Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – Zé-Zim. por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz? — Quero criar nada não… – me deu resposta: — Eu gosto muito de mudar… […] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. […] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra. […] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe.
ROSA. J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).
Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador
A) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando sua pouca disposição em ajudar seus agregados, uma vez que superou essa condição graças à sua força de trabalho.
B) descreve o processo de transformação de um meeiro — espécie de agregado — em proprietário de terra.
C) denuncia a falta de compromisso e a desocupação dos moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra.
D) mostra como a condição material da vida do sertanejo é dificultada pela sua dupla condição de homem livre e, ao mesmo tempo, dependente.
E) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua posição social, de proprietário de terras.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto em Prosa, Literatura Brasileira (Modernismo – Geração de 45), Relações Sociais e de Trabalho no Brasil Rural.
- Tema/Objetivo Geral: Compreender a complexa relação de dependência e liberdade nas estruturas sociais do sertão, marcada pelo poder dos latifundiários e pela figura do agregado.
- Nível da Questão: Difícil. A linguagem de Guimarães Rosa já é um desafio por si só, com sua sintaxe única e vocabulário particular. Além disso, a questão exige a percepção de uma contradição social sutil e complexa, que não se resume a uma simples oposição entre opressor e oprimido, mas a um sistema de dependência mútua e paradoxal.
- Gabarito: D. Esta alternativa é a única que captura o paradoxo central vivido pelo sertanejo: ele é um homem livre, não um escravo, mas sua sobrevivência material o mantém preso a uma relação de dependência com o proprietário de terras.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “No texto, destaca-se essa relação [de desigualdade social] porque o personagem-narrador…”
- O que está sendo pedido? A questão quer que a gente explique o que a narração de Riobaldo, com suas memórias e observações, revela sobre a natureza complexa da relação entre proprietários e dependentes no sertão.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é analisar como Riobaldo, ao mesmo tempo em que descreve a vida de seu agregado Zé-Zim, reflete sobre seu próprio passado, expondo a contradição de ser um “homem livre” que ainda vive sob uma teia de dependência.
- Pergunta de Atenção: Você notou que Riobaldo fala como patrão (“o melhor meeiro meu”), mas imediatamente depois se lembra de sua vida como um dependente (“nos trouxeram junto”)? Essa mistura de perspectivas é a chave para entender tudo!
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Meeiro / Agregado | No contexto rural, é um trabalhador que não é dono da terra. Ele mora na propriedade de um fazendeiro (o patrão) e trabalha nela, geralmente recebendo em troca uma parte (“meia”) da produção e a “proteção” do proprietário. Ele não é um escravo, mas sua vida depende totalmente do fazendeiro. | Imagine morar de graça em um apartamento que pertence ao seu chefe, mas, em troca, você precisa estar sempre disponível para ele. Você não é um prisioneiro, pode ir embora, mas perderia o emprego e a moradia. Essa é a essência da relação de dependência. |
| Concentração de Terras | É a situação em que a maior parte das terras de uma região ou país pertence a um número muito pequeno de pessoas (os latifundiários), enquanto a maioria da população não possui terra nenhuma para cultivar e viver. | É como uma festa onde duas pessoas pegaram o bolo inteiro e o resto dos convidados depende que eles distribuam as fatias. |
| Personagem-Narrador | É quando a história é contada por um dos personagens que participa dos eventos. A visão que temos dos fatos é filtrada pela sua consciência, suas memórias, seus preconceitos e suas contradições. | No livro Dom Casmurro, Bentinho é o personagem-narrador. Tudo o que lemos é a versão dele da história, e por isso nunca teremos certeza absoluta se Capitu o traiu ou não. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: Riobaldo, que agora é um fazendeiro, está conversando com seu interlocutor e tenta explicar por que o sertanejo pobre é desapegado e vive “voando” de um lugar para outro. Ele usa seu empregado, Zé-Zim, como exemplo de alguém que “gosta muito de mudar”. No meio da explicação, porém, Riobaldo se lembra de seu próprio passado, quando ele e sua mãe eram agregados de uma família poderosa. Ou seja, ele está na posição de patrão, mas entende perfeitamente a mentalidade do dependente, porque ele já foi um. O texto nos mostra essa teia complicada onde liberdade e dependência andam juntas.
