Questão 009 caderno branco ENEM 2014 3ª Aplicação 1° Dia

Os anos JK podem ser considerados de estabilidade política. Mais do que isso, foram anos de otimismo, embalados por altos índices de crescimento econômico, pelo sonho realizado da construção de Brasília. Os “cinquenta anos em cinco” da propaganda oficial repercutiram em amplas camadas da população.

FAUSTO, B. Histeria Concisa do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 2002.

O Governo Juscelino Kubitscheck era criticado como “entreguista”, por alguns de seus opositores, devido a sua política de desenvolvimento ser marcada pelo(a)

a) diminuto incentivo a agricultura, pois cerca de 60% da população residia na zona rural.

b) decisão de construção de Brasília e a consequente transferência da capital federal.

c) redução planejada e gradativa da importação de veículos e de matérias-primas para as indústria.

d) incentivo a entrada do capital estrangeiro no país, principalmente para a indústria automotiva.

e) escassez de investimentos em educação e alimentação, áreas para as quais destinou poucos recursos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História do Brasil (Período Desenvolvimentista / Governo JK)
  • Interpretação de Texto e Vocabulário Político (compreensão do termo “entreguista”)

Tema/Objetivo Geral: Analisar as críticas políticas ao modelo de desenvolvimento econômico do Governo Juscelino Kubitschek.

Nível da Questão: Médio.
A questão não exige apenas a memorização de um fato (como a construção de Brasília), mas a compreensão de um conceito político específico (“entreguista”) e sua aplicação correta ao modelo econômico de JK. A presença de outras críticas válidas ao governo nas alternativas (como o foco reduzido em certas áreas sociais) exige do candidato a habilidade de filtrar e selecionar a resposta que corresponde exatamente ao comando do enunciado.

Gabarito: Alternativa (d).
Esta alternativa está correta pois a acusação de “entreguismo” era direcionada especificamente à política de JK de atrair massivamente capital e empresas estrangeiras para industrializar o país, o que, para os críticos, representava uma “entrega” da economia nacional a interesses externos


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é muito precisa. A questão não quer saber qualquer crítica ao governo JK, mas sim identificar qual política específica fez com que seus opositores o chamassem pelo apelido de “entreguista”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense no Brasil dos anos 50 como uma casa antiga que precisa de uma reforma radical e ultrarrápida. JK, o dono da casa, promete uma mansão moderna em tempo recorde (“50 anos em 5”). Para conseguir o dinheiro e a tecnologia necessários, ele abre as portas para construtoras e investidores estrangeiros muito ricos e experientes. O verdadeiro desafio aqui é entender por que alguns vizinhos e familiares (os opositores) olharam para essa parceria e gritaram: “Você está entregando a chave da nossa casa para estranhos!”. Nossa tarefa é encontrar a placa na porta que anunciava essa “parceria internacional”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  • Definir com precisão cirúrgica: O que significa a acusação política de “entreguismo”?
  • Analisar o “crime”: Qual era o motor do plano econômico de JK (o Plano de Metas)?
  • Conectar os pontos: Unir a definição de “entreguismo” com a política econômica de JK para criar um “retrato falado” da resposta correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, nossa ferramenta principal será um Dossiê Investigativo, que organiza as informações cruciais sobre o Governo JK e a acusação em questão.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ DO CASO: “A ACUSAÇÃO ENTREGUISTA” 🧠

  • Alvo da Investigação: Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961).
  • Slogan de Impacto: “Cinquenta anos em cinco”. Isso nos diz tudo sobre a urgência e a escala do projeto.
  • O Plano Mestre: O “Plano de Metas”, um ambicioso projeto de desenvolvimento focado em cinco áreas estratégicas: energia, transporte, indústria de base, alimentação e educação. Note que os três primeiros eram a prioridade máxima.
  • O Modus Operandi (A Política Chave): Para financiar essa modernização acelerada, o governo adotou uma política de abertura ao capital estrangeiro. Isso significava criar um ambiente extremamente favorável (com incentivos fiscais, cambiais e de infraestrutura) para que empresas multinacionais se instalassem no Brasil.
  • A Arma do Crime (A Acusação): O termo “Entreguismo”.
    • Definição: No vocabulário político brasileiro, “entreguismo” é a acusação feita a governantes que, supostamente, estariam “entregando” o controle da economia, dos recursos naturais ou de setores estratégicos do país a interesses internacionais, sacrificando a soberania nacional.
  • Principal Evidência Concreta: A instalação massiva de montadoras de automóveis estrangeiras, como Volkswagen, Ford e General Motors, que se tornaram o símbolo dessa nova fase industrial do Brasil, impulsionada pelo capital externo.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Seguindo nosso plano, vamos aplicar as ferramentas. O texto de apoio fala em “otimismo” e “crescimento”, mas a pergunta foca na crítica.

