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Questão 135, caderno azul do ENEM 2012

O trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…
Sou um tupi tangendo um alaúde!

ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (Org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.

Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é:

A) abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.

B) verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.

C) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9).

D) problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

E) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira (Primeira Fase do Modernismo)
  • Figuras de Linguagem (Antítese, Metáfora)
  • Interpretação de Texto Poético

🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise da construção da identidade nacional em um poema de Mário de Andrade, com foco na síntese de elementos contrastantes.

📊 Nível da Questão: Difícil.

  • Por quê? A questão exige a interpretação de um poema complexo, com imagens fragmentadas e um verso final (“Sou um tupi tangendo um alaúde!”) que é a chave de tudo. É preciso conhecer o projeto do Modernismo brasileiro para entender o que essa imagem paradoxal significa e como ela dialoga com as ideias de Oswald de Andrade.

✅ Gabarito: Alternativa D.

  • Resumo: O verso final “Sou um tupi tangendo um alaúde!” é a síntese do poema e do projeto modernista. Ele representa a identidade brasileira como um choque e uma fusão entre o elemento primitivo/nacional (o “tupi”) e o elemento erudito/europeu (o “alaúde”). Essa ideia de “digerir” a cultura estrangeira e transformá-la em algo novo e brasileiro é o cerne da Antropofagia oswaldiana.

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é…”

O que está sendo pedido? ❓
A questão pede para identificarmos como o poema “O trovador” aborda o tema da identidade nacional brasileira, que era uma obsessão para os modernistas.

Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é decifrar o último verso do poema, “Sou um tupi tangendo um alaúde!”, e entender como essa imagem paradoxal resume a visão modernista sobre o que é ser brasileiro.

🧠 Um tupi tocando um alaúde é uma imagem harmoniosa ou conflitante? Um “tupi” é um símbolo do Brasil primitivo. Um “alaúde” é um instrumento musical europeu, antigo e erudito. O que Mário de Andrade quer dizer ao juntar esses dois elementos na mesma pessoa?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Modernismo Brasileiro (Primeira Fase – 1922-1930): Movimento de ruptura com a arte tradicional. Tinha como um de seus principais objetivos a busca por uma identidade nacional autêntica, que não fosse uma mera cópia da Europa.
  • Trovador: Na Idade Média, era o poeta/músico que compunha e cantava em ambientes nobres. Mário de Andrade se apropria do termo para se colocar como um novo tipo de poeta brasileiro.
  • Arlequinal: Referente a Arlequim, personagem da Commedia dell’arte italiana, conhecido por sua roupa feita de retalhos coloridos e losangos. No poema, “coração arlequinal” sugere uma identidade fragmentada, feita de pedaços diferentes, contraditórios.
  • Antropofagia (Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade – 1928): É a proposta mais radical do Modernismo para a questão da identidade. A ideia era “deglutir” ou “devorar” a cultura estrangeira (europeia), digeri-la e transformá-la em algo novo, forte e autenticamente brasileiro, assim como os índios antropófagos que comiam seus inimigos para absorver sua força. A frase “Tupi or not tupi, that is the question” resume essa ideia.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O poeta se sente como um Arlequim, com o coração feito de retalhos de sentimentos contraditórios: sarcasmo, doença, frieza. Ele se sente como um homem primitivo, mas ao mesmo tempo é um artista sofisticado. No final, ele resume essa confusão toda em uma única imagem poderosa: “Sou um tupi tangendo um alaúde!”. Ou seja: “Sou a mistura do selvagem com o civilizado, do Brasil com a Europa, do popular com o erudito. Essa mistura conflitante é a minha identidade.” A questão quer que a gente explique o que essa imagem final significa.

Estratégia Geral 🗺️
Vamos focar na oposição apresentada no último verso e conectá-la ao projeto ideológico do Modernismo, especialmente à Antropofagia, que também trabalhava com a síntese de opostos.


