Como tratar com os índios
A experiência de trezentos anos tem feito ver que a aspereza é um meio errado para domesticar os índios; parece, pois, que brandura e afago são os meios que nos restam. Perdoar-lhes alguns excessos, de que sem dúvida seria causa a sua barbaridade e longo hábito com a falta de leis. Os habitantes da América são menos sanguinários do que os negros d’África, mais mansos, tratáveis e hospitais.
VILHENA, L. S. A Bahia no século XVIII. Salvador: Itapuã, 1969 (adaptado).
O escritor português Luís Vilhena escreve, no século XVIII, sobre um tema recorrente para os homens da sua época. Seu posicionamento emerge de um contexto em que
A) o índio, pela sua condição de ingenuidade, representava uma possibilidade de mão de obra nas indústrias.
B) a abolição da escravatura abriu uma lacuna na cadeia produtiva, exigindo, dessa forma, o trabalho do nativo.
C) o nativo indígena, estereotipado como um papel em branco, deveria adequar-se ao mundo do trabalho compulsório.
D) a escravidão do indígena apresentou-se como alternativa de mão de obra assalariada para a lavoura açucareira.
E) a escravidão do negro passa a ser substituída pela indígena, sob a alegação de os primeiros serem selvagens.

✍️ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História do Brasil Colonial (século XVIII)
- Interpretação de Textos Históricos
- Conceitos de Etnocentrismo e Estereótipos
Tema/Objetivo Geral:
- Análise da visão colonial sobre os povos indígenas e as estratégias de dominação e exploração de mão de obra.
Nível da Questão:
- Médio – A questão exige que o aluno vá além da leitura superficial das palavras “brandura e afago”. É preciso ter conhecimento do contexto histórico do Brasil Colônia para entender que essa “gentileza” era, na verdade, uma estratégia de dominação e inserção do indígena no sistema de trabalho, e não uma defesa genuína de seus direitos.
Gabarito:
- C – A alternativa está correta pois captura a essência do pensamento colonial da época: o indígena era visto como um ser “moldável” (papel em branco), e o debate girava em torno da melhor forma de adaptá-lo ao trabalho forçado.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
“Seu posicionamento [de Luís Vilhena] emerge de um contexto em que…”
O que está sendo pedido?
A questão quer que a gente identifique qual era o cenário histórico e ideológico do século XVIII que explica por que o autor pensava daquela forma sobre os indígenas.
Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é conectar a proposta de Vilhena (“tratar com brandura”) com a mentalidade e os interesses da sociedade colonial da sua época.
Pergunta de Atenção
Você já parou para pensar que, em textos antigos, palavras que hoje parecem positivas, como “brandura”, poderiam ser usadas como ferramentas para um objetivo nada nobre, como a exploração?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Conceito/Termo | Classificação | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Etnocentrismo | Conceito Sociológico/Antropológico | É a tendência de olhar e julgar o mundo e as outras culturas a partir dos próprios valores e crenças, considerando sua cultura como superior. | Achar estranho ou “errado” que em algumas culturas as pessoas comam insetos, simplesmente porque na sua cultura isso não é comum. |
| Estereótipo | Conceito Social | É uma imagem ou ideia generalizada e simplificada sobre um grupo de pessoas. Quase sempre é preconceituoso e não corresponde à realidade. | O estereótipo de que “todo brasileiro ama futebol e samba”. É uma generalização que ignora a diversidade de milhões de pessoas. |
| Trabalho Compulsório | Conceito Histórico | É qualquer forma de trabalho forçado, em que a pessoa não tem liberdade de escolha. Não se limita à escravidão formal, podendo incluir outras formas de coação. | No Brasil Colônia, além da escravidão africana, os indígenas foram submetidos a diversas formas de trabalho forçado, como a “administração” por colonos ou missões religiosas. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada
Vamos “mastigar” o que Vilhena está dizendo: “Olha, por 300 anos tentamos forçar os índios a se submeterem na base da violência (‘aspereza’), e não deu certo. Eles são ‘mansos’ e ‘tratáveis’, diferentes dos negros africanos. Que tal a gente mudar de tática e usar a gentileza (‘brandura’)? Talvez assim a gente consiga ‘domesticá-los’ e fazer com que eles se encaixem no nosso sistema.” O objetivo final — a dominação — continua o mesmo, só o método que ele sugere é diferente.
