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Questão 103, caderno azul do ENEM 2011

A discussão sobre “o fim do livro de papel” com a chegada da mídia eletrônica me lembra a discussão idêntica sobre a obsolescência do folheto de cordel. Os folhetos talvez não existam mais daqui a 100 ou 200 anos, mas, mesmo que isso aconteça, os poemas de Leandro Gomes de Barros ou Manuel Camilo dos Santos continuarão sendo publicados e lidas — em CD-ROM, em livro eletrônico, em chips quânticos”, sei lá o quê. O texto é uma espécie de alma imortal, capaz de reencarnar em corpos variados: página impressa, livro em Braille, folheto, “coffee-table book’, cópia manuscrita, arquivo PDF… Qualquer texto pode se reencarnar nesses (e em outros) formatos, não importa se é Moby Dick ou Viagem a São Saruê, se é Macbeth ou O livro de piadas de Casseta & Planeta.

TAVARES, B. Disponível em: http://jornaldaparaiba.globo.com

Ao refletir sobre a possível extinção do livro impresso e o surgimento de outros suportes em via eletrônica, o cronista manifesta seu ponto de vista, defendendo que

A) o cordel é um dos gêneros textuais, por exemplo, que será extinto com o avanço da tecnologia.   

B) o livro impresso permanecerá como objeto cultural veiculador de impressões e de valores culturais.   

C) o surgimento da mídia eletrônica decretou o fim do prazer de se ler textos em livros e suportes impressos.  

D) os textos continuarão vivos e passíveis de reprodução em novas tecnologias, mesmo que os livros desapareçam.   

E) os livros impressos desaparecerão e, com eles, a possibilidade de se ler obras literárias dos mais diversos gêneros.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto Argumentativo, Novas Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs), Noção de Suportes Textuais.
  • Tema/Objetivo Geral: Diferenciar suporte (mídia) de conteúdo (texto) e refletir sobre a perenidade da obra literária em face das mudanças tecnológicas.
  • Nível da Questão: Fácil. O texto é muito direto e utiliza uma metáfora central (“alma imortal”) que torna seu ponto de vista inequívoco, exigindo apenas uma leitura atenta para encontrar a alternativa que corresponde exatamente à tese do autor.
  • Gabarito: D. Esta alternativa capta com exatidão a tese central do autor: o suporte físico pode mudar ou desaparecer, mas o conteúdo textual é perene e adaptável a novas tecnologias.

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “…o cronista manifesta seu ponto de vista, defendendo que…”
  • O que está sendo pedido? A questão pede para identificarmos qual alternativa representa corretamente a tese, ou seja, a ideia principal que o autor defende em seu texto sobre o futuro da leitura.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é ler a crônica, extrair sua ideia central sobre a relação entre texto e tecnologia, e então encontrar a alternativa que resume essa ideia sem distorções ou interpretações parciais.
  • Pergunta de Atenção: Você já parou para pensar que uma música é a mesma, não importa se você a ouve em um vinil, CD ou no Spotify? O autor usa uma ideia muito parecida para falar sobre os textos!

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Suporte Textual (ou Mídia) É o material físico ou o meio digital onde um texto é registrado e apresentado. É o “corpo” que carrega a informação. O papel de um livro, a tela de um celular, um folheto, uma placa de rua, um arquivo PDF. Todos são suportes.
Texto (ou Conteúdo) É a mensagem em si, a sequência de palavras, as ideias, a história. É a “alma” da obra, que é independente do suporte. A história de “Moby Dick” é o texto. O livro físico onde você a lê é o suporte. Você pode ler o mesmo texto em um Kindle, e ele continuará sendo “Moby Dick”.
Tese Em um texto argumentativo, é a ideia principal, o ponto de vista que o autor defende e para o qual ele apresenta argumentos e exemplos. Em um debate sobre alimentação, a tese de alguém pode ser: “Uma dieta vegetariana é mais saudável e sustentável”. O resto do discurso servirá para provar essa tese.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: O autor está dizendo que não devemos confundir o corpo com a alma. O “corpo” é o livro de papel, o folheto de cordel, o CD-ROM. Esses corpos podem envelhecer e “morrer” (ficar obsoletos). Mas a “alma” é o texto – a história de Moby Dick, o poema do cordel. E essa alma, ele argumenta, é imortal. Ela pode simplesmente “reencarnar” em novos corpos: um arquivo PDF, um chip, o que for. Para ele, a discussão sobre o “fim do livro” é boba, pois foca no corpo e se esquece da alma.
  • Estratégia Geral: Nossa estratégia será identificar a metáfora principal do texto (alma vs. corpo) e ver como o autor a utiliza para argumentar que o conteúdo (texto) é independente e mais duradouro que seu suporte (livro de papel, folheto).

