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Questão 02, caderno azul do ENEM 2011

O brasileiro tem noção clara dos comportamentos éticos e morais adequados, mas vive sob o espectro da corrupção, revela pesquisa. Se o país fosse resultado dos padrões morais que as pessoas dizem aprovar, pareceria mais com a Escandinávia do que com Bruzundanga (corrompida nação fictícia de Lima Barreto).

FRAGA, P. Ninguém é inocente. Folha de S. Paulo. 4 out. 2009 (adaptado)

O distanciamento entre “reconhecer” e “cumprir” efetivamente o que é moral constitui uma ambiguidade inerente ao humano, porque as normas morais são

A) decorrentes da vontade divina e, por esse motivo, utópicas.

B) parâmetros idealizados, cujo cumprimento é destituído de obrigação.

C) amplas e vão além da capacidade de o indivíduo conseguir cumpri-las integralmente.

D) criadas pelo homem, que concede a si mesmo a lei à qual deve se submeter.

E) cumpridas por aqueles que se dedicam inteiramente a observar as normas jurídicas.

✍ Resolução Em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Filosofia (Ética e Moral, com foco no conceito de Autonomia Moral)
  • Interpretação de Texto
  • Sociologia (Normas Sociais e Comportamento)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreensão da natureza da moralidade humana e a origem da contradição entre o conhecimento ético e a ação prática.

🎯 Nível da Questão: Difícil – A questão é considerada difícil porque vai além da simples interpretação do texto-base. Ela exige que o aluno utilize o paradoxo social apresentado (saber o que é certo vs. fazer o errado) para chegar a uma conclusão filosófica profunda sobre a natureza da moral, um conceito que remete diretamente à ideia de autonomia, popularizada por filósofos como Immanuel Kant.

✅ Gabarito: D – A alternativa está correta porque aponta para a origem da contradição moral: o fato de que os seres humanos criam suas próprias regras (autonomia) e, por essa mesma liberdade, possuem a capacidade de falhar em cumpri-las.


📖 Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📌 Transcrição Essencial
“O distanciamento entre ‘reconhecer’ e ‘cumprir’ efetivamente o que é moral constitui uma ambiguidade inerente ao humano, porque as normas morais são…”

📌 O que está sendo pedido?
A questão nos pede para identificar a causa fundamental, a razão de ser, pela qual os seres humanos frequentemente não agem de acordo com os princípios morais que eles mesmos aceitam como corretos.

📌 Objetivo Cristalino
Nossa meta é encontrar, entre as alternativas, aquela que melhor define a natureza das normas morais de um jeito que explique essa contradição universal entre o que pensamos e o que fazemos.

✔️ Pergunta de Atenção
Você já parou para pensar que a mesma capacidade que nos permite criar uma regra (“não devo mentir”) é a que nos dá a liberdade de escolher mentir? É nesse ponto que mora o conflito!


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

📌 Definições e Explicações
Para resolver essa questão, é fundamental dominar alguns conceitos filosóficos:

Termo Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Moral É o conjunto de regras e costumes que uma sociedade considera como “certo” ou “errado” na prática. É o “o que” fazemos. Não furar fila, tratar os mais velhos com respeito, ser honesto nas transações comerciais.
Ética É a reflexão filosófica sobre a moral. A ética estuda os princípios por trás das regras e pergunta “por que” algo é certo ou errado. Discutir se a honestidade é um valor absoluto ou se existem situações em que mentir seria eticamente justificável.
Autonomia Moral Do grego auto (próprio) + nomos (lei). É a capacidade que o ser humano tem de criar suas próprias leis morais usando a razão, agindo por um senso de dever interno, e não por medo de punição externa. Eu decido não colar na prova, mesmo sem ninguém olhando, porque eu concluí racionalmente que isso é desonesto e injusto. Eu sou meu próprio legislador.
Norma Jurídica É uma lei criada pelo Estado, que tem sanção oficial (multa, prisão) em caso de descumprimento. É diferente da norma moral, que é mais ampla e interna. Passar no sinal vermelho é ilegal (viola uma norma jurídica). Ser egoísta com um amigo é imoral, mas não é ilegal.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

📌 Contextualização Simplificada
O texto está dizendo o seguinte: a gente sabe como seria um país ideal e justo (a “Escandinávia”), mas na vida real, agimos de forma corrupta (como em “Bruzundanga”). A questão pega essa ideia e a torna universal: por que nós, humanos, temos essa “falha de sistema”? Por que saber o que é certo não nos obriga a fazer o certo? Precisamos achar a explicação filosófica para essa confusão interna.

