Questão 59 caderno verde ENEM 2017 Libras 1° Dia

TEXTO I

    Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram denunciados como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram, mandei executá-los, pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas. Outros, cidadãos romanos portadores da mesma loucura, pus no rol dos que devem ser enviados a Roma.

Correspondência de Plínio, governador de Bitínia, província romana situada na Ásia Menor, ao imperador Trajano. Cerca do ano 111 d.C. Disponível em: www.veritatis.com.br (adaptado). Acesso em: 17 jun. 2015 .

TEXTO II

    É nossa vontade que todos os povos regidos pela nossa administração pratiquem a religião que o apóstolo Pedro transmitiu aos romanos. Ordenamos que todas aquelas pessoas que seguem esta norma tomem o nome de cristãos católicos. Porém, o resto, os quais consideramos dementes e insensatos, assumirão a infâmia da heresia, os lugares de suas reuniões não receberão o nome de igrejas e serão castigados em primeiro lugar pela divina vingança e, depois, também pela nossa própria iniciativa.

Édito de Tessalônica, ano 380 d.C. In: PEDRERO-SÁNCHEZ, M. G. História da Idade Média: textos e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000.

Nos textos, a postura do Império Romano diante do cristianismo é retratada em dois momentos distintos.

Em que pesem as diferentes épocas, é destacada a permanência da seguinte prática:

A) Ausência de liberdade religiosa.

B) Sacralização dos locais de culto.

C) Reconhecimento do direito divino.

D) Formação de tribunais eclesiásticos.

E) Subordinação do poder governamental.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • História Antiga (Alto e Baixo Império Romano)
  • História das Religiões (Origens do Cristianismo)
  • Filosofia Política (Relação Estado-Religião)
  • Interpretação Comparativa de Textos Históricos

Tema/Objetivo Geral: Identificar a continuidade na política de controle religioso do Império Romano, apesar da mudança de sua religião oficial.

Nível da Questão: Médio.

  • Detalhe: A questão é de nível médio porque exige uma habilidade de síntese. O candidato precisa ler sobre dois cenários aparentemente opostos (perseguir cristãos vs. impor o cristianismo) e extrair um princípio abstrato comum a ambos. A dificuldade não está na interpretação isolada de cada texto, mas na comparação e na identificação do padrão subjacente.

Gabarito: A) Ausência de liberdade religiosa.

  • Esta alternativa está correta porque, em ambos os textos, o Estado Romano dita qual prática religiosa é aceitável e pune quem desvia da norma, seja ela pagã (Texto I) ou cristã católica (Texto II).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

🕵️‍♂️ Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos dá duas fotos do Império Romano em épocas diferentes e pergunta: “Apesar de o Império ter mudado radicalmente de opinião sobre o cristianismo, qual foi a regra, a atitude de fundo, que NUNCA mudou?”

🧠 Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na política religiosa do Império como um código de vestimenta de uma escola muito autoritária.

  • No ano 111 (Texto I): A regra é “É PROIBIDO usar a camisa do time ‘Cristãos’. Quem for pego usando será expulso.”
  • No ano 380 (Texto II): A regra muda para “É OBRIGATÓRIO que todos usem a camisa do time ‘Cristãos Católicos’. Quem for pego usando qualquer outra camisa será punido.”
    A camisa da moda mudou, mas o que permaneceu idêntico? A existência de uma regra obrigatória e a punição para quem não a segue. Ou seja, em nenhum dos momentos você teve a liberdade de escolher qual camisa vestir. O verdadeiro desafio aqui é enxergar que o oposto de “proibir” não é “liberar”, mas sim “obrigar” — e ambos são formas de controle.

📋 Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  1. Analisar a Ação do Estado no Texto I: Identificar qual era a norma e qual era a punição.
  2. Analisar a Ação do Estado no Texto II: Identificar a nova norma e a nova punição.
  3. Sintetizar o “DNA do Poder”: Encontrar o princípio de governança comum que está por trás dessas duas ações aparentemente contraditórias.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, onde o contraste revela a semelhança, uma Tabela Comparativa é a ferramenta de autópsia perfeita.

ELEMENTO DE ANÁLISE TEXTO I (Ano 111 d.C.) TEXTO II (Ano 380 d.C.)
Religião da Norma Paganismo Romano (politeísmo) Cristianismo Católico
O “Crime” Ser cristão (“teimosia e obstinação”) Não ser cristão católico (“dementes e insensatos”)
Ação do Estado Perseguir, interrogar e executar. Ordenar, definir a norma e castigar.
O Alvo da Punição O cristão. O “herege”, o não-cristão.
🚨 PRINCÍPIO COMUM (O DNA DO PODER) O Estado se reserva o direito de definir a religião errada e punir quem a pratica. O Estado se reserva o direito de definir a religião certa e punir quem não a pratica.
Conclusão da Análise: Nos dois casos, a escolha religiosa não é um direito do indivíduo, mas uma decisão política do Estado. A desobediência a essa decisão é crime.

