Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará.
Ele está comprometido de monge.
De tarde deambula no azedal entre torsos de
cachorros, trampas, trapos, panos de regra, couros,
de rato ao podre, vísceras de piranhas, baratas
albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos,
linguetas de sapatos, aranhas dependuradas em
gotas de orvalho etc. etc.
Pote Cru, ele dormia nas ruínas de um convento
Foi encontrado em osso.
Ele tinha uma voz de oratórios perdidos.
BARROS, M. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Ao estabelecer uma relação com o texto bíblico nesse poema, o eu lírico identifica-se com o Pote Cru porque
A) entende a necessidade de todo poeta ter voz de oratórios perdidos.
B) elege-o como pastor a fim de ser guiado para a salvação divina.
C) valoriza nos percursos do pastor a conexão entre as ruínas e a tradição.
D) necessita de um guia para a descoberta das coisas da natureza.
E) acompanha-o na opção pela insignificância das coisas.

✍ Resolução Em Texto
Olá! Prepare-se para uma viagem ao universo de Manoel de Barros, um poeta que nos ensina a encontrar beleza onde ninguém mais procura. A chave para esta questão é entender como ele brinca com um texto sagrado e conhecido por todos para nos apresentar sua visão de mundo única.
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Poético
- Intertextualidade
- Literatura Brasileira (Estilo de Manoel de Barros / Poética da Insignificância)
🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreender como a subversão de um texto de referência (o Salmo 23 da Bíblia) constrói o sentido do poema e revela a visão de mundo do eu lírico.
🎯 Nível da Questão: Difícil. Esta questão é desafiadora por três motivos: 1) Exige que o leitor reconheça a referência bíblica (“O Senhor é meu pastor”) para entender a subversão. 2) A linguagem poética de Barros é altamente simbólica e foge do literal. 3) A resposta correta se baseia no conceito de “poética da insignificância”, que é central na obra do autor, mas pode não ser óbvia para quem lê apenas este fragmento isoladamente.
✅ Gabarito: E) acompanha-o na opção pela insignificância das coisas. A alternativa está correta pois o “pastor” escolhido pelo eu lírico não guia por pastos verdejantes, mas por um lixão, um lugar de restos e coisas sem valor, revelando a preferência do poeta pelo que é considerado insignificante.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Transcrição Essencial
“Ao estabelecer uma relação com o texto bíblico nesse poema, o eu lírico identifica-se com o Pote Cru porque…”
📌 O que está sendo pedido?
A questão quer saber o motivo da identificação do eu lírico com o seu “pastor”, o Pote Cru. Por que, ao se comparar com o texto da Bíblia, o poeta escolhe justamente essa figura estranha como guia?
📌 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é analisar quem é o Pote Cru e o que ele representa, para então entender por que o eu lírico o escolhe como seu líder espiritual e poético.
✔ Pergunta de Atenção
Você conhece a famosa passagem bíblica “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”? Agora, imagine trocar “O Senhor” por “Pote Cru”, um monge que anda no meio do lixo. O que essa troca radical nos diz sobre o que o poeta valoriza?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Para decifrar este poema, precisamos entender alguns conceitos-chave.
| Termo/Conceito | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano ou Texto |
| Intertextualidade | É a “conversa” ou diálogo que um texto estabelece com outro. Pode ser uma citação, uma paródia ou uma alusão. | O primeiro verso, “Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará”, é uma intertextualidade direta com o Salmo 23 da Bíblia. |
| Poética da Insignificância | É o estilo literário, muito associado a Manoel de Barros, que consiste em valorizar e encontrar beleza e sentido nas coisas pequenas, inúteis, no lixo, nos restos e no que a sociedade considera sem importância. | O poema descreve o “reino” do Pote Cru como um lugar de “trampas, trapos, couros, de rato ao podre, vísceras”. Isso é a matéria-prima da poética da insignificância. |
| Eu Lírico | É a “voz” que fala no poema, quem expressa os sentimentos e as ideias. Não deve ser confundido diretamente com o autor (a pessoa real). | O eu lírico aqui é a voz que declara: “Pote Cru é meu pastor”. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
📌 Contextualização Simplificada
Vamos “mastigar” a ideia do poema. O poeta começa dizendo que seu guia, seu pastor, é uma figura chamada Pote Cru. Mas, ao invés de ser um pastor que leva a rebanhos para campos bonitos e águas tranquilas (como na Bíblia), este pastor é um “monge” que anda por um “azedal” – um lugar azedo, um lixão. O poeta lista o que existe nesse lugar: restos de animais mortos, lixo, insetos, sapatos velhos. Tudo o que é descartado. Pote Cru é o rei desse universo de coisas sem valor. Ao escolhê-lo como guia, o eu lírico está dizendo que é nesse mundo, no mundo das coisas “insignificantes”, que ele quer andar e encontrar seu caminho.