- Estratégia Geral: Vamos primeiro identificar a descrição que Riobaldo faz do sertanejo como um ser “livre” e desapegado. Em seguida, vamos identificar como ele mesmo se insere nessa dinâmica de dependência através de suas memórias. Ao contrastar esses dois pontos, a contradição social se tornará clara.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado:
- A Liberdade do Sertanejo: Riobaldo descreve o homem pobre como um “giro-o-giro”, comparando-o a “pássaros”. Zé-Zim confirma isso ao dizer: “Eu gosto muito de mudar…”. Isso aponta para uma condição de homem legalmente livre, que pode partir quando quiser.
- A Dependência do Sertanejo: No entanto, essa liberdade é condicionada. Riobaldo diz sobre Zé-Zim: “Eu dou proteção.”. Essa “proteção” é o elo que prende o agregado ao patrão. A liberdade de ir embora existe, mas ela significa abandonar a única fonte de segurança e subsistência.
- A Contradição em Riobaldo: O narrador expõe a complexidade da situação ao revelar sua própria história: “Gente melhor do lugar […] nos trouxeram junto, minha mãe e eu.”. Ele mesmo viveu como um agregado dependente. Ele não é um patrão que olha seus empregados de cima, com distanciamento; ele compreende a situação de dentro, pois ela é também a sua história.
- Possível armadilha: Achar que Riobaldo está criticando Zé-Zim por “falta de compromisso” (como sugere a alternativa C). Na verdade, o tom de Riobaldo é de compreensão. Ele não vê o desejo de mudar de Zé-Zim como um defeito, mas como uma característica de sobrevivência do sertanejo pobre, quase uma condição existencial (“que nem os pássaros”).
- Fechamento e expectativa: O raciocínio nos leva a uma conclusão sobre a dualidade da vida do sertanejo. Ele não é nem totalmente livre, nem totalmente prisioneiro. Ele vive nesse limbo. Portanto, a alternativa correta deve expressar essa ideia de condição dupla, de paradoxo entre liberdade e dependência.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- Justificativa Individual:
- 🔴 A: Incorreta. O texto afirma o contrário. Riobaldo diz explicitamente: “Eu dou proteção”, indicando que ele ajuda seus agregados, seguindo o modelo que ele mesmo vivenciou.
- 🔴 B: Incorreta. O fragmento não descreve essa transformação. Mostra Zé-Zim indo embora e Riobaldo se lembrando de seu passado como agregado. A ascensão social de Riobaldo não é o foco aqui.
- 🔴 C: Incorreta. Como visto na “armadilha”, Riobaldo não denuncia ou critica, mas descreve com empatia e compreensão uma característica que ele vê como inerente à vida do sertanejo pobre.
- 🟢 D: Correta. Esta alternativa captura com perfeição o cerne da questão. O sertanejo é livre para partir (“gosto muito de mudar”), mas é dependente da proteção e da terra do patrão para sobreviver, e essa dupla condição dificulta sua vida material e sua autonomia plena.
- 🔴 E: Incorreta. Riobaldo faz exatamente o oposto de manter distanciamento. Ele quebra a barreira entre patrão e agregado ao trazer sua memória pessoal para a conversa, mostrando que ele entende intimamente a condição de dependência.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: Através da narração de Riobaldo, que mescla sua perspectiva atual de proprietário com suas memórias de agregado, o texto revela a estrutura social paradoxal do sertão, onde a liberdade legal do homem pobre coexiste com uma profunda dependência material.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a D, pois sintetiza a “dupla condição” de livre e dependente que marca a vida do sertanejo.
- Resumo Final para Revisão 🔍: Em Grande Sertão: Veredas, as relações sociais nunca são simples. O patrão de hoje é o agregado de ontem, e é nessa mistura de identidades que a complexa realidade do sertão se revela.

