Aquele bêbado
— Juro nunca mais beber — e fez o sinal da cruz com os indicadores. Acrescentou: — Álcool.
O mais ele achou que podia beber. Bebia paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana. Tomou um pileque de Segall. Nos fins de semana, embebedava-se de Índia Reclinada, de Celso Antônio.
— Curou-se 100% do vício — comentavam os amigos.
Só ele sabia que andava mais bêbado que um gambá. Morreu de etilismo abstrato, no meio de uma carraspana de pôr do sol no Leblon, e seu féretro ostentava inúmeras coroas de ex-alcoólatras anônimos.
ANDRADE, C. D. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: Record, 1991.
A causa mortis do personagem, expressa no último parágrafo, adquire um efeito irônico no texto porque, ao longo da narrativa, ocorre uma:
A) metaforização do sentido literal do verbo “beber”.
B) aproximação exagerada da estética abstracionista.
C) apresentação gradativa da coloquialidade da linguagem.
D) exploração hiperbólica da expressão “inúmeras coroas”.
E) citação aleatória de nomes de diferentes artistas.

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Figuras de Linguagem (Metáfora, Ironia)
- Interpretação de Texto Literário (Conto)
- Linguística (Semântica: Sentido Literal vs. Figurado)
🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise do uso da metáfora como recurso principal para a construção do humor e da ironia em um microconto.
📊 Nível da Questão: Fácil.
- Por quê? O texto constrói de forma muito explícita a mudança de sentido do verbo “beber”. A ironia final (“morreu de etilismo abstrato”) depende diretamente da compreensão dessa mudança, tornando a identificação da metáfora o caminho mais óbvio para a resolução.
✅ Gabarito: Alternativa A.
- Resumo: A ironia do conto reside no fato de que o personagem jura parar de beber (álcool), mas passa a “beber” (apreciar intensamente) arte e beleza. A causa da morte, “etilismo abstrato”, só faz sentido através dessa metaforização do verbo “beber”, que troca o vício químico pelo “vício” estético.
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“A causa mortis do personagem […] adquire um efeito irônico no texto porque, ao longo da narrativa, ocorre uma…”
O que está sendo pedido? ❓
A questão pede para explicarmos de onde vem a ironia da causa da morte “etilismo abstrato”. O que acontece no conto que torna essa expressão engraçada e surpreendente?
Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é identificar o principal recurso de linguagem que o autor usa para construir a história e que dá sentido à conclusão irônica.
🧠 O personagem realmente continua bebendo álcool depois da promessa? Não. O que ele passa a “beber”? A resposta a essa pergunta revela a figura de linguagem central do texto.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Definição de Termos 🔖
- Sentido Literal vs. Sentido Figurado (Conotativo):
- Literal: O sentido original, de dicionário, de uma palavra. “Beber” = ingerir um líquido.
- Figurado: Um novo sentido que a palavra adquire em um contexto específico, geralmente por meio de uma comparação ou associação.
- Metáfora: É uma figura de linguagem que consiste em usar uma palavra ou expressão em um sentido que não é o seu sentido literal, com base em uma relação de semelhança.
- No texto: Drummond pega o verbo “beber” e o aplica a experiências estéticas. “Beber músicas”, “beber versos”, “beber paisagens”. A semelhança está na ideia de consumir algo intensamente, de se embriagar, de ser tomado por aquela experiência. O sentido literal do verbo é substituído por um sentido figurado.
- Ironia: É uma figura de linguagem (ou de pensamento) que consiste em dizer o contrário do que se pensa, geralmente com intenção crítica ou humorística.
- No texto: A ironia está na conclusão. Os amigos acham que ele se curou do vício, mas ele se considera “mais bêbado que um gambá”. A “causa mortis” – etilismo (alcoolismo) abstrato – é irônica porque ele morre de um “alcoolismo” de beleza, não de álcool.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
A história é sobre um bêbado que faz uma promessa com uma brecha: “Juro nunca mais beber… álcool”. A partir daí, ele troca a cachaça pela arte. Ele se “embriaga” de música, poesia, pintura e paisagens. No fim, o narrador diz, com ironia, que ele morreu de “alcoolismo abstrato” por causa de uma “overdose” de pôr do sol. A questão é: qual o truque de linguagem que o autor usou para fazer essa história funcionar?
