Eu, o Príncipe Regente, faço saber aos que o presente Alvará virem: que desejando promover e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas e a indústria, sou servido abolir e revogar toda e qualquer proibição que haja a este respeito no Estado do Brasil.
Alvará de liberdade para as indústrias (1º de Abril de 1808). In Bonavides, P.; Amaral, R. Textos políticos da História do Brasil. Vol. 1. Brasília: Senado Federal, 2002 (adaptado).
O projeto industrializante de D. João, conforme expresso no alvará, não se concretizou. Que características desse período explicam esse fato?
A) A ocupação de Portugal pelas tropas francesas e o fechamento das manufaturas portuguesas.
B) A dependência portuguesa da Inglaterra e o predomínio industrial inglês sobre suas redes de comércio.
C) A desconfiança da burguesia industrial colonial diante da chegada da família real portuguesa.
D) O confronto entre a França e a Inglaterra e a posição dúbia assumida por Portugal no comércio internacional.
E) O atraso industrial da colônia provocado pela perda de mercados para as indústrias portuguesas.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão: História do Brasil (Período Joanino), História Econômica, Relações Internacionais.
- Tema/Objetivo Geral: Compreender os motivos do fracasso do primeiro projeto de industrialização do Brasil, apesar da permissão legal.
- Nível da Questão: Médio a Difícil – A questão exige a compreensão de um paradoxo histórico: uma lei que deveria incentivar a indústria não funcionou. A resposta não está na lei em si, mas no complexo contexto geopolítico e nos acordos comerciais da época, especialmente a relação entre Portugal e Inglaterra.
- Gabarito: B) A dependência portuguesa da Inglaterra e o predomínio industrial inglês sobre suas redes de comércio. A lei de D. João abriu as portas para a indústria, mas os tratados comerciais assinados logo depois deram tantas vantagens à Inglaterra que a nascente indústria brasileira foi sufocada antes mesmo de começar.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “O projeto industrializante de D. João, conforme expresso no alvará, não se concretizou. Que características desse período explicam esse fato?”
- O que está sendo pedido? A questão quer saber: se a lei permitiu a criação de indústrias, por que o Brasil não se industrializou naquela época? Qual foi o “asterisco”, a “letra miúda” da história que impediu o projeto?
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é identificar o contexto histórico e econômico que tornou a lei ineficaz na prática.
- Pergunta de Atenção: Você já se perguntou por que um país daria mais vantagens comerciais a uma nação estrangeira do que a si mesmo? A resposta para isso é a chave da questão.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo/Conceito | Classificação | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Alvará de 1808 | Marco Histórico | Foi o “decreto de libertação” da indústria brasileira. D. João VI revogou uma lei de 1785 que proibia manufaturas na colônia. Em tese, a partir de 1808, o Brasil estava livre para se industrializar. | É como se o síndico de um prédio que proibia animais de estimação finalmente liberasse, dizendo: “A partir de hoje, todos podem ter um pet!”. |
| Tratados de 1810 (de Comércio e Navegação) | Conceito-Chave | Foram acordos assinados entre Portugal e Inglaterra que, na prática, davam enormes vantagens aos produtos ingleses no Brasil. A taxa de importação para produtos ingleses era menor até que a para produtos de Portugal. | Usando a analogia do prédio: o síndico liberou os pets, mas criou uma regra que só a raça “Poodle Inglês” pode usar o elevador e o parquinho. Os outros, mesmo permitidos, não conseguem competir. |
| Dependência Portugal-Inglaterra | Contexto Geopolítico | Portugal tinha uma dívida histórica com a Inglaterra. Essa dívida se tornou gigantesca quando a marinha inglesa teve que escoltar a família real portuguesa na fuga para o Brasil, em 1808, para escapar de Napoleão. Os Tratados de 1810 foram parte do “pagamento” dessa dívida. | É a lógica do “favor que custa caro”. A Inglaterra fez um grande favor a Portugal, e depois veio cobrar a conta com juros altíssimos em forma de vantagens comerciais. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: Imagine o seguinte: o governo brasileiro finalmente permite a abertura de pequenas fábricas de sapatos no país (“Pode fabricar!”). Mas, logo em seguida, faz um acordo com a maior e mais poderosa fábrica de sapatos do mundo, a Inglaterra, e diz que os sapatos ingleses pagarão menos impostos para entrar aqui do que os próprios sapatos portugueses. O que acontece? Ninguém vai comprar o sapato brasileiro, que é mais caro e de menor qualidade. A pequena fábrica brasileira quebra. Foi exatamente isso que aconteceu.
