Gerente – Boa tarde. Em que eu posso ajudá-lo?
Cliente – Estou interessado em financiamento para compra de veículo.
Gerente – Nós dispomos de várias modalidades de crédito. O senhor é nosso cliente?
Cliente – Sou Júlio César Fontoura, também sou funcionário do banco.
Gerente – Julinho, é você, cara? Aqui é a Helena! Cê tá em Brasília? Pensei que você inda tivesse na agência de Uberlândia! Passa aqui pra gente conversar com calma.
BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna. São Paulo: Parábola, 2004 (adaptado).
Na representação escrita da conversa telefônica entre a gerente do banco e o cliente, observa-se que a maneira de falar da gerente foi alterada de repente devido
A) à adequação de sua fala à conversa com um amigo, caracterizada pela informalidade.
B) à iniciativa do cliente em se apresentar como funcionário do banco.
C) ao fato de ambos terem nascido em Uberlândia (Minas Gerais).
D) à intimidade forçada pelo cliente ao fornecer seu nome completo.
E) ao seu interesse profissional em financiar o veículo de Júlio.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto, Variação Linguística, Níveis de Linguagem (Registros Formal e Informal).
Tema/Objetivo Geral:
Análise da adequação da linguagem ao contexto comunicativo, identificando o fator que motiva a mudança de registro (formal para informal) em um diálogo.
Nível da Questão
Fácil – O fenômeno apresentado (a mudança de linguagem ao encontrar um conhecido) é algo extremamente comum no dia a dia. O diálogo torna a transição do registro formal para o informal muito explícita e fácil de identificar, não exigindo conhecimentos teóricos aprofundados para sua compreensão.
Gabarito
A alternativa A está correta. A gerente muda seu registro linguístico de formal para informal ao reconhecer que o cliente é um amigo, adequando sua fala à relação de proximidade e ao novo contexto interpessoal que se estabeleceu.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
“Na representação escrita da conversa telefônica […], observa-se que a maneira de falar da gerente foi alterada de repente devido”
O que está sendo pedido?
A questão quer saber o motivo exato que fez a gerente mudar sua forma de falar no meio da conversa.
Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é identificar o gatilho que provocou a mudança do registro formal (profissional) para o informal (pessoal) na fala da gerente.
Pergunta de Atenção
Você já reparou como você fala de um jeito com seu professor e de outro totalmente diferente com seu melhor amigo? É exatamente esse fenômeno que a questão está abordando!
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Para resolver essa questão, precisamos entender como a linguagem se adapta às situações. Vamos ver os conceitos-chave:
| Conceito | Definição Simplificada | Exemplo do Cotidiano |
| Variação Linguística (Situacional) | É a capacidade que a língua tem de se adaptar a diferentes contextos. Nós, como falantes, escolhemos as palavras e a estrutura das frases de acordo com a situação: com quem estamos falando, onde estamos e qual o nosso objetivo. É como ter roupas diferentes no armário para cada ocasião. | Você não vai a uma entrevista de emprego falando “E aí, mano, beleza? Vim pegar aquele trampo”. Da mesma forma, você não chega para seus amigos na praia dizendo: “Prezados colegas, poderíamos nos dirigir ao mar para um banho?”. |
| Registro Formal | É a “roupa de gala” da linguagem. Usamos em situações sérias, profissionais ou que exigem distanciamento e respeito. Segue a norma-padrão da gramática, evita gírias, abreviações e trata o interlocutor por “senhor(a)” ou “você” com conjugação verbal correta. | Uma apresentação de trabalho na faculdade, uma conversa com um juiz em um tribunal, o discurso de um político. No texto, é o “Boa tarde. Em que eu posso ajudá-lo?”. |
| Registro Informal (ou Coloquial) | É a “roupa do dia a dia”. Usamos com amigos e familiares, em situações descontraídas. A gramática é mais flexível, e o uso de gírias, apelidos, e formas reduzidas como “cê” e “tá” é muito comum. | Uma conversa no WhatsApp com amigos, um bate-papo na mesa do bar, uma ligação para sua mãe. No texto, é o “Julinho, é você, cara? Cê tá em Brasília?”. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada
Basicamente, temos uma gerente de banco super profissional que, de repente, começa a falar como se estivesse com um amigo antigo. A gente precisa descobrir: o que aconteceu nesse meio tempo para ela mudar o jeito de falar tão drasticamente?
