A cultura ocidental acentuadamente antropocêntrica foi marcada por processos convergentes de desenvolvimento técnico-científico e acumulação de riquezas, propiciados pela expansão colonial, que resultaram na revolução industrial, no fortalecimento da ideia de progresso e no processo de ocidentalização do mundo.
FERREIRA, L. C. Dilemas do século XX: ideias para uma sociologia da questão ecológica. In: SILVA, J. P. (Org.)
Por uma Sociologia do século XX. São Paulo: Annablume, 2007 (adaptado).
Esse processo de acumulação de riquezas no Ocidente, por longos séculos, se fez à custa da degradação do meio natural. Do ponto de vista da cultura e do imaginário ocidental moderno, isso se deveu à:
A) ideologia revolucionária burguesa, que pregava a repartição igualitária do direito de acesso aos recursos naturais e agrícolas.
B) ideia de Renascimento, que representava os benefícios técnicos de transformação da natureza como salutares para a preservação de ecossistemas.
C) concepção sacralizada de que a natureza, enquanto obra da criação de Deus, devia servir à contemplação estética e religiosa.
D) perspectiva desenvolvimentista, que atrelava o progresso ao meio ambiente e difundia amplamente um entendimento da relação harmoniosa entre sociedade e natureza.
E) crença nos poderes da ciência e do desenvolvimento tecnológico, que contribuiu para tratar a natureza como objeto de quantificação, manipulação e dominação.

✍ Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Sociologia Ambiental (Crítica ao Antropocentrismo)
- História da Ciência e do Pensamento Moderno
- Fases do Capitalismo e Revolução Industrial
🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreensão da mentalidade ocidental moderna que legitimou a exploração da natureza.
🎯 Nível da Questão: Médio – A questão utiliza um vocabulário acadêmico denso e exige que o aluno identifique a base filosófica e cultural de um processo histórico complexo. As alternativas apresentam conceitos históricos que podem confundir quem não tem clareza sobre cada período.
✅ Gabarito: E – A alternativa está correta porque sintetiza a mudança de mentalidade da modernidade: a natureza deixou de ser vista como sagrada para se tornar um objeto a ser medido, controlado e explorado pela ciência para fins de progresso e lucro.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Do ponto de vista da cultura e do imaginário ocidental moderno, isso [a degradação do meio natural] se deveu à:”
O que está sendo pedido? 📌
A questão quer saber qual era a mentalidade, a forma de pensar, da cultura ocidental que justificou e permitiu a exploração e degradação da natureza em nome do progresso e da riqueza.
Objetivo Cristalino 📌
Nosso objetivo é encontrar a alternativa que descreve a visão de mundo que transformou a natureza de algo a ser respeitado para algo a ser dominado e usado como um mero recurso.
Pergunta de Atenção ✔
Você já parou para pensar que em muitas culturas antigas a natureza era vista como uma divindade ou um ente sagrado? O que será que mudou na cabeça do homem ocidental para que ele passasse a ver uma floresta não como um lugar mágico, mas apenas como “metros cúbicos de madeira”?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo/Conceito | Explicação Simples e Direta | Exemplo do Cotidiano (Analogia) |
| Antropocentrismo | Visão de mundo que coloca o ser humano como o centro de tudo, a espécie mais importante e a medida de todas as coisas. A natureza e os outros seres existem para servir às necessidades e desejos humanos. | É como o personagem principal de um filme que acredita que todos os outros personagens só existem para ajudar ou atrapalhar sua jornada. Ele é o centro do universo da história. |
| Ideia de Progresso | Uma crença fundamental da modernidade de que a história humana caminha sempre para frente, em uma linha de constante melhoria, impulsionada pela razão, ciência e tecnologia. O “novo” é sempre melhor que o “antigo”. | A forma como esperamos ansiosamente pelo próximo modelo de celular, assumindo que ele será, por definição, melhor, mais rápido e mais poderoso que o atual. |
| Racionalidade Instrumental | Uma forma de pensar que vê tudo e todos (inclusive a natureza) como um instrumento ou meio para atingir um objetivo específico (geralmente lucro ou eficiência), sem se preocupar com valores éticos ou consequências secundárias. | Um engenheiro que, ao planejar uma hidrelétrica, calcula apenas os custos e a geração de energia, tratando o rio e a floresta a serem inundados como meras variáveis em sua equação, ignorando o valor da vida selvagem ou da cultura local. |
| Desencantamento do Mundo | Conceito do sociólogo Max Weber que descreve o processo pelo qual a ciência e a razão substituem a magia, a religião e o mistério como formas de explicar o mundo. A natureza deixa de ser “mágica” e passa a ser “explicável” e, portanto, “controlável”. | Antigamente, um raio poderia ser visto como a fúria de um deus. Hoje, a ciência o explica como uma descarga elétrica. O fenômeno foi “desencantado”, perdeu seu mistério e se tornou previsível. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 📌
Vamos “mastigar” o texto: ele diz que a cultura do Ocidente colocou o homem no centro de tudo (antropocentrismo) e, usando a ciência, saiu pelo mundo para acumular riquezas, o que levou à Revolução Industrial e a uma forte ideia de progresso. O problema é que todo esse “sucesso” foi feito destruindo a natureza. A pergunta é: qual foi a “desculpa” ou a “ideia na cabeça” das pessoas que fez com que elas achassem normal tratar a natureza dessa forma?
