Para o sociólogo Don Slater, as pessoas compram a versão mais cara de um produto não porque tem maior valor de uso do que a versão mais barata, mas porque significa status e exclusividade; e, claro, esse status provavelmente será indicado pela etiqueta de um designer ou de uma loja de departamentos.
BITTENCOURT, R. Sedução para o consumo. Revista Filosofia, n. 66, ano VI, dez. 2011.
Os meios de comunicação, utilizados pelas empresas como forma de vender seus produtos, fazem parte do cotidiano social e tem por um de seus objetivos induzir as pessoas a um(a)
a) vida livre de ideologias.
b) pensamento reflexivo e critico.
c) consumo desprovido de modismos.
d) atitude consumista massificadora.
e) postura despreocupada com estilos.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Sociologia do Consumo
- Indústria Cultural e Meios de Comunicação de Massa
- Interpretação de Texto
Tema/Objetivo Geral:
Análise do papel da mídia na formação de uma sociedade de consumo, a partir da distinção entre valor de uso e valor simbólico de um produto.
Nível da Questão
Médio.
- Por quê? A questão não exige apenas a interpretação literal do texto-base, mas também a capacidade de conectar a ideia central do autor (consumo como busca por status) com um conceito sociológico mais amplo (o papel da mídia na massificação desse comportamento). As alternativas erradas são diretas, mas o raciocínio para chegar à correta exige essa ponte conceitual.
Gabarito
D) atitude consumista massificadora.
- Resumo: O texto afirma que o consumo visa ao status (valor simbólico), e a mídia, ao popularizar essa ideia para milhões, incentiva um comportamento de compra generalizado e padronizado.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
Em bom português, a questão nos entrega uma pista (o texto de Don Slater) e pergunta: “Considerando que as pessoas compram status e não apenas coisas, qual é o principal objetivo da mídia quando nos mostra propagandas o dia todo?”.
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Simplificando, imagine que o desejo por “status” e “exclusividade” é uma receita secreta de bolo, guardada em um livro de um chef famoso. Sozinha, essa receita seria feita por poucas pessoas. Agora, pense na mídia como um grande programa de TV culinário com audiência global. Esse programa não apenas mostra a receita, mas a apresenta como “O Bolo Que Vai Mudar Sua Vida”, mostrando pessoas felizes e sofisticadas o comendo. O programa repete essa mensagem todos os dias. A nossa missão é simples: descrever o resultado final da ação desse programa de TV. Ele não quer apenas que você faça o bolo. Ele quer que milhões de pessoas desejem e tentem fazer o mesmo bolo, transformando uma receita antes exclusiva em um desejo de massa.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
Nosso plano de ataque será o seguinte:
- Analisar a Pista Principal: Extrair a ideia central do texto de Don Slater sobre o porquê de as pessoas comprarem.
- Identificar o Agente: Entender o papel dos “meios de comunicação” como a ferramenta usada pelas empresas.
- Conectar a Pista ao Agente: Juntar as duas ideias para deduzir qual comportamento a mídia quer gerar em nós.
- Construir o “Retrato Falado”: Definir como seria a alternativa correta antes mesmo de olhar para as opções.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, vamos abrir um dossiê para entender a mente do consumidor moderno e a estratégia por trás das vendas.
Dossiê do Consumo: O Valor Oculto das Coisas
- 🕵️♂️ Conceito-Chave:Valor de Uso vs. Valor Simbólico
- Valor de Uso (A Função): É o motivo prático pelo qual um produto existe. Um casaco serve para aquecer. Um carro serve para transportar. É a resposta à pergunta: “Para que isso serve?”.
- Valor Simbólico (O Significado): É o que o produto representa em uma cultura. Um casaco de grife serve para comunicar status. Um carro de luxo serve para projetar poder. É a resposta à pergunta: “O que ter isso diz sobre mim?”.
- 🧠 O Modus Operandi da Mídia:
- A mídia, especialmente a publicidade, opera quase exclusivamente no campo do Valor Simbólico. Ela não vende o perfume, vende a sedução. Não vende o carro, vende a liberdade. Não vende o refrigerante, vende a amizade e a felicidade.