A tabela revela o paradoxo: o Império muda de lado, mas não muda seu método. O controle estatal sobre a fé é a constante.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos executar o plano.

O Texto I nos mostra um Estado que pune a adesão a uma fé considerada “loucura”. A simples afirmação “sou cristão” era base para a execução. A liberdade de crer no cristianismo era nula.

O Texto II nos mostra um Estado que pune a não adesão à fé agora considerada oficial. Quem não segue a norma dos “cristãos católicos” é taxado de “demente” e será castigado. A liberdade de não crer no cristianismo católico tornou-se nula.

A mudança é de conteúdo (de anti-cristão para pró-cristão), mas a forma de agir é a mesma: imposição e punição.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A alternativa (E), “Subordinação do poder governamental”, é uma armadilha tentadora. O raciocínio falho é: “Se a religião se torna oficial, o governo agora está subordinado a ela”. Isso é uma inversão completa dos fatos! O que os textos mostram é o oposto: é o poder governamental que está usando a religião como ferramenta de controle. No Texto I, para eliminar um grupo visto como subversivo. No Texto II, para unificar o Império sob uma única bandeira ideológica. O governo nunca se subordina; ele submete.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: Tanto a perseguição a uma religião quanto a imposição de uma religião são atos que anulam a autonomia do indivíduo em matéria de fé. O Estado Romano, em ambos os momentos, atuou como o grande legislador da consciência, não permitindo escolha.
  • Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa prática de controle e falta de escolha, ou seja, a negação de um direito fundamental do indivíduo de seguir (ou não seguir) uma crença.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos interrogar os suspeitos finais.

A) Ausência de liberdade religiosa.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. No Texto I, não há liberdade para ser cristão. No Texto II, não há liberdade para não ser cristão católico. Em ambos, a liberdade de escolha religiosa inexiste. A prática de suprimir essa liberdade é a grande permanência.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

B) Sacralização dos locais de culto.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato lê “igrejas” no Texto II e generaliza.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização a partir de um único texto. O Texto I não fala nada sobre locais de culto, apenas sobre a punição de pessoas. Portanto, não é uma prática comum a ambos.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) Reconhecimento do direito divino.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa a figura do Imperador a uma divindade ou a um escolhido por Deus.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora o poder imperial tivesse uma dimensão sagrada, a prática descrita nos textos não é sobre a origem do poder do imperador, mas sobre como esse poder era usado para controlar os súditos.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) Formação de tribunais eclesiásticos.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa na Inquisição e projeta essa ideia no Império Romano.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Anacronismo. No Texto I, o julgamento é feito por uma autoridade civil romana (o governador). No Texto II, a ordem parte do imperador. Tribunais eclesiásticos, com clérigos julgando questões de fé, são uma estrutura posterior, da Idade Média.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) Subordinação do poder governamental.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato acredita que, ao adotar uma religião, o governo passa a obedecê-la.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Como vimos na análise da armadilha, os textos mostram o poder governamental dominando e instrumentalizando a questão religiosa para seus próprios fins de controle social e unidade política.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

🕵️‍♂️ Frase de Fechamento: Confirmamos que a resposta correta é a letra A, pois o Império Romano, seja ao perseguir o cristianismo ou ao torná-lo obrigatório, consistentemente negou a seus habitantes a liberdade fundamental de escolha religiosa.

💡 Resumo-flash (A Imagem Mental): O Estado Romano foi o mestre de marionetes da fé: mudou o boneco principal no palco, mas nunca largou as cordas do controle.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O debate contido nesta questão é a semente de um dos conceitos mais importantes da política moderna: o Estado Laico. Um Estado Laico, em sua concepção ideal, não é um Estado ateu (que proibiria a religião, como no Texto I de forma análoga) nem um Estado teocrático (que imporia uma religião, como no Texto II). O Estado Laico é um árbitro neutro: ele não joga no time de nenhuma religião, mas garante que todos os times possam jogar em paz no campo da sociedade. Ele protege tanto a liberdade de crer quanto a liberdade de não crer. A ausência dessa neutralidade no Império Romano é o que gerou tanto a perseguição quanto a imposição.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.