Questão 105, caderno azul do ENEM 2020 DIGITAL

No Autódromo de Interlagos, um carro de Fórmula 1 realiza a curva S do Senna numa trajetória curvilínea. Enquanto percorre esse trecho, o velocímetro do carro indica velocidade constante.

Quais são a direção e o sentido da aceleração do carro?

A) Radial, apontada para fora da curva.

B) Radial, apontada para dentro da curva.

C) Aceleração nula, portanto, sem direção nem sentido.

D) Tangencial, apontada no sentido da velocidade do carro.

E) Tangencial, apontada no sentido contrário à velocidade do carro.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Cinemática Vetorial: Diferença entre velocidade escalar (rapidez) and velocidade vetorial.
    • Movimento Circular Uniforme (MCU): Aceleração Centrípeta.
  • Tema/Objetivo Geral:
    • Identificar a aceleração presente em um corpo que realiza um movimento curvilíneo com módulo da velocidade constante.
  • Nível da Questão:
    • Médio. A questão contém uma das “armadilhas” mais clássicas da cinemática: a frase “velocidade constante”. Se o aluno não tiver um entendimento sólido de que a velocidade é um vetor (com módulo, direção e sentido), ele cairá na armadilha de pensar que a aceleração é nula. Superar essa pegadinha exige um raciocínio conceitual preciso.
  • Gabarito:
    • B) Radial, apontada para dentro da curva. A alternativa está correta porque, para um corpo mudar sua direção de movimento (fazer uma curva), é necessária uma aceleração que puxe o corpo para o centro dessa curva. Essa é a definição da aceleração centrípeta.

Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão é direta: um carro está fazendo uma curva sem acelerar nem frear. Existe alguma aceleração agindo sobre ele? Se sim, para onde ela aponta?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em girar uma pedra amarrada em um barbante sobre sua cabeça. Você a gira com velocidade constante. A pedra não está acelerando para frente nem freando, mas ela está constantemente sendo puxada para o centro pela sua mão, através do barbante. Se o barbante arrebentar, a pedra sai voando em linha reta. Aquela “puxada” constante para dentro, que força a pedra a fazer a curva, é a força centrípeta, que causa a aceleração centrípeta. O verdadeiro desafio aqui é entender que os pneus do carro de F1 fazem o papel do “barbante”, puxando o carro para dentro da curva.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    • Desarmar a Armadilha: Vamos primeiro diferenciar “velocidade” (o vetor) de “rapidez/celeridade” (o número no velocímetro).
    • Identificar os Tipos de Aceleração: Criaremos um dossiê para os dois tipos de aceleração que podem existir: a tangencial e a centrípeta.
    • Aplicar ao Caso: Analisaremos a situação do carro de F1 para determinar qual (ou quais) acelerações estão presentes e para onde apontam.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a dinâmica, precisamos conhecer nossos dois “agentes” da aceleração. A tabela a seguir é a nossa caixa de ferramentas.

🕵️‍♂️ Tipo de Aceleração 🎯 Função Principal (O Que Ela Faz?) 🧭 Direção e Sentido (Para Onde Aponta?) ❓ Está Presente no Caso da F1?
Aceleração Tangencial (aₜ) Muda o MÓDULO da velocidade. É o que te faz “sentir o tranco” para frente (acelerar) ou para trás (frear). É tangente à trajetória. Aponta no mesmo sentido da velocidade para acelerar, e no sentido oposto para frear. NÃO. O enunciado diz que a “velocidade [módulo] é constante”.
Aceleração Centrípeta (a꜀) Muda a DIREÇÃO do vetor velocidade. É o que te “força” a fazer uma curva. É radial (aponta ao longo do raio da curva) e tem sentido para o centro da curva. Daí o nome “centrípeta” (que busca o centro). SIM. O enunciado diz que o carro faz uma “trajetória curvilínea”.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos aplicar nossas ferramentas ao cenário do Autódromo.

Pense no volante do carro como o “pedal” da aceleração centrípeta. Enquanto o acelerador (que muda o valor no velocímetro) está constante, o volante está virado, aplicando uma força constante que “puxa” o carro para o centro da curva. Essa “puxada” é a aceleração centrípeta.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ler “velocidade constante” e pular para a conclusão de que a aceleração é zero (Alternativa C). Lembre-se, detetive: em física, velocidade é um VETOR. Um vetor só é constante se NEM o seu módulo, NEM a sua direção, NEM o seu sentido mudarem. Como o carro está em uma curva, sua direção muda a todo instante. Se a direção muda, o vetor velocidade muda. E, por definição, aceleração é a taxa de variação da velocidade. Se a velocidade está variando (em direção), TEM que haver aceleração!

Analisando com nossas ferramentas:

  • Se o módulo da velocidade é constante, a Aceleração Tangencial é NULA.
  • Se a direção da velocidade está mudando, a Aceleração Centrípeta NÃO É NULA.

Portanto, a única aceleração presente no carro é a aceleração centrípeta. E para onde ela aponta? Por definição, ela é radial e aponta para dentro da curva.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A constância do velocímetro anula a aceleração tangencial. A trajetória curva garante a existência da aceleração centrípeta. A aceleração total do carro é, portanto, puramente centrípeta.
    • Expectativa: A alternativa correta deve descrever uma aceleração radial apontada para o centro da curva.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos analisar cada suspeito para confirmar nossa investigação.

  • A) Radial, apontada para fora da curva.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato confunde a força real que atua no carro (para dentro) com a sensação de ser “jogado para fora” (uma força inercial, chamada de centrífuga em referenciais não-inerciais).
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Força Centrípeta com Força Inercial. A aceleração que o carro sofre é a que o faz virar, e ela aponta para dentro, causada pelo atrito dos pneus com a pista.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • B) Radial, apontada para dentro da curva.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa descreve perfeitamente a aceleração centrípeta, que é a única presente no movimento. Corresponde exatamente à nossa “Expectativa”.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

  • C) Aceleração nula, portanto, sem direção nem sentido.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai de cabeça na “Armadilha Clássica” da “velocidade constante”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Celeridade (Escalar) com Velocidade (Vetor). Se a velocidade (vetor) fosse constante, o carro andaria em linha reta.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • D) Tangencial, apontada no sentido da velocidade do carro.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato ignora que o velocímetro está constante.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Descrição de Aceleração Escalar. Isso descreveria um carro que está aumentando a velocidade em linha reta.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

  • E) Tangencial, apontada no sentido contrário à velocidade do carro.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato ignora que o velocímetro está constante.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Descrição de Desaceleração. Isso descreveria um carro que está freando em linha reta.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica provado que a aceleração é (B) Radial, apontada para dentro da curva, uma demonstração elegante de que, para desafiar a linha reta, é preciso uma força constante puxando para o centro.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Para fazer a curva, a aceleração “puxa o volante” para o centro da pista.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da aceleração centrípeta que mantém um carro de F1 na pista é o que mantém a Lua em órbita ao redor da Terra. A Lua tem uma velocidade tangencial altíssima, que a faria voar em linha reta pelo espaço. No entanto, a força da gravidade da Terra atua como um “barbante” invisível, constantemente “puxando” a Lua para o centro (para a Terra). Essa força causa uma aceleração centrípeta, que continuamente muda a direção do movimento da Lua, forçando-a a seguir uma trajetória curva: sua órbita. Da curva S do Senna à dança dos corpos celestes, a física da aceleração centrípeta rege o movimento no universo.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.