Estratégia Geral 🗺️
Vamos analisar como o significado da palavra “beber” é alterado ao longo do texto e como essa alteração é fundamental para a construção do efeito irônico final.
⚙️ Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- A Promessa e a Brecha: O personagem promete parar de beber “Álcool”. A especificação já sinaliza que ele vai explorar outros tipos de “bebida”.
- A Mudança de Sentido: O narrador imediatamente mostra o novo sentido que o verbo “beber” adquire: “Bebia paisagens, músicas de Tom Jobim, versos de Mário Quintana.” Aqui, “beber” deixa de ser um ato físico (ingerir álcool) e passa a ser um ato estético (apreciar, consumir com a alma, embriagar-se de beleza). Ocorre uma metaforização.
- A Construção da Ironia: Os amigos, presos ao sentido literal, acreditam que ele “curou-se 100% do vício”. O personagem, no entanto, sabe que apenas trocou um vício por outro, talvez mais intenso: “andava mais bêbado que um gambá”.
- O Clímax Irônico: A “causa mortis” (“etilismo abstrato”) só é irônica porque o leitor acompanhou essa mudança de sentido (metaforização) do verbo “beber” e do conceito de “embriaguez”. Se ele tivesse continuado a beber álcool, a morte por etilismo não seria irônica, seria apenas trágica. A ironia vem do fato de ele morrer de um “vício” nobre e abstrato.
Possível armadilha 🚨
A alternativa D) exploração hiperbólica pode confundir. De fato, há um exagero (hipérbole) na ideia de “morrer de pôr do sol”, mas a hipérbole é uma consequência do recurso principal, que é a metáfora. A hipérbole só funciona porque, antes, o autor já tinha estabelecido a metáfora de que se pode “beber” arte.
Fechamento e expectativa ✨
Procuramos a alternativa que identifique a mudança de sentido do verbo “beber” como o mecanismo central do conto.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
🟢 A) metaforização do sentido literal do verbo “beber”.
Correta. Esta é a base de todo o conto. O autor pega o verbo “beber” e o transforma em uma metáfora para a fruição estética, e é essa mudança que gera a ironia final.
🔴 B) aproximação exagerada da estética abstracionista.
Incorreta. Embora Segall seja um artista com fases abstracionistas, o texto menciona artistas e formas de arte diversas (música, poesia, escultura figurativa como a “Índia Reclinada”). O foco não é em um movimento estético específico.
🔴 C) apresentação gradativa da coloquialidade da linguagem.
Incorreta. A linguagem do conto é culta e literária. Expressões como “pileque” ou “bêbado que um gambá” são coloquiais, mas inseridas em um texto elaborado, e não há uma “apresentação gradativa”.
🟡 D) exploração hiperbólica da expressão “inúmeras coroas”.
A que mais confunde. Incorreta. A hipérbole (“inúmeras coroas”) é um recurso presente, mas secundário. O efeito irônico principal não vem do número de coroas, mas da causa da morte (“etilismo abstrato”), que depende da metáfora construída ao longo de todo o texto.
🔴 E) citação aleatória de nomes de diferentes artistas.
Incorreta. As citações não são aleatórias. Elas servem para exemplificar os novos “vícios” do personagem, as “bebidas” estéticas que ele passou a consumir.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 🗒️
O humor e a ironia do conto de Drummond são construídos a partir de um jogo de palavras centrado no verbo “beber”. Ao longo da narrativa, o sentido literal de ingerir álcool é substituído pelo sentido metafórico de consumir intensamente arte e beleza. É essa metaforização que permite a conclusão irônica de que o personagem morreu de “etilismo abstrato”, um “vício” em experiências estéticas.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a A.
Resumo Final para Revisão 🔑
Para entender a ironia, procure o “duplo sentido” ou a quebra de expectativa. Neste conto, a quebra de expectativa é criada pela metáfora: esperamos uma história sobre alcoolismo, mas recebemos uma sobre “arte-ismo”.