Questão 102, caderno azul do ENEM 2011

Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: – Zé-Zim. por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz? — Quero criar nada não… – me deu resposta: — Eu gosto muito de mudar… […] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. […] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra. […] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe.

ROSA. J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).

Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador

A) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, demonstrando sua pouca disposição em ajudar seus agregados, uma vez que superou essa condição graças à sua força de trabalho.   

B) descreve o processo de transformação de um meeiro  — espécie de agregado — em proprietário de terra.

C) denuncia a falta de compromisso e a desocupação  dos moradores, que pouco se envolvem no trabalho da terra.   

D) mostra como a condição material da vida do sertanejo é dificultada pela sua dupla condição de homem livre e, ao mesmo tempo, dependente.   

E) mantém o distanciamento narrativo condizente com sua posição social, de proprietário de terras.   

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto em Prosa, Literatura Brasileira (Modernismo – Geração de 45), Relações Sociais e de Trabalho no Brasil Rural.
  • Tema/Objetivo Geral: Compreender a complexa relação de dependência e liberdade nas estruturas sociais do sertão, marcada pelo poder dos latifundiários e pela figura do agregado.
  • Nível da Questão: Difícil. A linguagem de Guimarães Rosa já é um desafio por si só, com sua sintaxe única e vocabulário particular. Além disso, a questão exige a percepção de uma contradição social sutil e complexa, que não se resume a uma simples oposição entre opressor e oprimido, mas a um sistema de dependência mútua e paradoxal.
  • Gabarito: D. Esta alternativa é a única que captura o paradoxo central vivido pelo sertanejo: ele é um homem livre, não um escravo, mas sua sobrevivência material o mantém preso a uma relação de dependência com o proprietário de terras.

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “No texto, destaca-se essa relação [de desigualdade social] porque o personagem-narrador…”
  • O que está sendo pedido? A questão quer que a gente explique o que a narração de Riobaldo, com suas memórias e observações, revela sobre a natureza complexa da relação entre proprietários e dependentes no sertão.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é analisar como Riobaldo, ao mesmo tempo em que descreve a vida de seu agregado Zé-Zim, reflete sobre seu próprio passado, expondo a contradição de ser um “homem livre” que ainda vive sob uma teia de dependência.
  • Pergunta de Atenção: Você notou que Riobaldo fala como patrão (“o melhor meeiro meu”), mas imediatamente depois se lembra de sua vida como um dependente (“nos trouxeram junto”)? Essa mistura de perspectivas é a chave para entender tudo!

