Questão 034 caderno branco ENEM 2014 3ª Aplicação 1° Dia

A enxada é um bom instrumento de jardim, de um pomar ou de uma horta: porém pretender aplicá-la com proveito a grande cultura e o mesmo que querer tirar uma pega de cantaria (pedra de construção de tamanho grande) com um prego, ou falquejar (tornar quadrado), um pão com uma faca. A enxada mal arranha a terra à custa de fadiga do mísero trabalhador.

BURLAMAQUE, F. L. C. Catechismo de Agricultura,1870. In: MOTTA, M.; GUIMARAES, E. Direito as avessas: por uma historia social da propriedade. Niterói: UFF, 2011.

No final do século XIX, o discurso que afirmava estar em crise a agricultura brasileira apontava como razão para esse fato a

a) manutenção de métodos arcaicos de produção.

b) subordinação econômica à atividade industrial.

c) utilização de imigrantes como trabalhadores rurais.

d) disseminação de pequenas propriedades agrícolas.

e) diversificação dos gêneros produzidos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Fontes Históricas (Textos do Século XIX)
  • História do Brasil (Segundo Império, Economia Agroexportadora)
  • Geografia Agrária (Sistemas de Produção, Modernização do Campo)

Tema/Objetivo Geral: Analisar as críticas à estrutura produtiva da agricultura brasileira no final do século XIX, com foco no atraso tecnológico e na ineficiência dos métodos de produção.

Nível da Questão: Médio

  • A questão é de nível médio principalmente devido à linguagem do texto-base, que é formal e arcaica, podendo dificultar a interpretação inicial. O candidato precisa decodificar as metáforas (“tirar uma pedra com um prego”) e contextualizar a crítica dentro do cenário histórico da época, comparando a realidade brasileira com o avanço industrial de outras nações.

Gabarito: A

  • Esta alternativa está correta pois o texto critica veementemente o uso da enxada em grandes lavouras, um instrumento manual e primitivo, como a causa da baixa produtividade e do sofrimento do trabalhador, apontando diretamente para o atraso dos métodos agrícolas.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos apresenta um trecho de um manual de agricultura de 1870 que critica ferozmente o uso da enxada. A nossa missão de detetive é entender qual era o problema central da agricultura brasileira daquela época, segundo esse tipo de discurso crítico.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na agricultura brasileira do século XIX como uma empresa que quer construir arranha-céus (a “grande cultura”, a exportação de café em larga escala). No entanto, o texto nos diz que essa empresa está equipando seus operários apenas com martelos e chaves de fenda manuais (a enxada). É possível construir um arranha-céu assim? Não. O trabalho será exaustivo, lento e o resultado, pífio. A questão nos pergunta: Qual é a razão da “crise” desta construtora? A resposta é óbvia: suas ferramentas e métodos são completamente ultrapassados para a escala de seu projeto.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Dissecar a Crítica: Vamos analisar as metáforas e argumentos que o autor usa para desqualificar a enxada.
  • Contextualizar o Cenário: Vamos entender o que estava acontecendo no mundo e no Brasil no final do século XIX para dar sentido a essa crítica.
  • Construir o “Retrato Falado”: Com base na análise, vamos definir qual é o diagnóstico preciso da crise apontada pelo autor.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a profundidade da crítica, precisamos contrastar o modelo de produção brasileiro da época com o que já existia nos países industrializados. A Tabela Comparativa é a ferramenta perfeita para isso.

Critério de Comparação Modelo Brasileiro (Criticado no Texto) Modelo Moderno (Europa/EUA – Séc. XIX)
Ferramenta Principal ⛏️ A Enxada: Ferramenta manual, individual, de baixo alcance e que exige enorme força física. 🚜 O Arado de Aço e as Primeiras Máquinas: Ferramentas de tração animal ou a vapor, capazes de revolver grandes áreas de terra com rapidez e profundidade.
Escala de Operação Jardim, Pomar, Horta: O texto diz que a enxada é boa para pequenas áreas. Grande Cultura: Projetadas para latifúndios e produção em massa.
Produtividade 📉 Baixíssima: O texto afirma que a enxada “mal arranha a terra”. 📈 Altíssima: Capaz de preparar em um dia o que um homem com enxada levaria semanas.
Impacto no Trabalhador 😫 “Fadiga do mísero trabalhador”: Trabalho exaustivo, desumano e de baixo rendimento. 👨‍🔧 Operador de Máquina: O foco muda da força bruta para a habilidade de operar a tecnologia.

