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Questão 36, caderno azul do ENEM 2013

Até hoje admitia-se que nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém, todas as tentativas para descobrir, mediante conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento, malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento.

KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Calouste-Gulbenkian, 1994 (adaptado).

O trecho em questão é uma referência ao que ficou conhecido como revolução copernicana na filosofia. Nele, confrontam-se duas posições filosóficas que:

A) assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do conhecimento.

B) defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos somente o ceticismo.

C) revelam a relação de interdependência entre os dados da experiência e a reflexão filosófica.

D) apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia das ideias em relação aos objetos.

E) refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso conhecimento e são ambas recusadas por Kant.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Filosofia Moderna; Teoria do Conhecimento; Immanuel Kant

📝 Tema/Objetivo Geral: Compreender a mudança de paradigma proposta por Kant na Crítica da Razão Pura

📊 Nível da Questão: Médio — exige abstração conceitual e conhecimento de teoria do conhecimento moderno

🎯 Gabarito: A


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📌 O texto apresenta um trecho clássico da obra Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant, no qual ele propõe inverter a lógica tradicional da filosofia: em vez de o conhecimento se moldar aos objetos, os objetos é que devem se ajustar às estruturas do conhecimento humano.

🧠 O que está sendo pedido? Identificar a natureza da oposição entre duas posições filosóficas quanto ao conhecimento, e como o trecho se posiciona diante delas.

🎯 Objetivo cristalino: Entender que o trecho contrasta duas visões opostas sobre a origem do conhecimento — uma tradicional (empirista) e a outra inaugurada por Kant (revolução copernicana).

🤔 O conhecimento precisa se ajustar ao mundo ou o mundo precisa ser compreendido conforme as condições da mente humana?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

🔄 Revolução copernicana na filosofia, segundo Kant, foi a comparação que ele usou para ilustrar sua grande virada filosófica: não é o sujeito que deve se conformar ao objeto, como defendiam os empiristas, mas sim os objetos da experiência é que devem ser compreendidos a partir das estruturas cognitivas do sujeito.

🔍 Para os empiristas, como Locke e Hume, o conhecimento vem da experiência sensível — ou seja, o sujeito “recebe” os dados do mundo e forma ideias com base neles.

🧠 Para Kant, essa visão falha ao não considerar que a mente organiza ativamente a experiência: espaço, tempo, causalidade e categorias do entendimento são condições que o sujeito impõe à experiência. Assim, o conhecimento é possível porque o sujeito estrutura a realidade percebida.

💡 Kant não nega o valor da experiência, mas rompe com a ideia de passividade do sujeito. O conhecimento é possível pela interação entre experiência e estrutura racional.


Passo 3: Interpretação do Texto e Desenvolvimento do Raciocínio

📖 No trecho, Kant lamenta que os esforços metafísicos fracassaram (“malogravam-se”) ao partir do pressuposto de que o pensamento humano deveria se moldar aos objetos externos. Por isso, propõe uma inversão: “admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento”.

🧭 Isso revela claramente o conflito entre duas posições:

  • ✅ Uma tradicional, em que o conhecimento depende do objeto (empirismo).
  • ✅ A kantiana, em que o objeto da experiência é condicionado pelas estruturas da razão humana.

📌 A oposição é direta: trata-se de pontos de vista contrários sobre a origem e natureza do conhecimento.


Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução

A) Assumem pontos de vista opostos acerca da natureza do conhecimento.
Correta. Uma defende que o sujeito se molda ao objeto (empirismo); outra, que o objeto é compreendido conforme as formas do conhecimento (Kant). É o conflito central do texto.

B) Defendem que o conhecimento é impossível, restando-nos somente o ceticismo.
❌ Incorreta. O ceticismo é superado por Kant. Ele acredita que o conhecimento é possível desde que se reconheça seus limites e fundamentos.

C) Revelam a relação de interdependência entre os dados da experiência e a reflexão filosófica.
❌ Errada. Embora Kant reconheça essa interdependência, o trecho apresentado não aborda isso, e sim uma contraposição entre visões filosóficas.

D) Apostam, no que diz respeito às tarefas da filosofia, na primazia das ideias em relação aos objetos.
❌ Incorreta. Isso seria mais próximo do racionalismo puro, como em Descartes. O trecho trata da forma como o sujeito estrutura a experiência — não da primazia das ideias puras.

E) Refutam-se mutuamente quanto à natureza do nosso conhecimento e são ambas recusadas por Kant.
❌ Errada. Kant não recusa ambas, mas sintetiza e supera o conflito entre empirismo e racionalismo com sua proposta crítica.


Passo 5: Conclusão e Justificativa Final

📌 O trecho de Kant expressa claramente a oposição entre duas formas de pensar o conhecimento: uma, que depende dos objetos (empirismo), e outra, que considera o sujeito como ativo na constituição da experiência (filosofia crítica de Kant).

♻️ Essa inversão da perspectiva tradicional é justamente o que ele chamou de sua “revolução copernicana” na filosofia.

✅ Portanto, a alternativa correta é a letra A.

🔍 Resumo Final:
Kant propõe que o conhecimento não se forma pela simples recepção dos objetos externos, mas que os objetos só podem ser conhecidos se estiverem de acordo com as estruturas da mente humana. Essa inversão confronta duas visões opostas sobre o conhecimento — por isso, a alternativa correta é A.

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