⚙️ Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Análise do Eu-lírico: O poema descreve um eu-lírico fragmentado e em conflito (“coração arlequinal”, sentimentos contraditórios).
  2. A Imagem-Síntese: O verso “Sou um tupi tangendo um alaúde!” resolve (ou melhor, assume) essa fragmentação. Ele não escolhe um lado; ele é os dois lados ao mesmo tempo.
  3. Decodificação da Oposição:
    • Tupi: Representa o elemento primitivo, o “selvagem”, a raiz indígena, o nacional, o autêntico.
    • Alaúde: Representa o elemento importado, a cultura erudita europeia, a tradição artística “civilizada”.
  4. A Problematização da Identidade: Ao juntar os dois, o poeta não está simplesmente exaltando o indígena nem se submetendo à cultura europeia. Ele está problematizando a identidade nacional, mostrando-a como um resultado híbrido e conflituoso dessa junção.
  5. Diálogo com a Antropofagia: Essa ideia de fundir o nacional com o estrangeiro para criar algo novo é exatamente o que Oswald de Andrade proporia em seu Manifesto Antropófago. O “tupi” não recusa o “alaúde”, ele o “devora”, se apropria dele e o utiliza para criar uma nova música, uma nova arte, uma nova identidade.

Possível armadilha 🚨
A alternativa E (“exaltado pelo eu lírico”) é uma armadilha. O eu-lírico não está simplesmente exaltando o passado indígena de forma ingênua (como os românticos fariam). Ele está mostrando a complexidade da sua identidade, que é também europeia (o alaúde). A palavra-chave na alternativa correta é “problematizado”, que captura a natureza conflituosa dessa identidade.

Fechamento e expectativa ✨
Procuramos a alternativa que interprete o verso final como uma síntese tensa e problemática entre o elemento nacional/primitivo e o europeu/civilizado.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) abordado subliminarmente, por meio de expressões como “coração arlequinal” que, evocando o carnaval, remete à brasilidade.
Incorreta. A expressão “coração arlequinal” remete mais à fragmentação do eu do que especificamente ao carnaval. E a questão da identidade não é subliminar, é explícita no último verso.

🔴 B) verificado já no título, que remete aos repentistas nordestinos, estudados por Mário de Andrade em suas viagens e pesquisas folclóricas.
Incorreta. “Trovador” remete primariamente à tradição medieval europeia, que Mário de Andrade subverte ao longo do poema, culminando na imagem do “tupi” trovador.

🔴 C) lamentado pelo eu lírico, tanto no uso de expressões como “Sentimentos em mim do asperamente” (v. 1), “frio” (v. 6), “alma doente” (v. 7), como pelo som triste do alaúde “Dlorom” (v. 9).
Incorreta. Embora o eu-lírico expresse angústia, o poema não é apenas um lamento. O verso final é uma afirmação de identidade, ainda que conflituosa. Ele assume sua condição híbrida.

🟢 D) problematizado na oposição tupi (selvagem) x alaúde (civilizado), apontando a síntese nacional que seria proposta no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.
Correta. Esta alternativa captura com precisão a essência do poema. A identidade nacional é problematizada (não é simples nem pacífica) através da oposição de elementos (tupi vs. alaúde), e essa fusão aponta para a ideia de síntese que seria a base da Antropofagia.

🟡 E) exaltado pelo eu lírico, que evoca os “sentimentos dos homens das primeiras eras” para mostrar o orgulho brasileiro por suas raízes indígenas.
A que mais confunde. Incorreta. A exaltação não é simples nem unilateral. O eu-lírico não celebra apenas a raiz indígena; ele se define pela junção do indígena com o europeu (o alaúde). É uma afirmação de identidade híbrida, não um elogio puramente indianista.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 🗒️
O poema de Mário de Andrade constrói a identidade nacional brasileira não como algo puro ou único, mas como uma síntese complexa e conflituosa. O verso final, “Sou um tupi tangendo um alaúde!”, é a imagem que resume essa ideia, colocando em oposição (e em fusão) o elemento primitivo e autóctone (tupi) e o elemento cultural erudito e importado (alaúde). Essa problematização da identidade através da assimilação crítica de elementos opostos é uma das principais marcas do Modernismo brasileiro e dialoga diretamente com a proposta antropofágica de Oswald de Andrade.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão 🔑
Lembre-se da fórmula da identidade modernista: Brasil = Tupi + Alaúde. Não é um ou outro, são os dois juntos, em uma relação tensa e criativa. É a “deglutição” da cultura estrangeira para fortalecer a nossa.

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