Questão 130, caderno azul do ENEM 2020 DIGITAL

Uma nova e revolucionária técnica foi desenvolvida para a edição de genomas. O mecanismo consiste em um sistema de reconhecimento do sítio onde haverá a mudança do gene combinado com um mecanismo de corte e reparo do DNA. Assim, após o reconhecimento do local onde será realizada a edição, uma nuclease corta as duas fitas de DNA. Uma vez cortadas, mecanismos de reparação do genoma tendem a juntar as fitas novamente, e nesse processo um pedaço de DNA pode ser removido, adicionado ou até mesmo trocado por outro pedaço de DNA.

Nesse contexto, uma aplicação biotecnológica dessa técnica envolveria o(a)

A) diagnóstico de doenças.

B) identificação de proteínas.

C) rearranjo de cromossomos.

D) modificação do código genético.

E) correção de distúrbios genéticos.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Biotecnologia: Engenharia Genética e Edição Genômica (conceito de CRISPR-Cas9).
    • Genética: Mutações, Doenças Genéticas e Terapia Gênica.
  • Tema/Objetivo Geral:
    • Identificar uma aplicação prática da tecnologia de edição de genes descrita.
  • Nível da Questão:
    • Médio. A questão descreve uma tecnologia avançada (edição de genomas). Embora não exija conhecimento prévio sobre a técnica em si, o candidato precisa ter um raciocínio lógico apurado para conectar a função da ferramenta (“cortar e reparar DNA”) com uma aplicação biotecnológica plausível, diferenciando-a de outros processos como diagnóstico ou identificação.
  • Gabarito:
    • E) correção de distúrbios genéticos. A alternativa está correta porque, se a técnica permite remover, adicionar ou trocar pedaços de DNA de forma precisa, sua aplicação mais direta é corrigir as “falhas” no DNA (mutações) que são a causa de distúrbios genéticos.

Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão nos descreve uma ferramenta superpoderosa que funciona como uma “tesoura e cola” para o DNA. Ela pode encontrar um local exato no genoma, cortar e consertar, até mesmo trocando um pedaço por outro. A missão é: para que serve essa ferramenta incrível? Qual é uma de suas possíveis aplicações?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no genoma como o código-fonte de um programa de computador. Uma doença genética, como a anemia falciforme, é como um “bug” nesse código – uma única linha de comando escrita errada que faz o programa inteiro funcionar mal. A técnica descrita é como uma ferramenta de programação avançada que permite ao programador usar a função “Localizar e Substituir” diretamente no código-fonte. Ele pode encontrar a linha exata com o “bug” e corrigi-la. O verdadeiro desafio aqui é entender que, se você pode corrigir o código, você pode consertar o programa.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Entender a Ferramenta: Vamos detalhar o “modus operandi” da tesoura genética: Localizar, Cortar e Reparar/Substituir.
    2. Definir o Problema: O que é um “distúrbio genético” em nível de DNA?
    3. Conectar a Ferramenta à Solução: Vamos mostrar como a função da ferramenta é a solução perfeita para o problema.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta em questão é a Edição Genômica. Vamos criar um dossiê para ela.

🕵️‍♂️ Dossiê da Ferramenta: “A Tesoura Genética”
Nome da Operação: Edição de Genomas (ex: CRISPR-Cas9)
Função Principal: Modificar a sequência de DNA de forma precisa e direcionada.
“Modus Operandi” em 3 Passos:
1. O GPS Molecular (Reconhecimento): Um guia (geralmente uma molécula de RNA) leva a tesoura até o endereço exato no genoma que precisa ser editado.
2. A Tesoura Molecular (Corte): Uma enzima (nuclease) corta as duas fitas da hélice de DNA no local exato.
3. A Equipe de Reparo (Conserto): Os mecanismos naturais da própria célula entram em ação para “colar” as pontas cortadas. Nesse momento, podemos “enganar” a célula para que ela use um novo pedaço de DNA (um molde correto) para fazer o reparo, efetivamente substituindo a sequência original.
Resultado: O “bug” no código é corrigido.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos executar o plano de ataque.