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Meeiro / Agregado No contexto rural, é um trabalhador que não é dono da terra. Ele mora na propriedade de um fazendeiro (o patrão) e trabalha nela, geralmente recebendo em troca uma parte (“meia”) da produção e a “proteção” do proprietário. Ele não é um escravo, mas sua vida depende totalmente do fazendeiro. Imagine morar de graça em um apartamento que pertence ao seu chefe, mas, em troca, você precisa estar sempre disponível para ele. Você não é um prisioneiro, pode ir embora, mas perderia o emprego e a moradia. Essa é a essência da relação de dependência.
Concentração de Terras É a situação em que a maior parte das terras de uma região ou país pertence a um número muito pequeno de pessoas (os latifundiários), enquanto a maioria da população não possui terra nenhuma para cultivar e viver. É como uma festa onde duas pessoas pegaram o bolo inteiro e o resto dos convidados depende que eles distribuam as fatias.
Personagem-Narrador É quando a história é contada por um dos personagens que participa dos eventos. A visão que temos dos fatos é filtrada pela sua consciência, suas memórias, seus preconceitos e suas contradições. No livro Dom Casmurro, Bentinho é o personagem-narrador. Tudo o que lemos é a versão dele da história, e por isso nunca teremos certeza absoluta se Capitu o traiu ou não.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: Riobaldo, que agora é um fazendeiro, está conversando com seu interlocutor e tenta explicar por que o sertanejo pobre é desapegado e vive “voando” de um lugar para outro. Ele usa seu empregado, Zé-Zim, como exemplo de alguém que “gosta muito de mudar”. No meio da explicação, porém, Riobaldo se lembra de seu próprio passado, quando ele e sua mãe eram agregados de uma família poderosa. Ou seja, ele está na posição de patrão, mas entende perfeitamente a mentalidade do dependente, porque ele já foi um. O texto nos mostra essa teia complicada onde liberdade e dependência andam juntas.
  • Estratégia Geral: Vamos primeiro identificar a descrição que Riobaldo faz do sertanejo como um ser “livre” e desapegado. Em seguida, vamos identificar como ele mesmo se insere nessa dinâmica de dependência através de suas memórias. Ao contrastar esses dois pontos, a contradição social se tornará clara.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. A Liberdade do Sertanejo: Riobaldo descreve o homem pobre como um “giro-o-giro”, comparando-o a “pássaros”. Zé-Zim confirma isso ao dizer: “Eu gosto muito de mudar…”. Isso aponta para uma condição de homem legalmente livre, que pode partir quando quiser.
    2. A Dependência do Sertanejo: No entanto, essa liberdade é condicionada. Riobaldo diz sobre Zé-Zim: “Eu dou proteção.”. Essa “proteção” é o elo que prende o agregado ao patrão. A liberdade de ir embora existe, mas ela significa abandonar a única fonte de segurança e subsistência.
    3. A Contradição em Riobaldo: O narrador expõe a complexidade da situação ao revelar sua própria história: “Gente melhor do lugar […] nos trouxeram junto, minha mãe e eu.”. Ele mesmo viveu como um agregado dependente. Ele não é um patrão que olha seus empregados de cima, com distanciamento; ele compreende a situação de dentro, pois ela é também a sua história.
  • Possível armadilha: Achar que Riobaldo está criticando Zé-Zim por “falta de compromisso” (como sugere a alternativa C). Na verdade, o tom de Riobaldo é de compreensão. Ele não vê o desejo de mudar de Zé-Zim como um defeito, mas como uma característica de sobrevivência do sertanejo pobre, quase uma condição existencial (“que nem os pássaros”).
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos leva a uma conclusão sobre a dualidade da vida do sertanejo. Ele não é nem totalmente livre, nem totalmente prisioneiro. Ele vive nesse limbo. Portanto, a alternativa correta deve expressar essa ideia de condição dupla, de paradoxo entre liberdade e dependência.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • Justificativa Individual:
    • 🔴 A: Incorreta. O texto afirma o contrário. Riobaldo diz explicitamente: “Eu dou proteção”, indicando que ele ajuda seus agregados, seguindo o modelo que ele mesmo vivenciou.
    • 🔴 B: Incorreta. O fragmento não descreve essa transformação. Mostra Zé-Zim indo embora e Riobaldo se lembrando de seu passado como agregado. A ascensão social de Riobaldo não é o foco aqui.
    • 🔴 C: Incorreta. Como visto na “armadilha”, Riobaldo não denuncia ou critica, mas descreve com empatia e compreensão uma característica que ele vê como inerente à vida do sertanejo pobre.
    • 🟢 D: Correta. Esta alternativa captura com perfeição o cerne da questão. O sertanejo é livre para partir (“gosto muito de mudar”), mas é dependente da proteção e da terra do patrão para sobreviver, e essa dupla condição dificulta sua vida material e sua autonomia plena.
    • 🔴 E: Incorreta. Riobaldo faz exatamente o oposto de manter distanciamento. Ele quebra a barreira entre patrão e agregado ao trazer sua memória pessoal para a conversa, mostrando que ele entende intimamente a condição de dependência.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: Através da narração de Riobaldo, que mescla sua perspectiva atual de proprietário com suas memórias de agregado, o texto revela a estrutura social paradoxal do sertão, onde a liberdade legal do homem pobre coexiste com uma profunda dependência material.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a D, pois sintetiza a “dupla condição” de livre e dependente que marca a vida do sertanejo.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Em Grande Sertão: Veredas, as relações sociais nunca são simples. O patrão de hoje é o agregado de ontem, e é nessa mistura de identidades que a complexa realidade do sertão se revela.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.