Estratégia Geral
Vamos dividir a fala da gerente em duas partes, a “formal” e a “informal”, e identificar o ponto exato da conversa que causou essa virada de chave, ou seja, o gatilho da mudança.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado
Vamos analisar o diálogo em sequência:
Momento 1 – Registro Formal: A gerente inicia o atendimento de forma profissional.
- “Boa tarde. Em que eu posso ajudá-lo?”
- “Nós dispomos de várias modalidades de crédito. O senhor é nosso cliente?”
- Note o uso do pronome de tratamento “senhor” e a linguagem polida e impessoal. Ela está desempenhando seu papel de gerente.
O Gatilho da Mudança: O cliente se identifica.
- “Sou Júlio César Fontoura, também sou funcionário do banco.”
- Essa informação ativa a memória da gerente.
Momento 2 – Registro Informal: A gerente reconhece o cliente e a linguagem muda completamente.
- “Julinho, é você, cara? Aqui é a Helena! Cê tá em Brasília? Pensei que você inda tivesse na agência de Uberlândia!”
- Aqui temos uma explosão de informalidade:
- “Julinho”: Uso de apelido, indicando intimidade.
- “cara”: Gíria que denota amizade e descontração.
- “Cê”: Redução de “você”, típica da fala coloquial.
- “inda”: Redução de “ainda”.
- O tom geral é de surpresa e alegria, totalmente pessoal e nada profissional.
Verificação Intermediária
Até aqui, fica claro que a mudança não foi aleatória. Ela foi causada pelo reconhecimento do cliente como uma pessoa conhecida e próxima, o “Julinho”, e não apenas como “Júlio César Fontoura, funcionário do banco”.
Possível armadilha
Você poderia pensar que a mudança foi só porque ele era um colega de trabalho (como sugere a alternativa B). Mas a linguagem usada (“cara”, “Julinho”) vai muito além do coleguismo profissional; ela indica uma amizade pessoal. A mudança não é de “formal” para “corporativo”, mas de “formal” para “pessoal/íntimo”.
Fechamento e expectativa
O raciocínio nos mostra que a causa da mudança foi o reconhecimento de uma relação pessoal preexistente. Esperamos encontrar uma alternativa que descreva exatamente essa adequação da linguagem a uma relação de amizade e informalidade.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- (🟢) A) Perfeito. A gerente reconheceu seu amigo “Julinho” e imediatamente ajustou sua linguagem para o nível informal, que é o adequado para essa relação.
- (🔴) B) Incorreto. Essa é a armadilha! Ser funcionário foi parte da identificação, mas o gatilho real foi o reconhecimento de quem ele era (o amigo Julinho), não o que ele era (um colega de trabalho). A informalidade usada (“cara”) confirma a relação pessoal.
- (🔴) C) Incorreto. O texto não nos dá nenhuma informação sobre onde a gerente nasceu. Ela apenas menciona que pensava que ele ainda estivesse na agência de lá. É uma suposição sem base no diálogo.
- (🔴) D) Incorreto. Pelo contrário, o cliente se apresentou de forma bastante formal (“Júlio César Fontoura”). A informalidade partiu da gerente, e não foi de forma alguma forçada por ele.
- (🔴) E) Incorreto. O interesse profissional já existia desde o início, quando ela usava a linguagem formal. A mudança para a informalidade foi uma reação pessoal e espontânea, não uma estratégia de vendas.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio
A análise do diálogo mostrou uma clara quebra de registro, da linguagem formal para a informal. Essa mudança foi motivada pelo reconhecimento de uma relação de amizade preexistente entre a gerente e o cliente, fazendo com que ela adequasse sua fala ao novo contexto interpessoal.
Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a A.
Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se sempre: a linguagem é uma ferramenta social. Nós a ajustamos constantemente dependendo do contexto e da relação que temos com quem estamos falando.