O Dossiê do Passo 2 foi claro: a acusação de “entreguismo” está diretamente ligada à política de abertura ao capital estrangeiro. JK precisava de dinheiro e tecnologia para cumprir sua promessa de “50 anos em 5”. A solução mais rápida foi atrair quem já tinha ambos: as grandes corporações multinacionais. Para os críticos, especialmente os nacionalistas, essa estratégia era perigosa. Eles argumentavam que o Brasil estava se tornando dependente, “entregando” seu nascente parque industrial e seu mercado consumidor aos estrangeiros.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ser atraído pelo item mais famoso do governo JK: Brasília. A construção de Brasília foi, de fato, um marco gigantesco, mas ideologicamente era vista como um projeto nacionalista, de integração do território e afirmação da soberania. Portanto, caso o candidato não tivesse cuidado, poderia deixar passar o enunciado perguntando o motivo das críticas direcionadas a JK, e já partir direto para a alternativa que tem uma característica bem expressiva desse governo.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a acusação de “entreguista” não era uma crítica genérica, mas uma flecha apontada para o coração do modelo de desenvolvimento de JK: a dependência do capital e da tecnologia de empresas estrangeiras para acelerar a industrialização.
    • Expectativa: O que esperamos encontrar na alternativa correta? Uma descrição clara dessa política de incentivo à entrada de capital e empresas estrangeiras no país.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Agora, e somente agora, vamos confrontar nossas conclusões com as alternativas.

a) diminuto incentivo a agricultura, pois cerca de 60% da população residia na zona rural.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno sabe que JK priorizou a indústria e pode concluir que a agricultura foi deixada de lado, o que é uma crítica válida ao modelo.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Embora a falta de atenção à agricultura seja uma crítica histórica ao governo JK, ela não explica a acusação específica de “entreguismo”. A crítica aqui seria de “desequilíbrio setorial” ou “negligência rural”, não de “entrega” a estrangeiros.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) decisão de construção de Brasília e a consequente transferência da capital federal.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno associa o fato mais conhecido de JK (Brasília) a uma crítica, sem analisar o conteúdo semântico da palavra “entreguista”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Como vimos na nossa “Armadilha Clássica”, Brasília era um símbolo de nacionalismo e integração interna, o oposto conceitual de “entregar” o país a interesses externos.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) redução planejada e gradativa da importação de veículos e de matérias-primas para as indústria.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno lê as palavras-chave “importação”, “veículos” e “indústria” e as associa ao período JK, sem notar o verbo “redução”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Factual. O projeto industrial de JK, especialmente o automotivo, dependia da importação de máquinas, peças e matérias-primas. A política foi de aumentar e facilitar essas importações para as indústrias que se instalavam, não reduzi-las.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) incentivo a entrada do capital estrangeiro no país, principalmente para a indústria automotiva.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com o “retrato falado” que criamos em nossa Bússola. Ela descreve com precisão a política econômica que fundamentou a acusação de “entreguismo”.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

e) escassez de investimentos em educação e alimentação, áreas para as quais destinou poucos recursos.

  • A “Narrativa do Erro”: Similar à alternativa (a), o aluno identifica uma crítica socioeconômica real ao Plano de Metas, que de fato priorizou a infraestrutura em detrimento de áreas sociais.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Assim como a crítica à agricultura, esta é uma crítica válida sobre as prioridades do governo, mas não tem relação com a acusação de “entregar” a economia a estrangeiros. O diagnóstico seria de “desigualdade social” ou “falta de investimento social”, não “entreguismo”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (d) é a correta, pois o termo “entreguista” foi a principal arma retórica dos nacionalistas contra a estratégia central de JK: usar o capital e as empresas estrangeiras como motor para o seu projeto de industrialização acelerada.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O Brasil de JK foi um carro zero km saindo da fábrica em tempo recorde, mas os críticos apontavam que tanto a fábrica quanto o motor eram estrangeiros.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O dilema de JK é atemporal e se conecta diretamente com debates de tecnologia e economia global hoje. Pense na discussão sobre a regulação de Big Techs (como Google, Meta, Amazon) no Brasil. De um lado, a entrada irrestrita dessas empresas traz inovação, investimentos e serviços. Do outro, surgem as mesmas preocupações da era JK: estamos “entregando” nossos dados, nosso mercado digital e o controle da informação a potências estrangeiras? A tensão entre desenvolvimento via abertura e a proteção da soberania nacional é um fantasma que continua a assombrar o projeto de país no Brasil.

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