- 🎯 O Efeito Desejado: A Massificação
- O objetivo final não é que uma pessoa se sinta exclusiva, mas que milhões de pessoas desejem o mesmo símbolo de exclusividade. É um paradoxo: cria-se um desejo de massa por um sentimento de individualidade, padronizando os sonhos e os comportamentos de compra.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos seguir nosso Plano de Ataque.
- Analisando a Pista (O Texto): Don Slater é claro como cristal. As pessoas compram a versão mais cara não pela utilidade, mas pelo que ela significa: “status e exclusividade”. A etiqueta, a marca, é a prova desse significado. Em suma: o Valor Simbólico domina o Valor de Uso.
- Identificando o Agente (A Mídia): O enunciado afirma que os “meios de comunicação” são “utilizados pelas empresas como forma de vender seus produtos”. Ou seja, a mídia é a grande amplificadora, o alto-falante que transmite a mensagem do Valor Simbólico para toda a sociedade.
- Conectando os Pontos: Se as pessoas desejam status (ideia de Slater) e a mídia é a ferramenta para vender (ideia do enunciado), a função da mídia é fazer com que o maior número de pessoas possível associe produtos a status e, consequentemente, os compre.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é pensar que o consumo de luxo é algo para poucos e, portanto, não é “de massa”. A armadilha é esquecer que a aspiração e o desejo são massificados, mesmo que a compra não seja. A mídia não trabalha apenas para quem pode comprar o produto de luxo; ela trabalha para que todos reconheçam aquele produto como um símbolo de sucesso, reforçando seu valor e criando um desejo generalizado que sustenta toda a pirâmide do consumo.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto mostra que o consumo é movido por símbolos (status). A mídia pega esses símbolos e os transmite em larga escala para a sociedade. O resultado é um comportamento de compra generalizado, padronizado e focado em adquirir esses símbolos.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever um comportamento que seja, ao mesmo tempo, focado na compra (consumista) e generalizado, padronizado (massificador).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar nosso “Retrato Falado” com os suspeitos (as alternativas).
a) vida livre de ideologias.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que “comprar o que quer” é uma forma de liberdade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O consumismo é, ele próprio, uma poderosa ideologia. A mídia não nos liberta de ideologias; ela nos imerge profundamente na ideologia do consumo, que dita o que devemos desejar para sermos felizes.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
b) pensamento reflexivo e critico.
- A “Narrativa do Erro”: Uma leitura extremamente otimista (e ingênua) do papel da publicidade.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O objetivo da publicidade de massa é justamente o oposto: gerar uma resposta emocional e impulsiva, contornando a reflexão crítica. Ela apela ao desejo, não à razão.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) consumo desprovido de modismos.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno não conectou “status” e “exclusividade” com a ideia de “moda”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto fala exatamente sobre os motores dos modismos: status, grifes, etiquetas, exclusividade. A mídia é a principal ferramenta para criar e disseminar modismos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
d) atitude consumista massificadora.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na nossa Expectativa. “Consumista” reflete a ênfase na compra, e “massificadora” reflete o alcance e a padronização promovidos pela mídia. A mídia induz a sociedade inteira a adotar essa atitude.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
e) postura despreocupada com estilos.
- A “Narrativa do Erro”: Similar à alternativa (c), mas com foco em “estilo”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O “estilo” e a “etiqueta de um designer” mencionados no texto são a própria materialização da preocupação com a aparência e com o que ela simboliza. A mídia nos torna hiperconscientes dos estilos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois a lógica do consumo por status, quando amplificada pela mídia, resulta inevitavelmente em uma atitude consumista e massificadora.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
A mídia não vende produtos, ela vende espelhos que refletem a imagem que desejamos ter – e distribui esses espelhos para milhões de pessoas ao mesmo tempo.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este mesmo princípio de “valor simbólico” que vemos na Sociologia tem um paralelo fascinante na Biologia Evolutiva, no conceito de Seleção Sexual. Um pavão macho não exibe sua cauda colorida e gigante porque ela tem um “valor de uso” prático (na verdade, ela o torna mais lento e vulnerável a predadores). Ele a exibe como um símbolo, um sinal honesto de sua saúde e bons genes para a fêmea. Assim como a grife sinaliza “status financeiro” na sociedade humana, a cauda do pavão sinaliza “aptidão genética” no mundo animal. Em ambos os casos, um atributo visível é usado para comunicar um valor invisível e influenciar o comportamento de outros.

