
A situação social em que o falante está inserido é determinante para o uso da língua. Dessa forma, cabe ao usuário adequar-se a cada contexto, a seus condicionantes: formalidade/informalidade, intimidade/hierarquias etc. Considerando-se a situação comunicativa, há, na charge:
A) displicência de ambos os falantes, já que desconsideram a situação em que estão inseridos e usam um registro inadequado ao contexto.
B) dualidade de registros entre os dois falantes, já que ambos usam regras distintas quanto à concordância.
C) inobservância do personagem vestido de preto quanto à informalidade da situação e o consequente uso de um registro bastante formal.
D) inadequação, do ponto de vista da norma padrão, do registro de um e de outro falante.
E) consenso entre os registros dos dois falantes no tocante à norma padrão, já que ambos usam as mesmas regras de regência.

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Linguística (Variação Linguística, Adequação Linguística)
- Gramática (Concordância Verbal e Nominal)
- Interpretação de Charge
🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise de uma charge para identificar o contraste entre diferentes variedades linguísticas (norma padrão vs. uso popular) em uma mesma situação comunicativa.
📊 Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige conhecimento gramatical (para identificar o “erro” de concordância) e a compreensão de conceitos sociolinguísticos (dualidade de registros, adequação). A alternativa correta utiliza a palavra “dualidade”, que descreve precisamente o contraste entre as duas falas.
✅ Gabarito: Alternativa B.
- Resumo: A charge apresenta um diálogo onde os dois falantes utilizam padrões de concordância diferentes, criando uma dualidade de registros. O primeiro personagem usa uma construção coloquial, muito comum na fala brasileira (“Já chegou todos os convidados?”), que viola a regra de concordância verbal da norma padrão. O segundo personagem responde seguindo a norma padrão (“Só chegaram os familiares…”), onde o verbo concorda corretamente com o sujeito no plural.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Considerando-se a situação comunicativa, há, na charge,…”
O que está sendo pedido?
A questão pede para analisarmos o diálogo na charge e descrevermos a relação linguística entre as falas dos dois personagens.
Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é:
- Analisar a fala do primeiro personagem e compará-la com a norma padrão da gramática.
- Analisar a fala do segundo personagem e compará-la com a norma padrão.
- Comparar as duas falas entre si para identificar se elas seguem o mesmo padrão ou padrões diferentes.
🧠 A charge é de um livro de Marcos Bagno, um linguista famoso por defender a legitimidade das variedades populares do português. A charge provavelmente vai ilustrar um conflito ou uma diferença entre a “gramática do dia a dia” e a “gramática da escola”.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Variação Linguística: A língua não é um bloco único. Ela varia conforme a região, a classe social, a idade e, principalmente, o nível de formalidade da situação.
- Concordância Verbal (Norma Padrão): A regra básica diz que o verbo deve concordar em número (singular/plural) com o seu sujeito.
- Análise das Falas:
- “Já chegou todos os convidados?”
- Sujeito: “todos os convidados” (sujeito posposto, no plural).
- Verbo: “chegou” (no singular).
- Análise Normativa: Há um “erro” de concordância verbal. Segundo a norma padrão, o correto seria: “Já chegaram todos os convidados?”.
- Análise Sociolinguística: Esta construção com o verbo no singular antes de um sujeito plural é extremamente comum e difundida no português brasileiro falado, sendo uma característica da norma popular.
- “NÃO, SÓ CHEGARAM OS FAMILIARES DA NOIVA.”
- Sujeito: “os familiares da noiva” (sujeito posposto, no plural).
- Verbo: “chegaram” (no plural).
- Análise Normativa: O verbo concorda corretamente com o sujeito. Esta fala está de acordo com a norma padrão.
- “Já chegou todos os convidados?”
- Dualidade de Registros: Significa a coexistência de dois padrões linguísticos diferentes na mesma situação de comunicação. É exatamente o que a charge mostra: um personagem usa a norma popular, e o outro usa a norma padrão.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
A charge mostra uma conversa num casamento.
