Questão 129, caderno azul do ENEM 2009

Serafim da Silva Neto defendia a tese da unidade da língua portuguesa no Brasil, entrevendo que no Brasil as delimitações dialetais espaciais não eram tão marcadas como as isoglossas¹ da România Antiga. Mas Paul Teyssier, na sua História da Língua Portuguesa, reconhece que na diversidade socioletal essa pretensa unidade se desfaz. Diz Teyssier: “A realidade, porém, é que as divisões ‘dialetais’ no Brasil são menos geográficas que socioculturais. As diferenças na maneira de falar são maiores, num determinado lugar, entre um homem culto e o vizinho analfabeto que entre dois brasileiros do mesmo nível cultural originários de duas regiões distantes uma da outra.”

SILVA, R. V. M. O português brasileiro e o português europeu
contemporâneo: alguns aspectos da diferença. Disponível em:
www.uniroma.it. Acesso em: 23 jun. 2008.

¹ isoglossa – linha imaginária que, em um mapa, une os pontos de ocorrência de traços e fenômenos linguísticos idênticos.

FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

De acordo com as informações presentes no texto, os pontos de vista de Serafim da Silva Neto e de Paul Teyssier convergem em relação:

A) à influência dos aspectos socioculturais nas diferenças dos falares entre indivíduos, pois ambos consideram que pessoas de mesmo nível sociocultural falam de forma semelhante.

B) à delimitação dialetal no Brasil assemelhar-se ao que ocorria na România Antiga, pois ambos consideram a variação linguística no Brasil como decorrente de aspectos geográficos.

C) à variação sociocultural entre brasileiros de diferentes regiões, pois ambos consideram o fator sociocultural de bastante peso na constituição das variedades linguísticas no Brasil.

D) à diversidade da língua portuguesa na România Antiga, que até hoje continua a existir, manifestandose nas variantes linguísticas do português atual no Brasil.

E) à existência de delimitações dialetais geográficas pouco marcadas no Brasil, embora cada um enfatize aspectos diferentes da questão.

Resolução em Texto

📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Linguística (Sociolinguística, Dialetologia, Variação Linguística)
  • Interpretação de Texto Comparativo

🎯 Tema/Objetivo Geral: Comparar e contrastar as teses de dois linguistas (Serafim da Silva Neto e Paul Teyssier) sobre a variação linguística no Brasil, identificando o ponto em que suas ideias, apesar das diferenças, se encontram.

📊 Nível da Questão: Médio a Difícil.
Por quê? A questão é desafiadora porque exige que o aluno encontre um ponto de convergência (concordância) entre dois autores que, à primeira vista, parecem discordar. O texto enfatiza a discordância: Serafim defende a “unidade” (com base na geografia), enquanto Teyssier a “desfaz” (enfatizando o social). A dificuldade está em perceber que a afirmação de Serafim sobre a pouca marcação geográfica é, na verdade, o ponto de partida que Teyssier não nega, apenas complementa com outra dimensão.

✅ Gabarito: Alternativa E.
Resumo: O texto apresenta duas visões. Serafim da Silva Neto diz que as “delimitações dialetais espaciais [geográficas] não eram tão marcadas”. Paul Teyssier concorda com essa premissa ao afirmar que as “divisões ‘dialetais’ no Brasil são menos geográficas que socioculturais”. Portanto, ambos convergem na ideia de que as barreiras geográficas entre os dialetos brasileiros são fracas ou pouco definidas. A divergência está na ênfase que cada um dá a essa observação: Serafim usa isso para defender a “unidade” da língua, enquanto Teyssier usa para destacar a importância da variação social.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“De acordo com as informações presentes no texto, os pontos de vista de Serafim da Silva Neto e de Paul Teyssier convergem em relação…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para encontrarmos o ponto em comum, a ideia em que os dois estudiosos concordam, mesmo que suas conclusões gerais sejam diferentes.

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é “dissecar” a tese de cada autor, separando o que cada um afirma, e depois procurar a sobreposição, a afirmação que é compartilhada por ambos.

🧠 Concordar com um ponto de partida é o mesmo que concordar com a conclusão final? Dois debatedores podem concordar que “o céu está nublado”, mas um pode concluir que “vai chover” e o outro que “o tempo vai abrir”. A questão pede o ponto em comum (“o céu está nublado”).


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Variação Diatópica (Geográfica): A variação da língua no espaço. São os dialetos regionais ou “sotaques”. O estudo dessas fronteiras geográficas é a Dialetologia.
  • Variação Diastrática (Social): A variação da língua entre diferentes grupos ou classes sociais dentro de uma mesma comunidade. São os socioletos. Fatores como escolaridade, idade, profissão e gênero influenciam essa variação.
  • Isoglossa: Uma linha imaginária em um mapa que separa áreas geográficas onde um determinado fenômeno linguístico (uma pronúncia, uma palavra) ocorre de onde ele não ocorre. “Isoglossas marcadas” significam fronteiras dialetais bem definidas, como na Europa.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
Temos dois especialistas discutindo os “sotaques” do Brasil.

