A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dentes
Tem gringo pensando que nóis é indigente
Inútil
A gente somos inútil
MOREIRA, R. Inútil. 1983 (fragmento).
O fragmento integra a letra de uma canção gravada em momento de intensa mobilização política. A canção foi censurada por estar associada:
A) ao rock nacional, que sofreu limitações desde o início da ditadura militar.
B) a uma crítica ao regime ditatorial que, mesmo em sua fase final, impedia a escolha popular do presidente.
C) à falta de conteúdo relevante, pois o Estado buscava, naquele contexto, a conscientização da sociedade por meio da música.
D) à dominação cultural dos Estados Unidos da América sobre a sociedade brasileira, que o regime militar pretendia esconder.
E) à alusão à baixa escolaridade e à falta de consciência política do povo brasileiro.

Resolução em Texto
📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão
- História do Brasil (Ditadura Militar, Processo de Redemocratização, Diretas Já)
- Língua Portuguesa (Interpretação de Texto, Ironia, Variedade Linguística)
- História da Música Popular Brasileira (Rock Nacional dos Anos 80)
🎯 Tema/Objetivo Geral: Interpretar o conteúdo crítico e irônico de uma canção, relacionando-o ao contexto político de sua produção (final da Ditadura Militar) para entender o motivo de sua censura.
📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige que o aluno perceba a ironia contida na letra. Um leitor desatento poderia interpretar a letra literalmente, como uma simples autodepreciação (como sugere a alternativa E). A dificuldade está em entender que a repetição de “A gente não sabemos…” é uma crítica sarcástica à condição de tutela imposta pelo regime militar, que tratava o povo como incapaz de tomar suas próprias decisões, como eleger um presidente.
✅ Gabarito: Alternativa B.
Resumo: A canção foi lançada em 1983, no auge da campanha pelas Diretas Já. A frase “A gente não sabemos escolher presidente” não era uma confissão de incapacidade, mas uma crítica irônica e direta ao regime militar, que negava ao povo o direito de votar para presidente sob o pretexto de que a população não estava “preparada”. A censura agiu para silenciar essa crítica contundente.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“O fragmento integra a letra de uma canção gravada em momento de intensa mobilização política. A canção foi censurada por estar associada…”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos a razão pela qual a música “Inútil” foi censurada. Qual era a mensagem “perigosa” ou “subversiva” que os censores da ditadura viram na letra?
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é decodificar a ironia da letra e conectá-la ao “momento de intensa mobilização política” mencionado no enunciado, que era a luta pela redemocratização e pelas eleições diretas.
🧠 Quando alguém diz sarcasticamente “Ah, claro, eu sou tão burro que não sei nem amarrar meu sapato!”, essa pessoa está realmente se chamando de burra ou está criticando quem a trata como se fosse? A lógica da música é exatamente essa.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Contexto (1983):
- Final da Ditadura Militar: O regime militar, iniciado em 1964, estava em seu processo final de “abertura lenta, gradual e segura”.
- Diretas Já: A sociedade civil se mobilizava massivamente para exigir o direito de votar diretamente para Presidente da República, o que não acontecia desde 1960.
- Argumento do Regime: Uma das justificativas do regime para não permitir eleições diretas era a de que o povo brasileiro era “imaturo” ou “incapaz” de escolher seus próprios governantes, necessitando da tutela dos militares.
- Ironia:
- O que é: Dizer o contrário do que se pensa, geralmente com intenção crítica ou de deboche.
- Na música: Roger Moreira (vocalista do Ultraje a Rigor) usa a primeira pessoa do plural (“A gente”) e uma gramática propositalmente “errada” (“não sabemos”) para simular a voz do “povo ignorante” que o regime militar alegava existir. Ao listar incapacidades absurdas (“nem escovar os dentes”), ele expõe o ridículo do argumento de que esse mesmo povo não poderia escolher um presidente.
- Censura na Ditadura Militar:
- O que era: Um mecanismo de controle do Estado que proibia a divulgação de obras (músicas, peças, filmes, livros) consideradas subversivas, imorais ou críticas ao governo. Qualquer mensagem que pudesse ser interpretada como um questionamento à autoridade do regime era vetada.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
A música é um grande deboche. O cantor finge ser o “povão burro” que os militares diziam que existia, falando: “Nós somos tão incompetentes que não sabemos nem escolher presidente, nem cuidar de nós mesmos, nem escovar os dentes… Somos uns inúteis!”. O que ele está realmente dizendo é: “É ridículo vocês, militares, acharem que não temos capacidade de votar! Tratar o povo como criança é um absurdo!”. Os censores da ditadura não eram bobos, eles entenderam perfeitamente a ironia e a crítica direta ao regime e à falta de eleições diretas. Por isso, proibiram a música.