📌 Estratégia Geral
- Identificar a referência bíblica e notar como Manoel de Barros a subverte.
- Analisar o cenário por onde Pote Cru caminha para entender o que ele representa.
- Conectar a escolha do eu lírico por esse guia com a valorização desse cenário.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 Passo a Passo Detalhado
- A Intertextualidade: O poema começa com “Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará.”. Isso imediatamente nos remete ao Salmo 23 (“O Senhor é meu pastor, ele me guia…”). O poeta substitui a figura máxima da divindade (O Senhor) por uma figura terrena, estranha e aparentemente decaída (Pote Cru).
- O “Reino” do Pastor: Onde Pote Cru guia? Não é por “pastos verdejantes”. Ele guia “no azedal entre torsos de cachorros, trampas, trapos… vísceras de piranhas, baratas albinas…”. Este é um cenário de decomposição, de lixo, de restos. É o universo das coisas que perderam sua função, que foram jogadas fora.
- A Identificação: Ao dizer que este é seu pastor, o eu lírico se coloca como uma “ovelha” que quer seguir por este caminho. Ele não rejeita esse cenário, ele o abraça. Ele vê valor, poesia e um caminho a ser seguido justamente naquilo que é desprezado.
- A Conclusão do Raciocínio: Portanto, o eu lírico se identifica com Pote Cru porque ele representa a escolha deliberada de olhar para o que não tem valor aparente. Ele “acompanha-o na opção pela insignificância das coisas”, fazendo dessa insignificância a sua matéria poética e seu guia espiritual.
❓/ ✔ Possível Armadilha
A armadilha mais óbvia é a alternativa B) elege-o como pastor a fim de ser guiado para a salvação divina. Ao ver a palavra “pastor”, o leitor pode automaticamente pensar em religião e salvação. No entanto, o poema faz o movimento contrário: ele dessacraliza a figura do pastor. O caminho de Pote Cru não leva ao céu ou à salvação divina, mas a uma imersão no mundo terreno, decaído e esquecido. A salvação aqui é poética, não religiosa.
📌 Fechamento e Expectativa
Nossa análise mostra que a escolha de Pote Cru como guia é um manifesto poético. Esperamos encontrar uma alternativa que fale sobre valorizar o que é pequeno, descartado ou sem importância, ou seja, a “insignificância”.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
📌 Listagem das Alternativas
A) entende a necessidade de todo poeta ter voz de oratórios perdidos.
B) elege-o como pastor a fim de ser guiado para a salvação divina.
C) valoriza nos percursos do pastor a conexão entre as ruínas e a tradição.
D) necessita de um guia para a descoberta das coisas da natureza.
E) acompanha-o na opção pela insignificância das coisas.
📌 Justificativa Individual
🔴 A) Incorreta. A “voz de oratórios perdidos” é uma bela metáfora que descreve Pote Cru, mas o poema não generaliza isso como uma “necessidade de todo poeta”. É uma característica do guia, não o motivo da escolha em si.
🔴 B) Incorreta. Como vimos na armadilha, o poema subverte a ideia de salvação divina. O caminho proposto é o da valorização do lixo e do resto, não da ascensão espiritual tradicional.
🔴 C) Incorreta. Embora Pote Cru durma em “ruínas de um convento”, o que aponta para uma tradição em decomposição, seu foco principal é o “azedal” (lixão), que representa o descarte e não a tradição em si.
🔴 D) Incorreta. O cenário inclui “coisas da natureza” (cachorros, ratos, lagartos), mas também muitos objetos fabricados pelo homem (“trampas, trapos, linguetas de sapatos”). O conceito que une tudo não é “natureza”, mas sim “descarte” ou “insignificância”.
🟢 E) Correta. Esta é a síntese perfeita do poema. Pote Cru representa a “opção pela insignificância”, e o eu lírico, ao escolhê-lo como guia, demonstra que também adere a essa filosofia, acompanhando-o nesse caminho poético.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Resumo do Raciocínio
O eu lírico utiliza a estrutura de um texto sagrado para substituí-lo por sua própria crença: a de que a poesia e o sentido da vida podem ser encontrados nos lugares e nas coisas mais desprezadas. A escolha de Pote Cru como pastor é a adesão a essa filosofia da insignificância.
📌 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E), pois ela captura a essência da poética de Manoel de Barros presente no texto: a valorização do que é considerado sem valor.
🔍 Resumo Final para Revisão
Para entender Manoel de Barros, lembre-se: a riqueza não está no ouro, mas na ferrugem; a beleza não está no palácio, mas nas ruínas; e a poesia não está nas grandes palavras, mas nos “restos” e “trapos”. Ele nos ensina a ver o mundo de cabeça para baixo.