Questão 025 caderno branco ENEM 2014 3ª Aplicação 1° Dia

 TEXTO I

   Art. 233 — O marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher, no interesse comum do casal e dos filhos.

Código Civil, 1916. Disponível em:www.dji.com.br. Acesso em: 02 out. 2011.

TEXTO II

   Art. 5° II — no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; Parágrafo Único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual.

Lei Maria da Penha. Lei n. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Disponível em: www.planalto.gov.br. Acesso em: 2 out. 2011 (adaptado).

As leis de um país expressam o processo de mudanças na sociedade. Nessa perspectiva, ao comparar o Código Civil de 1916 e a Lei Maria da Penha, as mudanças na definição jurídica do conceito de família no Brasil

a) sinalizam a inclusão das união homoafetivas no conceito de família, criando um marco legal para os movimentos que lutam pela diversidade sexual.

b) restringem os questionamentos aos direitos relacionados a situação feminina, mantendo o papel do homem como chefe da sociedade conjugal.

c) remetem as origens primarias da família, confirmando a relação entre homem, mulher e seus filhos como a base da instituição familiar.

d) reforçam os papeis tradicionais atribuídos aos sexos, concebendo direitos e deveres em conformidade com o gênero.

e) reconhecem a necessidade de homens e mulheres em formar pequenos grupos, concedendo a família a função de manter a estabilidade social.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Direito de Família (Evolução Histórica)
  • Sociologia da Família
  • Interpretação de Textos Comparados

Tema/Objetivo Geral: Analisar a evolução do conceito jurídico de família no Brasil, contrastando uma visão tradicional e hierárquica com uma contemporânea, plural e inclusiva.

Nível da Questão: Fácil.

  • A questão é considerada fácil porque apresenta dois textos com um contraste temporal e conceitual muito acentuado. O Texto I é explicitamente hierárquico e datado, enquanto o Texto II (especialmente seu parágrafo único) introduz uma mudança radical e inequívoca, que é diretamente parafraseada na alternativa correta, tornando a identificação da resposta uma tarefa de comparação direta.

Gabarito: A

  • Esta alternativa está correta pois aponta para a mudança mais significativa e explícita introduzida pelo Texto II: o reconhecimento legal das uniões independentemente da orientação sexual, expandindo o conceito tradicional de família.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pede para comparar os dois textos de lei, um antigo e um novo, e identificar qual foi a principal mudança na definição de “família” que aconteceu nesse período.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como comparar duas edições de um dicionário, uma de 1916 e outra de 2006, para o verbete “família”. A edição antiga tem uma definição curta e rígida. A edição nova revisou e ampliou essa definição para incluir novas realidades. O verdadeiro desafio aqui é encontrar a alternativa que descreve a “nota de atualização” mais importante que a nova edição do dicionário trouxe.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Dissecar as pistas de cada texto para extrair suas respectivas definições de família.
  • Construir um “Dossiê da Evolução” para visualizar o contraste direto entre o “antes” e o “depois”.
  • Formular o “retrato falado” da mudança, ou seja, o que a resposta correta precisa conter.
  • Confrontar os suspeitos (as alternativas) com nosso retrato falado.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para desvendar a evolução da lei, nada é mais eficaz que uma tabela de confronto direto. Vamos colocar o “antes” e o “depois” lado a lado, usando os textos como nossas únicas fontes de evidência. Isso nos dará um panorama claro da mudança que a questão nos pede para identificar.

Aspecto Analisado 📜 A Visão de 1916 (Código Civil) ✨ A Visão de 2006 (Lei Maria da Penha)
O que é “Família”? Uma “sociedade conjugal” formal, baseada no casamento. Uma “comunidade” flexível, formada por laços de afeto, parentesco ou “vontade expressa”.
Como é a Estrutura? Hierárquica e Patriarcal. A lei é explícita: “O marido é o chefe”. Igualitária. A ideia de “chefe” é abolida em favor da noção de “indivíduos” em comunidade.
Quem é Incluído? Apenas o modelo heteronormativo (marido e mulher). Todos os arranjos. A lei é categórica e revolucionária: “independem de orientação sexual”.