Estratégia Geral 🗺️
Vamos focar na frase mais política da letra: “A gente não sabemos escolher presidente”. Em seguida, vamos situar essa frase no contexto de 1983 e entender por que ela era tão provocadora para o regime militar da época.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Identificar o Tema Central: A primeira e mais repetida frase é sobre a incapacidade de “escolher presidente”. Esse é o núcleo político da canção.
- Contextualizar Historicamente: O ano é 1983. O Brasil está em plena campanha pelas Diretas Já. A principal demanda da sociedade era exatamente o direito de escolher o presidente.
- Analisar a Ironia: A letra não é uma aceitação da incapacidade. Ao colocar a incapacidade de votar no mesmo nível de incapacidades básicas e absurdas como “escovar os dentes”, a canção ridiculariza o argumento de que o povo seria “inapto” para a democracia. É uma forma de dizer: “Se vocês acham que não podemos votar, então devem achar que somos completos idiotas”.
- Entender a Perspectiva da Censura: Para os censores do regime militar, uma música que tocava na ferida da falta de eleições diretas e que, de forma irônica, expunha a fragilidade dos argumentos autoritários era altamente subversiva. Ela estimulava o pensamento crítico e o sentimento de revolta contra a ditadura.
- Conclusão: A canção foi censurada porque era uma crítica direta e inteligente ao regime ditatorial, especificamente à sua recusa em permitir a escolha popular do presidente.
A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha é a Alternativa E (alusão à baixa escolaridade e falta de consciência política). Essa é a leitura literal e superficial da letra. A censura não se preocuparia com uma música que apenas dissesse que o povo é ignorante; pelo contrário, isso poderia até ser útil para a propaganda do regime. A censura agiu porque percebeu que a letra era uma arma irônica usada para criticar a ditadura.
A análise nos leva a procurar a alternativa que conecta a canção à crítica ao autoritarismo e à luta pelas eleições diretas.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) ao rock nacional, que sofreu limitações desde o início da ditadura militar.
Incorreta. Embora o rock tenha sido alvo de censura, a razão aqui não é o gênero musical em si, mas o conteúdo político específico da letra.
🟢 B) a uma crítica ao regime ditatorial que, mesmo em sua fase final, impedia a escolha popular do presidente.
Correta. Esta alternativa descreve com precisão o contexto e a mensagem da canção. A letra é uma crítica direta à falta de eleições diretas para presidente, uma das principais características do regime militar, mesmo em seus últimos anos.
🔴 C) à falta de conteúdo relevante, pois o Estado buscava […] a conscientização da sociedade por meio da música.
Incorreta. É o oposto. A música foi censurada justamente por ter um conteúdo político muito relevante e crítico. O Estado não buscava a conscientização, mas o controle.
🔴 D) à dominação cultural dos Estados Unidos da América sobre a sociedade brasileira…
Incorreta. A letra não aborda a questão da dominação cultural. A crítica é interna, voltada para a política brasileira.
🔴 E) à alusão à baixa escolaridade e à falta de consciência política do povo brasileiro.
Incorreta. Esta é a armadilha da leitura literal. A alusão é irônica, e seu objetivo é criticar quem acusa o povo de falta de consciência política, e não o povo em si.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
Lançada em 1983, em meio à efervescência do movimento Diretas Já, a canção “Inútil” utiliza a ironia para criticar a falta de democracia no Brasil. Ao enumerar supostas incapacidades do povo, culminando em “não sabemos escolher presidente”, a letra satiriza a justificativa do regime militar para impedir eleições diretas. A censura, portanto, agiu para silenciar essa crítica contundente à ditadura e ao seu controle sobre a vida política do país.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se: Contexto é tudo! A mesma letra de música poderia significar coisas diferentes em épocas diferentes. Em 1983, a frase “não sabemos escolher presidente” era uma bomba política, pois falava diretamente sobre a maior luta social daquele momento.