Quando os portugueses se instalaram no Brasil, o país era povoado de índios. Importaram, depois, da África, grande número de escravos. O Português, o Índio e o Negro constituem, durante o período colonial, as três bases da população brasileira. Mas no que se refere à cultura, a contribuição do Português foi de longe a mais notada.
Durante muito tempo o português e o tupi viveram lado a lado como línguas de comunicação. Era o tupi que utilizavam os bandeirantes nas suas expedições. Em 1694, dizia o Padre Antônio Vieira que “as famílias dos portugueses e índios em São Paulo estão tão ligadas hoje umas com as outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que nas ditas famílias se fala é a dos Índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”
TEYSSIER, P. História da língua portuguesa. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1984 (adaptado).
A identidade de uma nação está diretamente ligada à cultura de seu povo. O texto mostra que, no período colonial brasileiro, o Português, o Índio e o Negro formaram a base da população e que o patrimônio linguístico brasileiro é resultado da
A) contribuição dos índios na escolarização dos brasileiros.
B) diferença entre as línguas dos colonizadores e as dos indígenas.
C) importância do padre Antônio Vieira para a literatura de língua portuguesa.
D) origem das diferenças entre a língua portuguesa e as línguas tupi.
E) interação pacífica no uso da língua portuguesa e da língua tupi.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto Histórico, Formação do Português Brasileiro, Variação Linguística.
- Tema/Objetivo Geral: Compreender a formação do patrimônio linguístico brasileiro como resultado da interação entre as línguas dos povos formadores.
- Nível da Questão: Fácil. O texto é muito direto e a citação do Padre Antônio Vieira é um exemplo explícito da convivência entre as línguas, tornando a identificação da alternativa correta uma tarefa de reconhecimento direto da informação apresentada.
- Gabarito: E. A alternativa resume com precisão a principal ideia do segundo parágrafo: a coexistência e o uso funcionalmente dividido entre o português e o tupi no Brasil colonial.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “…o patrimônio linguístico brasileiro é resultado da…”
- O que está sendo pedido? A questão nos pede para identificar, com base no texto, qual foi o processo que deu origem à riqueza linguística do Brasil colonial.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é analisar o texto para entender como as línguas dos diferentes povos (portugueses e indígenas, neste trecho) se relacionaram e qual foi a consequência dessa relação para a formação da nossa identidade linguística.
- Pergunta de Atenção: Você já pensou que o nome de cidades como “Tatuapé” ou frutas como “caju” e “maracujá” são a prova viva, que usamos até hoje, de que o tupi e o português “conversaram” muito no passado?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Patrimônio Linguístico | É o conjunto de todas as línguas, dialetos e variações faladas por um povo, incluindo as influências históricas que as formaram. É a riqueza de fala de uma nação. | O fato de o português falado na Bahia ser diferente do falado no Rio Grande do Sul, e ambos terem palavras de origem indígena e africana, faz parte do nosso patrimônio linguístico. |
| Língua de Comunicação (ou Língua Geral) | Em um contexto multilíngue, é a língua adotada por diferentes grupos para que possam se comunicar. No Brasil colonial, o tupi foi, por muito tempo, uma “língua geral”. | O inglês hoje funciona como uma língua de comunicação mundial em áreas como negócios, ciência e turismo, permitindo que um brasileiro e um japonês conversem. |
| Bilinguismo Social | É a situação em que duas ou mais línguas coexistem e são usadas por uma mesma comunidade, geralmente com funções diferentes (uma em casa, outra na escola ou no trabalho). | Em cidades na fronteira do Brasil com o Uruguai, é comum que as pessoas falem português e espanhol no seu dia a dia, alternando entre as duas. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: O texto está nos contando que, no início do Brasil, a gente tinha um cenário linguístico bem interessante. O português era a língua “oficial”, da cultura chique. Mas no dia a dia, na rua, nas expedições dos bandeirantes e até dentro de casa, o que bombava mesmo era o tupi. A citação do Padre Antônio Vieira é a prova disso: ele diz que os meninos portugueses falavam tupi em casa com as mães e iam aprender português na escola, como se fosse uma língua estrangeira! A questão é: qual o nome que a gente dá para essa convivência, essa “conversa” entre as duas línguas?
- Estratégia Geral: Vamos focar no segundo parágrafo, que detalha a relação entre as línguas. Analisaremos as frases-chave que descrevem essa convivência e, a partir daí, escolheremos a alternativa que melhor resume essa dinâmica.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado:
- O texto afirma: “Durante muito tempo o português e o tupi viveram lado a lado como línguas de comunicação.” A expressão “viveram lado a lado” já sugere uma interação e coexistência.
- Ele dá um exemplo concreto do uso do tupi: “Era o tupi que utilizavam os bandeirantes“.
- A citação de Vieira é o argumento de autoridade que reforça a ideia de interação profunda:
- “as famílias dos portugueses e índios […] estão tão ligadas“
- “a língua que nas ditas famílias se fala é a dos Índios“
- “a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”
- Síntese: A imagem que emerge é a de uma sociedade bilíngue, onde as duas línguas não estavam em guerra, mas sim em uma interação com funções sociais distintas. Não era um conflito, mas uma convivência. A palavra “pacífica” na alternativa correta se refere a essa coexistência funcional, não à ausência de conflitos em outras áreas.
- Possível armadilha: A armadilha está em focar apenas na primeira frase do texto (“a contribuição do Português foi de longe a mais notada”) e ignorar todo o desenvolvimento do segundo parágrafo. Se o leitor parar ali, pode ser levado a alternativas que sugerem uma imposição total do português, o que o restante do texto desmente ao mostrar a força e a presença do tupi.
- Fechamento e expectativa: O raciocínio nos mostra que o ponto central do argumento é a coexistência funcional e a interação entre o tupi e o português no período colonial. A alternativa correta deve refletir essa ideia de convivência.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- Justificativa Individual:
- 🔴 A: Incorreta. O texto diz o oposto: os meninos (inclusive os filhos de portugueses) iam aprender o português na escola, indicando que a escolarização era em português, enquanto o tupi era a língua doméstica.
- 🔴 B: Incorreta. Embora existissem diferenças, o foco do texto não é apontá-las, mas sim mostrar como essas línguas diferentes interagiram e conviveram.
- 🔴 C: Incorreta. O Padre Antônio Vieira é usado como uma fonte, um exemplo para provar um ponto sobre a convivência das línguas, mas a importância dele para a literatura não é o tema central do texto.
- 🔴 D: Incorreta. O texto não se propõe a explicar a “origem das diferenças” (uma análise linguística comparativa), mas sim a descrever o contato histórico entre elas.
- 🟢 E: Correta. É a síntese perfeita do segundo parágrafo. Houve uma interação funcional e uma convivência (“pacífica” no sentido de não excludente) no uso das duas línguas, cada uma em seu espaço social (doméstico/escolar, expedições/administração).
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: O texto demonstra que, longe de uma simples imposição, o cenário linguístico do Brasil colonial foi marcado por uma complexa e funcional interação entre o português e o tupi, com ambas as línguas ocupando espaços importantes na sociedade.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa E é a que melhor descreve essa coexistência, capturando a essência da argumentação do autor.
- Resumo Final para Revisão 🔍: A língua que falamos hoje é um mosaico. Ela foi construída não apenas pela imposição de uma sobre a outra, mas pela convivência, pelas trocas e pela mistura que ocorreram no dia a dia do Brasil colonial.