- Estratégia Geral: Vamos montar a linha do tempo dos acontecimentos para entender a relação de causa e efeito que levou ao fracasso do projeto industrial.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
1️⃣ Ponto de Partida: A Crise na Europa
└── Ameaça de Napoleão: Bloqueio Continental força Portugal a escolher um lado.
└── A Fuga: Com a ajuda da marinha inglesa, a Corte Portuguesa foge para o Brasil (1808).
└── A Consequência: Portugal agora tem uma dívida de gratidão (e econômica) gigantesca com a Inglaterra.
2️⃣ A Chegada no Brasil: A Boa Intenção
└── O Alvará de 1º de Abril de 1808
├── O que fez? Revogou a proibição de manufaturas.
└── A promessa: “Vamos promover a indústria e a riqueza nacional!”
3️⃣ A Realidade se Impõe: A Dívida é Cobrada
└── Os Tratados de 1810 (A “letra miúda” do acordo com a Inglaterra)
├── O Acordo: Definição das tarifas de importação no Brasil.
└── O “Placar” dos Impostos:
Produtos da Inglaterra ➡️ 15% (Taxa VIP)
Produtos de Portugal ➡️ 16% (Nem o “dono” tinha vantagem)
Outros Países ➡️ 24% (Taxa padrão)
4️⃣ O Resultado Final: A Indústria Natimorta
└── A Concorrência Impossível
├── A pequena e iniciante indústria brasileira…
└── …tinha que competir com os produtos da maior potência industrial do mundo…
└── …que ainda por cima pagavam menos impostos!
└── Conclusão: O projeto industrial NÃO SE CONCRETIZOU.
🚧 A Possível Armadilha: Focar apenas no Alvará de 1808 e pensar que ele, sozinho, resolveria o problema. A lição é que uma lei, por melhor que seja, não sobrevive a uma realidade econômica contrária.
🏁 Expectativa: A resposta correta deve conectar a dependência de Portugal com o domínio comercial da Inglaterra, que foi formalizado pelos tratados.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- A) 🔴 Incorreta. O fechamento das manufaturas em Portugal não explica por que as do Brasil também não deram certo. O problema foi a concorrência externa dentro do Brasil.
- B) 🟢 Correta. Esta alternativa é perfeita. Ela aponta a “dependência portuguesa da Inglaterra” (a causa da dívida) e o “predomínio industrial inglês” (a consequência, formalizada nos tratados), que sufocaram a indústria local.
- C) 🔴 Incorreta. Não há registro histórico de uma “desconfiança” da burguesia colonial que tenha impedido o processo. O problema foi econômico e estrutural.
- D) 🔴 Incorreta. A posição de Portugal não foi “dúbia”. Após a fuga para o Brasil, Portugal esteve firmemente alinhado com a Inglaterra.
- E) 🔴 Incorreta. O atraso industrial não foi provocado pela perda de mercados para Portugal, mas sim para a Inglaterra, que tinha vantagens comerciais esmagadoras.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: A permissão legal para a industrialização do Brasil, concedida pelo Alvará de 1808, foi tornada ineficaz pelos Tratados de 1810, que, em função da dependência histórica de Portugal, concederam privilégios alfandegários à Inglaterra, tornando impossível a competição para as manufaturas brasileiras nascentes.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a B, que sintetiza essa complexa relação de dependência e predomínio econômico.
- Resumo Final para Revisão 🔍: Em história econômica, lembre-se sempre que as leis de um país podem ser anuladas na prática por acordos comerciais internacionais. A política interna muitas vezes se curva à geopolítica externa.