Questão 67 caderno verde ENEM 2017 Libras 1° Dia

  Entre o século XII e XIII, a recrudescência das condenações da usura é explicada pelo temor da Igreja ao ver a sociedade abalada pela proliferação da usura, quando muitos homens abandonam sua condição social, sua profissão, para tornarem-se usuários. No século XIII o papa Inocêncio IV teme a deserção dos campos, devido ao fato de os camponeses terem se tornado usurários ou estarem privados de gado e de instrumentos de trabalho pertencentes aos possuidores de terras, eles próprios atraídos pelos ganhos da usura. A atração pela usura ameaça a ocupação dos solos e da agricultura e traz o espectro da fome.

LE GOFF, J. A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média. São Paulo: Brasiliense, 2004 (adaptado).

A atitude da Igreja em relação à prática em questão era motivada pelo interesse em

A) suprimir o debate escolástico.

B) regular a extração de dízimos.

C) diversificar o padrão alimentar.

D) conservar a ordem estamental.

E) evitar a circulação de mercadorias.

✍ “Resolução Em Texto”

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Histórico
    • História Medieval (Baixa Idade Média, Mentalidade Feudal)
    • Sociologia (Conceito de Sociedade Estamental)
  • Tema/Objetivo Geral: Compreensão dos motivos socioeconômicos, e não apenas religiosos, para a condenação da usura pela Igreja na Idade Média.
  • Nível da Questão:
    • Médio. A questão é de nível médio porque, embora o texto forneça pistas decisivas, a resposta correta (“ordem estamental”) usa um termo sociológico específico. O candidato precisa ser capaz de conectar as consequências práticas descritas no texto (deserção dos campos, abandono de profissões) a esse conceito abstrato de estrutura social fixa.
  • Gabarito:
    • D) conservar a ordem estamental. Esta alternativa está correta porque o texto mostra que o principal temor da Igreja era a desestruturação social causada pela usura, que fazia as pessoas abandonarem seus papéis e lugares predefinidos na sociedade.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é descobrir o motivo real e profundo por trás da raiva da Igreja contra a usura, usando as pistas fornecidas pelo historiador Jacques Le Goff. Não basta saber que a Igreja era contra, precisamos entender o porquê.
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a sociedade medieval como um imenso tabuleiro de xadrez com regras divinamente estabelecidas. Existem os peões (camponeses), os cavalos e bispos (nobreza) e o rei (monarca/Igreja). Cada peça tem um movimento e uma função específica. A usura, nesse jogo, é como uma nova regra que permite a um simples peão se mover como uma rainha, acumulando poder de uma forma totalmente nova e imprevista. O temor da Igreja é que essa “regra nova” destrua o equilíbrio do jogo inteiro. A questão é: qual o nome que damos a esse “jogo com regras fixas” que a Igreja queria proteger?
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Criar um “dossiê” do crime: Definir o que era a usura e por que era tão disruptiva.
    2. Analisar a “cena do crime”: Identificar no texto de Le Goff exatamente quais eram os efeitos colaterais da usura que apavoravam a Igreja.
    3. Ligar os pontos: Conectar esses efeitos a um princípio maior de organização social.
    4. Construir o “Retrato Falado” da motivação da Igreja.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender o inimigo que a Igreja combatia, vamos montar um dossiê, uma ficha técnica sobre a usura.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ CONFIDENCIAL: O Inimigo da Ordem 🕵️‍♂️

  • ACUSADO: A Usura (prática de emprestar dinheiro cobrando juros).
  • MODUS OPERANDI: Gerar riqueza a partir do próprio dinheiro, sem a necessidade de trabalho físico (agrícola ou artesanal). O dinheiro “trabalha” sozinho, o que era visto como algo antinatural.
  • CRIMES (CONFORME O TEXTO):
    1. Corrupção de Identidade Social: Fazia “muitos homens abandonarem sua condição social, sua profissão”. (Um camponês deixava de ser camponês, um artesão deixava de ser artesão).
    2. Ameaça à Segurança Alimentar: Provocava a “deserção dos campos”, ameaçando a “ocupação dos solos e da agricultura”.
    3. Resultado Final: Trazia o “espectro da fome”, ou seja, o colapso da subsistência básica.
  • VEREDITO DO PERITO (Jacques Le Goff): O perigo da usura não era apenas um “pecado” individual. Era uma ameaça sistêmica, um “vírus” capaz de desmantelar toda a organização socioeconômica da época.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos executar nosso plano, analisando as pistas do texto.