  • Especialista 1 (Serafim): Ele olha o mapa do Brasil e diz: “Sabe, as fronteiras entre os sotaques aqui não são tão claras e definidas como na Europa. Dá pra dizer que, geograficamente, o português do Brasil é bem unido”.
  • Especialista 2 (Teyssier): Ele ouve o Serafim e diz: “Você tem razão, as divisões geográficas são fracas. MAS a verdadeira divisão no Brasil não está no mapa, está na sociedade. Num mesmo lugar, um doutor e um trabalhador analfabeto falam de jeitos muito mais diferentes do que dois doutores, um do Ceará e outro do Rio Grande do Sul”.
    A pergunta é: em qual ponto eles concordam? Eles concordam na primeira parte: que as divisões geográficas dos dialetos no Brasil são pouco marcadas.

Estratéia Geral 🗺️
Vamos extrair a afirmação principal de cada autor e procurar a intersecção entre elas.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Análise da Tese de Serafim da Silva Neto:
    • Afirmação Central: Ele “entrevendo que no Brasil as delimitações dialetais espaciais não eram tão marcadas“.
    • Conclusão: Isso o levava a defender a “tese da unidade da língua portuguesa no Brasil”.
  2. Análise da Tese de Paul Teyssier:
    • Ponto de Partida: “A realidade, porém, é que as divisões ‘dialetais’ no Brasil são menos geográficas que socioculturais.”
    • Análise do Ponto de Partida: Ao dizer que são “menos geográficas”, Teyssier está, implicitamente, concordando com a premissa de Serafim de que as divisões geográficas não são o fator mais forte ou marcante.
    • Conclusão (a divergência): Ele usa essa premissa para argumentar que a verdadeira diversidade é social, não geográfica.
  3. Identificação da Convergência:
    • Serafim diz: as divisões geográficas são pouco marcadas.
    • Teyssier diz: as divisões são menos geográficas e mais sociais.
    • O ponto em que eles concordam é a primeira parte da frase de Teyssier: a relativa irrelevância das fronteiras geográficas para explicar a variação linguística no Brasil.

A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha é focar na divergência entre os autores, que o texto destaca (“Mas Paul Teyssier…”, “A realidade, porém…”). As alternativas A e C focam na visão de Teyssier (a importância do sociocultural), mas Serafim não enfatiza esse ponto. A questão pede a convergência.

Fechamento e Expectativa
O raciocínio nos leva a procurar a alternativa que afirma que ambos os autores reconhecem a fraqueza das divisões dialetais geográficas no Brasil.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) à influência dos aspectos socioculturais…
Incorreta. Este é o ponto central de Teyssier, mas não de Serafim. Portanto, é um ponto de divergência, não de convergência.

🔴 B) à delimitação dialetal no Brasil assemelhar-se ao que ocorria na România Antiga…
Incorreta. Serafim diz exatamente o oposto: que as delimitações no Brasil não eram tão marcadas como as da România Antiga.

🔴 C) à variação sociocultural entre brasileiros de diferentes regiões…
Incorreta. Novamente, este é o argumento de Teyssier para explicar a diversidade, mas não é o ponto de concordância com Serafim.

🔴 D) à diversidade da língua portuguesa na România Antiga…
Incorreta. A România Antiga é usada como um ponto de comparação, mas a concordância entre os autores é sobre o Brasil, não sobre a Europa.

🟢 E) à existência de delimitações dialetais geográficas pouco marcadas no Brasil, embora cada um enfatize aspectos diferentes da questão.
Correta. Esta alternativa captura perfeitamente o ponto de convergência. Ambos os autores concordam que as “delimitações dialetais geográficas” são “pouco marcadas”. A segunda parte da frase (“embora cada um enfatize aspectos diferentes”) reconhece a divergência em suas conclusões, tornando a afirmação completa e precisa.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O texto apresenta as teses de dois linguistas sobre a variação da língua portuguesa no Brasil. Serafim da Silva Neto argumenta que as fronteiras dialetais geográficas são pouco definidas, o que o leva a defender a unidade da língua. Paul Teyssier parte da mesma premissa – que as divisões são “menos geográficas” – mas a utiliza para argumentar que a principal fonte de variação é sociocultural, não espacial. Portanto, o ponto de convergência entre os dois autores é o reconhecimento da fraqueza ou da pouca marcação das fronteiras dialetais geográficas no país, ainda que eles tirem conclusões diferentes a partir dessa observação.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a E.

Resumo Final para Revisão
Em questões de comparação de textos ou teses, procure a premissa compartilhada. Muitas vezes, autores discordam na conclusão, mas partem de uma mesma observação inicial. Encontrar essa observação é a chave para identificar o ponto de convergência.

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