- Cara de Terno 1 (o “desencanado”): Pergunta do jeito que muita gente fala na rua: “Já chegou todo mundo?”. Ele não se preocupa em fazer o verbo concordar.
- Cara de Terno 2 (o “corretinho”): Responde seguindo a regra da gramática: “Não, só chegaram os parentes.”
A questão quer que a gente dê um nome para essa situação, onde uma pessoa fala de um jeito e a outra responde de outro, mostrando duas “regras” diferentes para a mesma língua.
Estratégia Geral 🗺️
- Identificar o desvio da norma padrão na primeira fala.
- Identificar a adequação à norma padrão na segunda fala.
- Concluir que os personagens usam registros diferentes.
- Encontrar a alternativa que descreve essa diferença.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Análise da Fala 1: “Já chegou todos os convidados?”. O sujeito “todos os convidados” é plural. O verbo “chegou” está no singular. Pela norma padrão, há um desvio de concordância. Trata-se de um registro coloquial/popular.
- Análise da Fala 2: “Só chegaram os familiares da noiva”. O sujeito “os familiares da noiva” é plural. O verbo “chegaram” está no plural. A concordância está de acordo com a norma padrão.
- Comparação: O primeiro falante utiliza uma regra de concordância da variedade popular, enquanto o segundo utiliza a regra da variedade padrão.
- Conclusão: Há uma dualidade de registros, ou seja, dois padrões linguísticos diferentes (duas regras distintas de concordância) sendo usados na mesma conversa.
Procuramos a alternativa que descreva a coexistência de dois padrões diferentes de concordância no diálogo.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) displicência de ambos os falantes, já que desconsideram a situação em que estão inseridos e usam um registro inadequado ao contexto.
Incorreta. Apenas o primeiro falante desconsidera a norma padrão. O segundo a segue. Além disso, não podemos afirmar que o registro coloquial seja “inadequado” para a situação, que pode ser informal.
🟢 B) dualidade de registros entre os dois falantes, já que ambos usam regras distintas quanto à concordância.
Correta. Descreve com precisão o que acontece: o primeiro falante usa a regra da concordância popular (“verbo no singular”), e o segundo usa a regra da concordância padrão (“verbo no plural”), evidenciando uma dualidade de registros.
🔴 C) inobservância do personagem vestido de preto quanto à informalidade da situação e o consequente uso de um registro bastante formal.
Incorreta. O registro do segundo falante não é “bastante formal”, é apenas gramaticalmente normativo. E não podemos afirmar que ele está sendo “inadequado” ao fazer isso.
🟡 D) inadequação, do ponto de vista da norma padrão, do registro de um e de outro falante.
A que mais confunde. Incorreta. Apenas o registro do primeiro falante é inadequado do ponto de vista da norma padrão. O do segundo falante está de acordo com ela.
🔴 E) consenso entre os registros dos dois falantes no tocante à norma padrão, já que ambos usam as mesmas regras de regência.
Incorreta. Não há consenso, há dualidade. E a questão é de concordância, não de regência.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
A charge de Marcos Bagno ilustra um fenômeno de variação linguística. O primeiro personagem utiliza uma construção verbal (“Já chegou todos os convidados?”) que é comum na oralidade brasileira, mas que diverge da regra de concordância verbal da norma padrão. O segundo personagem, em sua resposta (“Só chegaram os familiares…”), emprega a concordância verbal de acordo com a norma padrão. Essa coexistência de duas regras diferentes para a concordância em um mesmo diálogo caracteriza uma dualidade de registros linguísticos.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se: Concordância Verbal na norma padrão exige que o verbo combine com o sujeito. No português brasileiro falado, é muito comum que o verbo fique no singular quando o sujeito plural vem depois dele. A charge explora exatamente essa diferença entre a gramática que se aprende na escola e a que se usa na rua.