Imagem: Esta frase é a visão do martelo, do cinzel e do bloco de mármore. É o “depois” da libertação. Tendo se livrado das amarras do determinismo, a figura agora tem as ferramentas e a liberdade para se tornar a escultora de si mesma. Martins não descreve apenas um estado, mas um processo de libertação e criação, exatamente como a cena dinâmica do painel direito.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: Nossa análise visual comparativa é conclusiva. A tese de Bruning descreve o mundo estático e determinista do painel esquerdo. A tese de Martins descreve o processo dinâmico de libertação e construção do painel direito. A “relativização” que a questão procura é, portanto, a ação representada no painel direito.
  • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para a tese do Professor Francisco Martins (o autor do livro da UnB), pois é ele quem nos entrega a tesoura para cortar os fios da marionete.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) argumentação desenvolvida pelo professor James Bruning.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode se confundir e achar que a primeira tese é a que relativiza.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A argumentação de Bruning descreve o painel da esquerda (a marionete), que é a tese absoluta, o ponto de partida, e não a relativização.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) tese proposta pelo autor do livro Nome próprio, da editora UnB.

  • Análise de Correspondência: Perfeito. O texto identifica este autor como Francisco Martins. Sua tese corresponde exatamente ao painel da direita, onde a figura corta os fios (relativiza o poder do nome) e se prepara para construir a própria identidade.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) ideia refutada pelos dois professores universitários citados no texto.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que ambos os professores negam a ideia do título.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Informação Incorreta. Nenhum dos dois “refuta” completamente a ideia. Bruning (painel esquerdo) a defende. Martins (painel direito) a relativiza, o que é diferente de refutar.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) ideia defendida pelo professor Francisco Martins, que endossa a proposição do professor James Bruning.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno vê que Martins concorda parcialmente e acha que ele “endossa” (apoia totalmente) a tese de Bruning.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Parcial. Olhando para a imagem, Martins não “endossa” o painel esquerdo. Ele o reconhece para, em seguida, destruí-lo com a tesoura. Oposição não é endosso.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) hipótese apresentada pelo professor James Bruning, que é confirmada pelo professor Francisco Martins.

  • A “Narrativa do Erro”: Mesma lógica da alternativa D.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Parcial. A hipótese de Bruning (painel esquerdo) não é “confirmada” por Martins; ela é superada pela ação do painel direito.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: O veredito é final: a alternativa B é a correta. A relativização do poder do nome é perfeitamente capturada pela tese do Professor Francisco Martins, que nos convida a deixar de ser a marionete do painel esquerdo e nos tornarmos o escultor do painel direito.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Não aceite ser a marionete do seu nome; pegue a tesoura e o cinzel, e seja o escultor da sua própria biografia.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O debate entre os painéis esquerdo (Bruning) e direito (Martins) espelha perfeitamente uma das discussões mais fundamentais da Sociologia e da Psicologia: o debate Natureza vs. Criação (Nature vs. Nurture). A visão de Bruning, representada no painel esquerdo, alinha-se com uma perspectiva onde fatores externos ou inatos (o nome, a genética, a classe social) têm um poder maciço na formação do indivíduo. Em contraste, a visão de Martins, visualizada no painel direito, alinha-se com a perspectiva que enfatiza a agência do indivíduo e o poder da experiência (“é você quem constrói”) para superar ou ressignificar as condições iniciais. Este não é apenas um debate sobre nomes; é um debate sobre o que fundamentalmente nos define: as condições que nos são dadas ou o que fazemos com elas?

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