📌 Estratégia Geral
Nossa estratégia será identificar o núcleo do problema – a contradição entre razão e ação. Depois, vamos avaliar cada alternativa para ver qual delas explica essa contradição a partir da origem e da natureza das próprias normas morais.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

📌 Passo a Passo Detalhado

  1. Analisando o Paradoxo: O texto destaca o conflito entre o reconhecimento (“noção clara dos comportamentos éticos”) e a prática (“vive sob o espectro da corrupção”). O problema não é a falta de conhecimento.
  2. A Origem da Lei Moral: A chave para a resposta está em pensar: de onde vêm as regras morais? Se elas viessem de uma força externa e perfeita, a contradição seria apenas nossa falha em obedecer.
  3. A Lógica da Autonomia: A filosofia moderna, especialmente com Kant, nos diz que a moralidade vem da autonomia. Ou seja, nós, seres humanos, usamos nossa razão para criar as leis morais para nós mesmos. Nós estabelecemos o padrão da “Escandinávia” em nossa mente.
  4. A Fonte da Ambiguidade: Aqui está o pulo do gato. O mesmo ser humano que, usando a razão, cria uma lei moral perfeita para si mesmo (o legislador), é também um ser imperfeito, cheio de desejos, medos e pressões, que precisa seguir essa lei (o súdito). A liberdade que nos permite criar a lei é a mesma liberdade que nos permite desrespeitá-la. É essa dualidade de sermos, ao mesmo tempo, a fonte da lei e o sujeito falível a ela que gera a “ambiguidade inerente”.

📌 Verificação Intermediária
Até aqui, concluímos que a tensão entre saber e fazer existe porque a moralidade humana não é um programa imposto de fora, mas um projeto de autogoverno cheio de desafios e contradições.

❓/✔️ Possível Armadilha
Muitos podem cair na alternativa C, que soa bastante razoável. A ideia de que as normas são “amplas” e difíceis de cumprir parece explicar o problema. No entanto, ela coloca a culpa na norma (que seria “impossível”), enquanto a questão filosófica central está no sujeito: a ambiguidade nasce da nossa condição de sermos livres e racionais, criadores e, ao mesmo tempo, potenciais transgressores da regra.

📌 Fechamento e Expectativa
Com base nesse raciocínio, a resposta correta deve ser aquela que descreve esse processo de autolegislação, onde o homem é o autor da lei moral à qual ele mesmo deve se submeter.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

Listagem das Alternativas
A) decorrentes da vontade divina e, por esse motivo, utópicas.
B) parâmetros idealizados, cujo cumprimento é destituído de obrigação.
C) amplas e vão além da capacidade de o indivíduo conseguir cumpri-las integralmente.
D) criadas pelo homem, que concede a si mesmo a lei à qual deve se submeter.
E) cumpridas por aqueles que se dedicam inteiramente a observar as normas jurídicas.

Justificativa Individual
🔴 A) Esta alternativa apela para a heteronomia (lei externa, divina) e chama as normas de “utópicas”, o que não é o foco da discussão. A questão trata de uma ambiguidade humana e racional, não religiosa.

🔴 B) Afirmar que as normas morais são “destituídas de obrigação” é um erro conceitual. A própria ideia de uma norma carrega um senso de dever e obrigação, mesmo que seja uma obrigação que impomos a nós mesmos.

🟡 C) Esta alternativa é a mais tentadora, mas está parcialmente correta. Ela descreve uma dificuldade prática, mas não a causa filosófica da ambiguidade. O problema central não é que as normas são “impossíveis”, mas que a decisão de segui-las ou não é um ato de nossa liberdade, já que fomos nós que as criamos.

🟢 D) Esta alternativa é perfeita. Ela resume o conceito de autonomia moral: as normas são “criadas pelo homem” (fonte interna), que “concede a si mesmo a lei” (autolegislação) à qual ele, contraditoriamente, “deve se submeter”. É a descrição exata da origem do conflito.

🔴 E) Esta é incorreta porque comete o erro clássico de confundir moral com direito. Uma pessoa pode seguir todas as leis do país (normas jurídicas) e ainda assim ser imoral em suas ações privadas. A moralidade é um campo muito mais vasto que a legalidade.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

📌 Resumo do Raciocínio
A contradição entre saber o que é moralmente correto e agir de forma contrária é uma característica humana porque as normas morais são fruto da nossa própria razão (autonomia). Somos nós que criamos o ideal e, por sermos livres e falíveis, lutamos constantemente para alcançá-lo.

📌 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a D, que define com precisão as normas morais como uma autolegislação, fonte da ambiguidade inerente ao humano.

🔍 Resumo Final para Revisão
Para resolver questões de ética, lembre-se da autonomia: a moralidade humana é um projeto de autogoverno. A tensão existe porque o legislador e o súdito são a mesma pessoa.

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