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. O autor começa comparando duas discussões: o medo do “fim do livro de papel” é igual ao antigo medo do “fim do folheto de cordel”.
    2. Ele concede um ponto, admitindo que o suporte físico pode, sim, desaparecer: “Os folhetos talvez não existam mais daqui a 100 ou 200 anos…”.
    3. Imediatamente, ele apresenta sua tese, o contra-argumento: “mas, mesmo que isso aconteça, os poemas […] continuarão sendo publicados e lidas“.
    4. Para explicar essa ideia, ele usa a metáfora central: “O texto é uma espécie de alma imortal, capaz de reencarnar em corpos variados“.
    5. Ele finaliza dando exemplos desses “corpos” (suportes), que vão desde a “página impressa” até o “arquivo PDF”, reforçando que a essência da obra se adapta a qualquer formato.
  • Possível armadilha: A principal armadilha é a alternativa E. Ela se concentra apenas na primeira parte do argumento do autor (“os livros impressos desaparecerão”), mas ignora completamente a segunda e mais importante parte da tese (“o texto sobreviverá em outros formatos”). É uma leitura incompleta e pessimista, que distorce a mensagem otimista do autor sobre a sobrevivência da cultura escrita.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos leva a uma tese muito clara: há uma separação fundamental entre o texto (conteúdo imortal) e o suporte (meio físico mutável). A alternativa correta deve, portanto, refletir essa ideia de que a essência (o texto) sobrevive e se adapta à mudança da forma (o livro, o folheto, etc.).

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • Justificativa Individual:
    • 🔴 A: Incorreta. O texto afirma o exato oposto. Ele usa o cordel como exemplo de um gênero cujo conteúdo (os poemas) sobreviverá, mesmo que seu suporte tradicional (o folheto) seja extinto.
    • 🔴 B: Incorreta. O autor não garante a permanência do livro impresso. Ele até admite a possibilidade de sua extinção ao compará-lo com o folheto de cordel. Sua defesa é do texto, não do objeto.
    • 🔴 C: Incorreta. Essa é uma visão pessimista que não encontra respaldo no texto. O autor não fala sobre o “fim do prazer de ler”, mas sim sobre a continuidade da leitura em novos formatos.
    • 🟢 D: Correta. Esta alternativa é a síntese perfeita da tese do autor. Ela afirma que “os textos continuarão vivos” (a alma imortal) e “passíveis de reprodução em novas tecnologias” (reencarnando em novos corpos), “mesmo que os livros desapareçam” (o corpo antigo pode morrer).
    • 🔴 E: Incorreta. Como explicado na “possível armadilha”, esta opção é uma leitura parcial e distorcida. Ela ignora a parte mais importante do argumento do autor: a sobrevivência e adaptação do texto.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: A análise da crônica revelou que a tese central do autor é a distinção entre texto (a alma imortal e adaptável) e suporte (o corpo físico e mutável), defendendo que o conteúdo cultural sobrevive à obsolescência de seus meios de veiculação.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa D é a única que expressa fielmente essa ideia de perenidade do texto através de sua capacidade de se adaptar a novos suportes tecnológicos.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Lembre-se desta dica: separe o conteúdo do recipiente! A história é a mesma, seja no papiro, no livro de papel ou na tela do seu celular. O texto é a alma; o suporte é apenas o corpo.
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