  1. A Ferramenta: Temos uma tecnologia capaz de reescrever o DNA.
  2. O Problema: Um “distúrbio genético” é uma doença causada por uma ou mais mutações específicas na sequência de DNA. É um “erro de digitação” no livro da vida.
  3. A Solução: Se o problema é um erro de digitação, e temos uma ferramenta que funciona como o “corretor ortográfico” do DNA, a aplicação mais lógica e revolucionária é usar a ferramenta para corrigir o erro, curando ou tratando o distúrbio genético em sua origem.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (A) diagnóstico de doenças. Diagnosticar é o ato de identificar a doença, de ler o genoma e encontrar o “bug”. Técnicas como o sequenciamento de DNA fazem isso. A ferramenta descrita no texto não é para ler, é para reescrever. Confundir diagnóstico (ler) com terapia (corrigir) é o erro mais comum.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A técnica descrita é uma ferramenta de modificação ativa e precisa do genoma. Sua aplicação, portanto, não será de observação ou identificação, mas sim de alteração com um propósito. O propósito mais direto de “consertar” o DNA é curar doenças causadas por “DNA quebrado”.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever uma aplicação terapêutica que envolva a reparação de um problema genético. Procuramos por palavras como “correção”, “terapia” ou “tratamento”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos analisar cada suspeito para confirmar nossa investigação.

  • A) diagnóstico de doenças.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, confundindo a capacidade de “encontrar” o gene com a aplicação final.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Leitura com Escrita. Diagnosticar é ler o DNA para encontrar um erro. A técnica descrita reescreve o DNA para consertar o erro.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • B) identificação de proteínas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato confunde o alvo da técnica.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A ferramenta atua no DNA, não diretamente nas proteínas. A identificação de proteínas é feita por outras técnicas, como a espectrometria de massa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • C) rearranjo de cromossomos.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em uma alteração genética em larga escala.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Escala (Gene vs. Cromossomo). A técnica é descrita como uma ferramenta precisa, um bisturi molecular para editar genes. Rearranjos cromossômicos são alterações massivas na estrutura do cromossomo inteiro, uma escala muito maior.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • D) modificação do código genético.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato se confunde com a terminologia.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Conceitual (Sequência vs. Código). O “código genético” é o dicionário universal que traduz códons (ex: AUG) em aminoácidos (Metionina). A técnica não muda o dicionário; ela muda as palavras (a sequência de DNA) que são escritas usando esse dicionário.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • E) correção de distúrbios genéticos.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é a aplicação direta e mais poderosa da ferramenta. Se um distúrbio é causado por um gene “quebrado”, e a técnica pode “consertar” genes, então ela pode corrigir o distúrbio. Corresponde perfeitamente à nossa “Expectativa”.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica provado que uma das aplicações mais promissoras da edição genômica é a (E) correção de distúrbios genéticos, inaugurando uma nova era na medicina onde podemos, potencialmente, curar doenças na sua fonte, em vez de apenas tratar os sintomas.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): DNA com “bug”? A tesoura genética corrige o “código-fonte” da vida.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “Localizar e Substituir” que pode curar doenças genéticas está sendo explorado na Ciência da Computação para criar uma forma revolucionária de armazenamento de dados: o armazenamento de dados em DNA. Cientistas já conseguiram traduzir arquivos digitais (como livros e imagens) em sequências de A, T, C e G, sintetizar esse DNA e depois “lê-lo” de volta, recuperando o arquivo original com 100% de precisão. A edição genômica, nesse contexto, poderia ser usada para corrigir erros de armazenamento ou até para editar a informação guardada diretamente na molécula. Da cura de doenças à criação do “HD do futuro”, a manipulação precisa do DNA está abrindo fronteiras inimagináveis.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.