Questão 27, caderno verde do ENEM 2017 LIBRAS

A lavadeira começou a viver como uma serviçal que impõe respeito e não mais como escrava. Mas essa regalia súbita foi efêmera. Meus irmãos, nos frequentes deslizes que adulteravam este novo relacionamento, eram dardejados pelo olhar severo de Emilie; eles nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa da sala, usando os mesmos talheres e pratos, e comprimindo com os lábios o mesmo cristal dos copos e a mesma porcelana das xícaras de café. Uma espécie de asco e repulsa tingia-lhes o rosto, já não comiam com a mesma saciedade e recusavam-se a elogiar os pastéis de picadinho de carneiro, os folheados de nata e tâmara, e o arroz com amêndoas, dourado, exalando um cheiro de cebola tostada. Aquela mulher, sentada e muda, com o rosto rastreado de rugas, era capaz de tirar o sabor e o odor dos alimentos e de suprimir a voz e o gesto como se o seu silêncio ou a sua presença que era só silêncio impedisse o outro de viver.

HATOUM, M. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

Ao apresentar uma situação de tensão em família, o narrador destila, nesse fragmento, uma percepção das relações humanas e sociais demarcada pelo:

A) predomínio dos estigmas de classe e de raça sobre a intimidade da convivência.

B) discurso da manutenção de uma ética doméstica contra a subversão dos valores.

C) desejo de superação do passado de escassez em prol do presente de abastança.

D) sentimento de insubordinação à autoridade representada pela matriarca da família.

E) rancor com a ingratidão e a hipocrisia geradas pelas mudanças nas regras da casa.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário
  • Sociologia (Estratificação Social, Preconceito Racial e de Classe)
  • Literatura Contemporânea Brasileira

🎯 Tema/Objetivo Geral

Analisar como um trecho literário expõe a persistência de preconceitos de raça e classe mesmo em um ambiente de convivência íntima.

📊 Nível da Questão

Difícil.
Por quê? A questão exige a interpretação de sentimentos sutis e não verbalizados (“asco e repulsa tingia-lhes o rosto”) e a tradução desses sentimentos para conceitos sociológicos abstratos (“estigmas de classe e de raça”). A alternativa correta utiliza um vocabulário técnico, e a principal distratora (E) aponta para um sentimento plausível (rancor), exigindo que o aluno diferencie a causa (preconceito) da consequência (rancor).

✅ Gabarito

Alternativa A.
Resumo: O texto mostra que, mesmo após a mudança de status de Emilie, os irmãos não conseguem superar seus preconceitos de raça (“uma índia”) e de classe (“serviçal”). Esses estigmas se sobrepõem a qualquer laço de convivência, estragando até mesmo o prazer da refeição.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌

“Ao apresentar uma situação de tensão em família, o narrador destila, nesse fragmento, uma percepção das relações humanas e sociais demarcada pelo”

O que está sendo pedido?

A questão pede para identificarmos qual é a principal força que define e envenena as relações sociais na cena descrita. O que está por trás do “asco e repulsa” dos irmãos?

Objetivo Cristalino 💎

Nosso objetivo é analisar as ações e reações dos personagens (especialmente dos irmãos) para diagnosticar a causa profunda do conflito, que transcende uma simples briga de família.

Pergunta de Atenção 🧠

O incômodo dos irmãos era com Emilie como pessoa, ou com o que ela representava para eles: uma “índia” e “serviçal” que ousava ocupar um espaço que eles consideravam exclusivo da família?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Estigma: É uma marca ou um atributo profundamente depreciativo que faz com que uma pessoa ou grupo seja visto como inferior. No texto, “índia” e “serviçal” são usados como estigmas.
  • Estigma de Raça: Preconceito e discriminação baseados na origem étnica ou cor da pele de uma pessoa. A frase “nunca suportaram de bom grado que uma índia passasse a comer na mesa” evidencia esse estigma.
  • Estigma de Classe: Preconceito e discriminação baseados na posição social ou econômica de uma pessoa. A mudança de status de Emilie de “escrava” para “serviçal que impõe respeito” e o incômodo dos irmãos com essa mudança revelam o estigma de classe.
  • Intimidade da Convivência: Refere-se à proximidade e ao compartilhamento de espaços e rotinas, como comer à mesma mesa. O texto mostra como o preconceito é tão forte que consegue destruir essa intimidade.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬

Imagine a seguinte cena: Emilie, que antes era tratada como escrava, agora tem um novo status na casa e senta-se para comer junto com a família, na mesma mesa, usando os mesmos talheres. Em teoria, isso deveria ser um sinal de integração. Mas o texto nos mostra o contrário. Os irmãos do narrador ficam visivelmente enojados. A presença dela, “uma índia” que antes era serviçal, tira o sabor da comida. É como se a “mancha” da origem dela contaminasse tudo. A questão nos pergunta: o que esse “nojo” revela? Ele revela que, para os irmãos, o preconceito de raça e de classe é mais forte do que qualquer laço afetivo ou de convivência que possa existir.