Estratégia Geral
Primeiro, vamos identificar a proposta do autor e a justificativa que ele dá. Depois, vamos analisar o contexto do século XVIII no Brasil para entender por que essa discussão era importante para os colonizadores. Por fim, vamos comparar essa análise com as alternativas.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Cálculos
Passo a Passo Detalhado
- Crítica ao método antigo: Vilhena afirma que “a aspereza é um meio errado para domesticar os índios”. Ele não questiona o objetivo (“domesticar”), mas sim o método (a violência).
- Proposta de novo método: Ele sugere “brandura e afago são os meios que nos restam”. A proposta é uma mudança de estratégia, não de objetivo.
- Justificativa Etnocêntrica: A razão para os “excessos” dos indígenas, segundo ele, é a “sua barbaridade e longo hábito com a falta de leis”. Ou seja, ele os vê como seres primitivos, não como um povo com sua própria cultura e leis. Ele os enxerga como uma folha em branco (“papel em branco”) que precisa ser preenchida com a “civilização” europeia.
- Comparação Utilitária: Ele compara os indígenas com os negros africanos, afirmando que os primeiros são “mais mansos, tratáveis”. Essa é uma análise pragmática sobre qual grupo seria, em sua visão, mais fácil de subjugar e integrar ao trabalho forçado.
Possível armadilha
A maior armadilha é interpretar o texto com os olhos de hoje e pensar que Vilhena era um humanista defendendo os direitos indígenas. Ao ler “brandura e afago”, você pode se enganar e achar que ele era “bonzinho”. Na verdade, ele está apenas propondo uma forma de exploração que ele acredita ser mais eficiente. É um pensamento utilitarista, não humanitário.
Fechamento e expectativa
O raciocínio nos mostra que o texto está inserido em um debate colonial sobre a melhor forma de controlar e explorar a mão de obra indígena. A visão sobre o nativo é a de um ser “selvagem”, mas passível de ser moldado para os interesses coloniais, especialmente o trabalho. Esperamos encontrar uma alternativa que combine a ideia de “índio moldável” com a finalidade do “trabalho”.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
A) INCORRETA 🔴. O termo “indústrias” é um anacronismo. A economia do Brasil no século XVIII era predominantemente agrária (cana-de-açúcar, mineração, etc.), não industrial.
B) INCORRETA 🔴. A abolição da escravatura só ocorreu no final do século XIX (1888), mais de 100 anos depois do período em que o texto foi escrito.
C) CORRETA 🟢. Esta alternativa descreve perfeitamente o contexto. O indígena era visto como um “papel em branco” (ingênuo, selvagem, mas moldável) que precisava ser adaptado (“adequar-se”) ao sistema de “trabalho compulsório” (forçado) da colônia. A proposta de “brandura” de Vilhena é exatamente uma técnica para essa adequação.
D) INCORRETA 🔴. A discussão não era sobre mão de obra “assalariada”. O trabalho indígena, quando ocorria, era compulsório e não remunerado como um salário.
E) INCORRETA 🔴. O texto não propõe substituir a escravidão negra pela indígena. A escravidão africana era a base da economia colonial e continuou sendo. Vilhena apenas faz uma comparação de temperamento para justificar uma estratégia diferente de dominação para os indígenas.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio
O texto de Vilhena, embora use termos como “brandura”, reflete a mentalidade colonial que via os indígenas como “bárbaros” a serem “domesticados”. A sua proposta era uma estratégia pragmática para torná-los mão de obra útil dentro do sistema de trabalho compulsório da colônia.
Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a C, pois identifica com precisão o estereótipo do indígena como um ser a ser moldado e o objetivo final dessa moldagem: a sua integração no sistema de trabalho forçado.
Resumo Final para Revisão 🔍
Ao ler um documento histórico, sempre desconfie do sentido aparente das palavras e analise o contexto. A “brandura” de um colonizador era apenas outra ferramenta de dominação.