Esta tabela mostra que o autor não estava exagerando. Havia de fato um abismo tecnológico entre a agricultura brasileira e a dos países que passavam pela Revolução Industrial.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

  1. Executando o Plano de Ataque:
    • A crítica do autor é brutal. Comparar o uso da enxada na grande lavoura a “querer tirar uma pedra de construção com um prego” é uma imagem poderosa que significa: a ferramenta é fundamentalmente inadequada para a tarefa.
    • A frase “A enxada mal arranha a terra à custa de fadiga do mísero trabalhador” resume o diagnóstico: o método é ineficiente (mal arranha) e desumano (fadiga do mísero).
    • No final do século XIX, o Brasil era um gigante agroexportador (principalmente de café). A crítica aponta que essa potência econômica estava sendo construída sobre bases técnicas frágeis e ultrapassadas, dependendo da exploração extrema do trabalhador em vez da eficiência tecnológica.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui seria interpretar a crítica como sendo direcionada ao trabalhador. O texto o chama de “mísero trabalhador”, mas a culpa não recai sobre ele. A palavra “mísero” aqui denota a condição de sofrimento à qual ele é submetido. A crítica não é à falta de esforço do trabalhador, mas à ineficácia do método que o obriga a um esforço hercúleo para um resultado pífio.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: O discurso apresentado no texto diagnostica a crise da agricultura brasileira como uma crise de produtividade causada por um profundo atraso tecnológico. A insistência em usar ferramentas e métodos primitivos em uma economia que aspirava à produção em larga escala era a raiz do problema.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, apontar para a manutenção de técnicas ultrapassadas, primitivas ou arcaicas como a causa da crise.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora verificar qual suspeito corresponde ao nosso “Retrato Falado”.

  • a) manutenção de métodos arcaicos de produção.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um sinônimo perfeito para a nossa “Expectativa”. “Métodos arcaicos” é exatamente o que o texto descreve ao criticar o uso da enxada em “grande cultura”.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • b) subordinação econômica à atividade industrial.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa na relação campo-cidade e pode achar que a indústria já dominava.
    • Diagnóstico do Erro: Anacronismo. No final do século XIX, a economia brasileira era esmagadoramente agrária. A indústria ainda era incipiente e não havia uma subordinação do campo a ela; pelo contrário, a agricultura era o motor da economia.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • c) utilização de imigrantes como trabalhadores rurais.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno sabe que a imigração foi um fenômeno importante no período e o associa à crise.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema. O texto critica a ferramenta (“enxada”) e o método, não a origem do trabalhador. A crítica se aplicaria igualmente se o “mísero trabalhador” fosse um ex-escravo, um caboclo ou um imigrante.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • d) disseminação de pequenas propriedades agrícolas.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode se confundir com a menção de que a enxada é boa para “jardim” ou “horta”.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta. O texto critica a aplicação da enxada na “grande cultura”, o que pressupõe a existência de grandes propriedades (latifúndios), que eram a base da economia agroexportadora brasileira, e não a disseminação de pequenas propriedades.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • e) diversificação dos gêneros produzidos.
    • A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que a diversificação é um problema.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta. A agricultura brasileira da época era criticada justamente pelo contrário: sua excessiva concentração na monocultura (principalmente o café). A diversificação seria vista como uma solução, não como a causa da crise.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a resposta correta é a (A), pois o texto de 1870 é um lúcido diagnóstico de que a agricultura brasileira vivia um paradoxo: operava em escala industrial, mas com ferramentas artesanais, e essa manutenção de métodos arcaicos de produção era a causa de sua crise de eficiência.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): “A agricultura brasileira do século XIX: um motor de Ferrari (a demanda por café) preso a um chassi de Fusca (a tecnologia da enxada).”
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “crise por inadequação tecnológica” se aplica diretamente ao mundo corporativo de hoje. Uma empresa que insiste em usar planilhas de papel e máquinas de escrever (métodos arcaicos) em uma era de inteligência artificial e análise de dados (grande cultura digital) está fadada a uma crise de produtividade. Assim como a enxada, essas ferramentas não são ruins em si, mas são desastrosas quando aplicadas em uma escala para a qual não foram projetadas. A crítica de Burlamaque em 1870 é, no fundo, uma lição atemporal sobre inovação e competitividade

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.