Estratégia Geral 🗺️

Nossa estratégia será identificar as palavras-chave que revelam a motivação do comportamento dos irmãos. Vamos focar nos termos que eles usam para se referir a Emilie e nos sentimentos que sua presença provoca, para então conectar isso a um conceito sociológico mais amplo.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. A Mudança de Status: Emilie passa de “escrava” para “serviçal que impõe respeito”. Ela agora “come na mesa da sala”. Essa é a mudança que gera a tensão.
  2. A Causa do Conflito (A Pista Principal): O narrador é explícito ao explicar por que os irmãos não aceitam a nova situação. Ele não diz que é porque Emilie era má ou ingrata. Ele diz que é porque ela era “uma índia“. Esta é a marca explícita do preconceito de raça.
  3. A segunda causa: O fato de que ela era “escrava” e agora “serviçal” e está ocupando um espaço de igualdade (a mesa) também revela um forte preconceito de classe. Eles não a veem como um membro da família, mas como uma subalterna que está “fora de seu lugar”.
  4. A Manifestação do Preconceito: O preconceito se manifesta como um sentimento físico e visceral: “uma espécie de asco e repulsa“. Esse sentimento é tão forte que afeta a percepção deles: “era capaz de tirar o sabor e o odor dos alimentos”.
  5. A Conclusão: O preconceito (os estigmas) é tão arraigado que ele se sobrepõe à intimidade do lar e da refeição compartilhada, destruindo a convivência.

A Armadilha Comum 🚨

A armadilha é a Alternativa E. É fácil interpretar o sentimento dos irmãos como “rancor” e “ingratidão” (afinal, Emilie está tendo uma “regalia súbita”). No entanto, a pergunta pede a demarcação da percepção das relações sociais. O rancor é o sentimento resultante, mas a causa desse rancor, a raiz do problema, é o preconceito de raça e classe, como o próprio narrador aponta ao usar a palavra “índia”. A alternativa A vai na causa, enquanto a E fica na consequência.

Fechamento e Expectativa

A análise nos leva a procurar a alternativa que melhor descreva essa força invisível (o preconceito) que molda e destrói as relações humanas na cena.


Passo 5: Análise das Alternativas

🟢 A) predomínio dos estigmas de classe e de raça sobre a intimidade da convivência.
Correta. Esta alternativa é perfeita. Ela identifica a causa profunda do conflito: os “estigmas” (marcas negativas) de classe (ex-escrava/serviçal) e de raça (“índia”) são tão fortes que “predominam” e anulam qualquer possibilidade de uma convivência harmoniosa e íntima.

🔴 B) discurso da manutenção de uma ética doméstica contra a subversão dos valores.
Incorreta. O comportamento dos irmãos não é baseado em uma “ética”, mas em preconceito. A “subversão” que eles sentem não é de valores morais, mas da hierarquia social que lhes convém.

🔴 C) desejo de superação do passado de escassez em prol do presente de abastança.
Incorreta. O texto não fornece informações sobre um passado de escassez da família. O conflito não é sobre dinheiro, mas sobre status social e racial.

🔴 D) sentimento de insubordinação à autoridade representada pela matriarca da família.
Incorreta. O texto não menciona uma matriarca ou qualquer figura de autoridade que tenha imposto a nova regra. A fonte da tensão é a relação direta dos irmãos com Emilie.

🔴 E) rancor com a ingratidão e a hipocrisia geradas pelas mudanças nas regras da casa.
Incorreta. O texto não descreve o comportamento de Emilie como ingrato ou hipócrita. O rancor dos irmãos não é gerado por uma atitude dela, mas pelo preconceito deles contra o que ela é.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝

O fragmento de Milton Hatoum retrata uma cena de tensão familiar cuja raiz é profundamente social. A repulsa dos irmãos pela presença de Emilie à mesa, mesmo após sua mudança de status, não é um conflito pessoal, mas a manifestação de preconceitos estruturais. O narrador deixa claro que a identidade de Emilie como “índia” e sua antiga condição de serva são estigmas que, na visão dos irmãos, a tornam indigna de compartilhar o espaço de intimidade familiar. Isso demonstra o predomínio das hierarquias de raça e classe sobre os laços de convivência.

Gabarito Reafirmado 🏅

A alternativa correta é a A.

Resumo Final para Revisão 🔍

Em análises literárias, procure a causa profunda dos conflitos. Muitas vezes, os sentimentos descritos (como raiva, nojo ou rancor) são apenas a ponta do iceberg. A verdadeira questão está na estrutura social subjacente (como o preconceito) que gera esses sentimentos.

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