Estratégia Geral 📌
Vamos conectar os pontos: 1) A cultura é antropocêntrica (homem no topo). 2) A principal ferramenta é a ciência. 3) O objetivo é o progresso e a riqueza. Vamos então deduzir como essa combinação (homem no topo + ciência como ferramenta + progresso como meta) enxerga a natureza e procurar a alternativa que melhor descreve essa visão.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 📌
- A Mudança de Status da Natureza: O primeiro passo foi o “desencantamento do mundo”. A natureza deixou de ser uma entidade sagrada e misteriosa e passou a ser vista como um objeto de estudo.
- O Papel da Ciência: A ciência moderna (pós-Revolução Científica) se propôs a entender as leis da natureza não por mera contemplação, mas para prever e controlar seus fenômenos.
- A Mentalidade Instrumental: A natureza, agora vista como um objeto previsível, pôde ser quantificada (medida), manipulada (alterada em laboratório ou na indústria) e, finalmente, dominada para servir ao projeto de progresso humano.
- A Conexão Final: A crença quase religiosa nos poderes da ciência e da tecnologia deu ao homem moderno a confiança (e a arrogância) para tratar a natureza como uma simples matéria-prima, um “estoque de recursos” a ser explorado para gerar riqueza. A degradação era vista não como um problema, mas como o custo inevitável e aceitável do progresso.
Possível armadilha ❓/ ✔
A armadilha mais perigosa é a alternativa D, que usa palavras positivas como “desenvolvimentista” e “relação harmoniosa”. Você poderia pensar que “desenvolvimento” é sempre bom. No entanto, o conceito de desenvolvimento da época era predatório e não tinha nenhuma preocupação com “harmonia”. A ideia de um desenvolvimento sustentável e harmônico é muito recente e surgiu justamente como uma crítica a esse modelo antigo.
Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que ligue a crença no poder da ciência a uma visão da natureza como um objeto passivo, pronto para ser controlado e explorado.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
Listagem das Alternativas
A) ideologia revolucionária burguesa, que pregava a repartição igualitária do direito de acesso aos recursos naturais e agrícolas.
B) ideia de Renascimento, que representava os benefícios técnicos de transformação da natureza como salutares para a preservação de ecossistemas.
C) concepção sacralizada de que a natureza, enquanto obra da criação de Deus, devia servir à contemplação estética e religiosa.
D) perspectiva desenvolvimentista, que atrelava o progresso ao meio ambiente e difundia amplamente um entendimento da relação harmoniosa entre sociedade e natureza.
E) crença nos poderes da ciência e do desenvolvimento tecnológico, que contribuiu para tratar a natureza como objeto de quantificação, manipulação e dominação.
Justificativa Individual
- 🔴 (A) Incorreta. A ideologia burguesa defendia o direito à propriedade privada e à exploração para acumulação de capital, não uma “repartição igualitária”. A acumulação descrita no texto foi, na verdade, extremamente desigual.
- 🔴 (B) Incorreta. A ideia de “preservação de ecossistemas” é contemporânea. O Renascimento valorizou o homem e a razão, mas o foco não era a preservação, e sim o início da exploração técnica do mundo.
- 🔴 (C) Incorreta. Esta alternativa descreve uma visão pré-moderna ou religiosa, que foi exatamente o que a mentalidade científica moderna buscou superar. A natureza foi dessacralizada para poder ser explorada.
- 🔴 (D) Incorreta. Como vimos na armadilha, a perspectiva desenvolvimentista da época era predatória e via a natureza como um obstáculo a ser vencido ou um recurso a ser explorado, e não como um parceiro em uma “relação harmoniosa”.
- 🟢 (E) Correta. Esta alternativa descreve com precisão a mentalidade da modernidade: a ciência e a tecnologia são as ferramentas que permitem ao homem medir (“quantificação”), alterar (“manipulação”) e controlar (“dominação”) a natureza, tratando-a como um objeto para seus próprios fins.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📌
A mentalidade antropocêntrica ocidental, impulsionada pela crença no progresso e armada com o poder da ciência e da tecnologia, “desencantou” o mundo natural, transformando-o de um ente sagrado em um objeto passivo a ser quantificado, manipulado e dominado para a acumulação de riquezas.
Gabarito Reafirmado 📌
A alternativa correta é a E, pois ela sintetiza a visão instrumental que a ciência moderna adotou em relação à natureza, legitimando sua exploração.
Resumo Final para Revisão 🔍
Para lembrar: na transição para a modernidade, a natureza deixou de ser vista como “Mãe Terra” (sagrada, provedora) e passou a ser vista como uma “máquina” (um objeto com peças que podem ser estudadas, desmontadas e usadas para nossos fins).