  1. A Pista Principal: O texto não diz que a Igreja temia a usura porque os usurários iriam para o inferno. O temor é concreto, material: “a sociedade abalada”, “deserção dos campos”, “espectro da fome”. A preocupação é com o que acontece na Terra.
  2. O Efeito Dominó: A lógica do pânico da Igreja é clara:
    • A usura oferece um lucro fácil e alto.
    • Isso atrai camponeses e senhores de terras.
    • Eles abandonam a agricultura (“deserção dos campos”).
    • Sem agricultura, não há comida (“ameaça à ocupação dos solos”).
    • Sem comida, vem a fome e o caos social.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro comum aqui é pensar na motivação da Igreja como puramente espiritual. A Igreja, de fato, condenava a usura como um pecado. No entanto, o texto de Le Goff nos mostra que, por trás da justificativa moral, havia um pânico material. A armadilha é confundir a retórica religiosa (a “ponta do iceberg”) com a motivação socioeconômica (a “base submersa do iceberg”).

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A Igreja se opunha ferozmente à usura porque essa prática minava a base da sociedade medieval, que dependia de uma estrutura social rígida, onde cada grupo (camponeses, nobres, clero) tinha uma função fixa e ligada à terra.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, necessariamente, falar sobre a preservação, manutenção ou conservação dessa estrutura social fixa e hierárquica.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar os suspeitos com o nosso Retrato Falado.

  • A) suprimir o debate escolástico.
    • Análise de Correspondência: O debate escolástico era filosófico e teológico. O texto fala de economia, agricultura e fome. Não há conexão.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) regular a extração de dízimos.
    • Análise de Correspondência: O dízimo era um imposto eclesiástico. A usura é um empréstimo privado a juros. Embora ambos envolvam dinheiro, o texto não estabelece nenhuma relação entre os dois.
    • Diagnóstico do Erro: Associação Indevida.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) diversificar o padrão alimentar.
    • Análise de Correspondência: A preocupação da Igreja era o oposto: a usura estava ameaçando a produção de alimentos, não diversificando-a. O temor era a falta, não a variedade.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) conservar a ordem estamental.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. “Ordem estamental” é o termo técnico para a sociedade dividida em estamentos ou “ordens” com funções fixas (os que oram, os que guerreiam, os que trabalham). Como vimos, a usura ameaçava essa ordem ao permitir que as pessoas “abandonassem sua condição social”. A motivação era, portanto, conservar essa estrutura. Corresponde 100% à nossa Expectativa.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) evitar a circulação de mercadorias.
    • Análise de Correspondência: A usura, ao injetar mais dinheiro na economia, tende a aumentar a circulação de mercadorias, não o contrário. A Igreja não era contra o comércio em si, mas contra uma atividade que desorganizava a sociedade.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: A resposta correta é a alternativa D, pois o texto demonstra que a condenação da usura pela Igreja era uma medida de autodefesa para proteger a estrutura social que a sustentava, a rígida ordem estamental.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A Igreja via a sociedade como um castelo de cartas com três andares (clero, nobreza, servos); a usura era um vento forte ameaçando derrubar a estrutura inteira.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio pode ser visto na Biologia Celular. Um organismo multicelular saudável funciona como uma “ordem estamental”: cada célula (da pele, do fígado, do cérebro) tem uma função específica e trabalha para o bem do todo. O câncer (análogo à usura) surge quando um grupo de células “abandona sua condição social” e passa a trabalhar apenas para si mesmo, reproduzindo-se descontroladamente e sugando os recursos do corpo. Isso ameaça a “ordem” do organismo e pode levar ao colapso sistêmico. Assim como a Igreja temia a usura, nosso corpo “teme” o câncer pela mesma razão: é uma quebra da ordem funcional estabelecida.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.