A tabela torna a mudança cristalina: o conceito de família não foi apenas ajustado; ele foi completamente reconstruído, passando de um modelo rígido e hierárquico para um plural, afetivo e inclusivo.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos aplicar nossas ferramentas à investigação.

  • Análise dos Textos: O Texto I é um retrato do passado: a família é definida pelo casamento e por uma estrutura de poder desigual. O Texto II é uma revolução: a família passa a ser definida por laços afetivos e pela vontade das pessoas, e, crucialmente, o parágrafo único quebra a barreira da heteronormatividade ao afirmar que a orientação sexual é irrelevante para a formação de uma família perante a lei.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum aqui é a do “Reducionismo de Propósito”. O candidato pensa: “A Lei Maria da Penha é sobre violência contra a mulher, então a mudança deve ser algo relacionado apenas à proteção feminina”. Embora a lei tenha esse foco, para poder proteger a mulher em qualquer arranjo familiar moderno, ela primeiro precisou redefinir o que é uma família de forma ampla e inclusiva. A definição do Art. 5º é a base sobre a qual toda a proteção da lei é construída. Focar apenas na violência e ignorar a redefinição conceitual é perder a pista principal.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que a mudança mais profunda e explícita entre as duas leis é a passagem de um modelo único e hierárquico de família para um conceito plural, baseado no afeto e que inclui legalmente arranjos familiares diversos, independentemente da orientação sexual de seus membros.
    • Expectativa: O “retrato falado” da resposta correta deve, obrigatoriamente, mencionar a expansão do conceito de família para incluir a diversidade sexual, como as uniões homoafetivas, pois essa é a novidade mais impactante e literal apresentada no Texto II.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos interrogar cada um dos suspeitos.

a) sinalizam a inclusão das união homoafetivas no conceito de família, criando um marco legal para os movimentos que lutam pela diversidade sexual.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. Ela aponta diretamente para a consequência do parágrafo único do Texto II (“independem de orientação sexual”), que é a inclusão das uniões homoafetivas.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

b) restringem os questionamentos aos direitos relacionados a situação feminina, mantendo o papel do homem como chefe da sociedade conjugal.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca apenas no nome “Lei Maria da Penha” e não lê o texto com atenção.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Texto II faz o exato oposto: ele amplia os direitos e desmantela completamente a ideia de “homem como chefe” ao apresentar uma definição igualitária de família.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) remetem as origens primarias da família, confirmando a relação entre homem, mulher e seus filhos como a base da instituição familiar.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato acredita que a nova lei veio para reforçar o modelo antigo.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Lógica. A mudança descrita é de ampliação e superação do modelo antigo, não de retorno ou confirmação dele.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) reforçam os papeis tradicionais atribuídos aos sexos, concebendo direitos e deveres em conformidade com o gênero.

  • A “Narrativa do Erro”: Semelhante à anterior, há uma leitura invertida do propósito da nova lei.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O Texto II subverte e flexibiliza os papéis tradicionais, não os reforça. A noção de “comunidade” e “vontade expressa” se opõe à rigidez dos papéis de gênero.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) reconhecem a necessidade de homens e mulheres em formar pequenos grupos, concedendo a família a função de manter a estabilidade social.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato opta por uma alternativa vaga e genérica que parece inofensiva.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva / Fuga ao Ponto Central. Esta afirmação é tão genérica que poderia se aplicar a quase qualquer lei sobre família em qualquer época. Ela falha completamente em capturar a mudança específica e revolucionária que a questão exige que seja identificada.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (A) é a correta, pois ela é a única que identifica a mudança jurídica mais profunda e explícita entre os dois textos: o reconhecimento da pluralidade familiar e a inclusão da diversidade sexual como legítimas perante a lei.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Lembre-se: A lei evoluiu; a família deixou de ser um contrato de hierarquia para se tornar uma comunidade de afeto.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo processo de ampliação de um conceito para abarcar novas realidades e evidências acontece na Astronomia. O conceito de “planeta” era relativamente simples até a descoberta de corpos celestes como Plutão, Éris e outros. Isso forçou a comunidade científica, em 2006 (mesmo ano da Lei Maria da Penha!), a redefinir e ampliar os critérios do que constitui um planeta. Assim como no Direito, as definições na ciência não são estáticas; elas precisam evoluir para refletir um universo mais complexo do que se imaginava.

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