Questão 110, caderno azul do ENEM 2011

TEXTO II

Nessa estranha dignidade e nesse abandono, o objeto foi exaltado de maneira ilimitada e ganhou um significado que se pode considerar mágico. Daí sua “vida inquietante e absurda”. Tornou-se ídolo e, ao mesmo tempo, objeto de zombaria. Sua realidade intrínseca foi anulada.

JAFFÉ, A. O simbolismo nas artes plásticas. In: JUNG, C.G. (org.). O homem e os seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

A relação observada entre a imagem e o texto apresentados permite o entendimento da intenção de um artista contemporâneo. Neste caso, a obra apresenta características

A) funcionais e de sofisticação decorativa.

B) futuristas e do abstrato geométrico.

C) construtivistas e de estruturas modulares.

D) abstracionistas e de releitura do objeto.

E) figurativas e de representação do cotidiano.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Linguagem Visual e Verbal, Arte Contemporânea, Conceito de Ready-made/Objeto Apropriado, Abstracionismo.
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar as características de uma obra de arte contemporânea que se baseia na ressignificação de objetos cotidianos.
  • Nível da Questão: Difícil. A questão exige mais do que uma simples observação. É preciso conectar a imagem (uma obra conceitual) a um texto filosófico (Texto II) e, principalmente, dominar um vocabulário específico da história da arte (abstracionistas, futuristas, etc.) para classificar corretamente a obra.
  • Gabarito: D. Esta alternativa descreve com precisão o procedimento artístico da obra: ela é abstracionista por retirar os objetos de sua realidade funcional e é uma releitura por dar a eles um novo significado.

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “Neste caso, a obra apresenta características…”
  • O que está sendo pedido? A questão nos pede para analisar a escultura de Nelson Leirner e, com a ajuda do Texto II, definir a qual categoria ou conjunto de características artísticas ela pertence.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é decifrar o que o artista fez (a técnica) e qual o efeito disso (o conceito) para, então, encontrar o “rótulo” correto entre as alternativas.
  • Pergunta de Atenção: Você já parou para pensar que essa cadeira não serve para sentar? No momento em que um objeto perde sua função original, ele ganha a chance de se tornar outra coisa. Que “coisa” é essa?

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Releitura do Objeto (ou Ready-made) É uma técnica artística que consiste em pegar um objeto comum, já pronto e produzido em massa, e apresentá-lo como arte. O artista não “faz” o objeto, mas o escolhe e o ressignifica, tirando-o de seu contexto original. O exemplo mais famoso é a obra “Fonte”, de Marcel Duchamp, que era um mictório de louça assinado e exposto em uma galeria. Deixou de ser um objeto de banheiro para se tornar uma obra que questiona: “o que é arte?”.
Abstracionismo (neste contexto) A palavra “abstrato” aqui não significa apenas formas geométricas sem referência à realidade. Significa o ato de abstrair um objeto de sua função e de seu ambiente comum para que possamos vê-lo de uma nova maneira, focando em sua forma, textura ou no novo conceito que ele representa. É como tirar uma foto em close-up extremo de uma casca de laranja. Você ainda sabe que é uma casca, mas a imagem a abstraiu de sua função de “comida” para se tornar um estudo de texturas e cores. A obra de Leirner abstrai a cadeira de sua função de “móvel”.
Arte Figurativa É o oposto da arte abstrata. A arte figurativa representa coisas que podemos reconhecer do mundo real: pessoas, objetos, paisagens, etc. Um retrato de uma pessoa ou uma pintura de uma cesta de frutas são exemplos de arte figurativa.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: Imagine o seguinte: um artista pega um tronco de árvore, rústico e natural (TEXTO I – Imagem). Depois, ele enfia uma cadeira comum, um objeto que todo mundo conhece, dentro desse tronco. O Texto II, que é bem filosófico, nos explica o que acontece com essa mistura: o objeto vira uma coisa “estranha”, “mágica” e “absurda”. Sua função normal (“sentar”) foi “anulada”. A questão, então, é: qual é o nome técnico, no mundo da arte, para essa “mágica” de transformar o comum em absurdo e simbólico?
  • Estratégia Geral: Primeiro, vamos analisar a ação do artista na imagem: o que ele juntou? O que ele destruiu (a função)? Segundo, vamos usar o Texto II para entender o resultado conceitual dessa ação. Terceiro, vamos procurar nas alternativas o par de termos que melhor descreve a ação e o resultado.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. Análise da Obra (Imagem): Vemos a fusão de dois elementos opostos: a natureza bruta (o tronco) e o objeto manufaturado e civilizado (a cadeira). A cadeira está inserida no tronco, o que a torna completamente inútil para sua finalidade original. A obra não serve para sentar; serve para pensar.
    2. Análise do Conceito (Texto II): O texto de Jaffé descreve perfeitamente o efeito dessa fusão. A obra ganha “estranha dignidade”, torna-se “mágica”, “inquietante e absurda”. A frase-chave é: “Sua realidade intrínseca foi anulada”. Isso significa que a cadeira deixou de ser uma cadeira e o tronco deixou de ser apenas um tronco.
    3. Conexão e Síntese: O que Leirner fez foi uma releitura de objetos. Ele não criou a cadeira, ele se apropriou dela e lhe deu um novo papel. Ao fazer isso, ele a tornou abstrata, não no sentido de irreconhecível, mas no sentido de que seu significado agora é conceitual, e não mais prático.
  • Possível armadilha: A armadilha mais comum é a alternativa E (figurativa). Um aluno pode pensar: “Ora, eu vejo uma figura de uma cadeira e a figura de um tronco, então é figurativa”. No entanto, o propósito da obra não é representar realisticamente o cotidiano, mas sim romper com ele, usando elementos do cotidiano para criar um novo conceito.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que combine a ideia de usar objetos conhecidos de uma nova forma (“releitura”) com o conceito de retirar seu sentido prático para dar-lhes um sentido artístico/conceitual (“abstracionista”).

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • Justificativa Individual:
    • 🔴 A: Incorreta. A obra é o oposto de funcional; a função da cadeira foi deliberadamente destruída.
    • 🔴 B: Incorreta. O futurismo celebra a máquina, a velocidade, a tecnologia. A obra tem um caráter rústico e estático. Também não se baseia em formas geométricas puras.
    • 🔴 C: Incorreta. O construtivismo geralmente remete a uma ordem racional e a estruturas planejadas. A obra parece mais um encontro caótico ou surreal. Não é modular (feita de módulos que se repetem).
    • 🟢 D: Correta. É abstracionista porque o significado da cadeira foi abstraído de sua função prática. É de releitura do objeto porque o artista se apropria de um objeto existente (a cadeira) para criar um novo discurso.
    • 🔴 E: Incorreta. Como explicado na “armadilha”, embora use figuras, o objetivo não é representar o cotidiano, mas sim questioná-lo e transformá-lo em algo simbólico.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: A obra de Nelson Leirner opera pela junção de objetos de naturezas distintas, anulando suas funções originais para criar um novo objeto simbólico, que nos força a pensar. Esse procedimento é característico das vanguardas que fizeram a releitura de objetos e os abstraíram de sua realidade prática.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa D é a única que descreve com precisão esse duplo processo de abstração conceitual e de releitura de um objeto do cotidiano.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Na arte contemporânea, não se pergunte “Para que isso serve?”, mas sim “O que isso me faz pensar?”. A mudança de função é a chave para a criação de um novo significado.

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