O Jornal do Commércio deu um brado esta semana contra as casas que vendem drogas para curar a gente, acusando-as de as vender para outros fins menos humanos. Citou os envenenamentos que tem havido na cidade, mas esqueceu de dizer, ou não acentuou bem, que são produzidos por engano das pessoas que manipulam os remédios. Um pouco mais de cuidado, um pouco menos de distração ou de ignorância, evitarão males futuros. Mas todo ofício tem uma aprendizagem, e não há benefício humano que não custe mais ou menos duras agonias. Cães, coelhos e outros animais são vítimas de estudos que lhes não aproveitam, e sim aos homens; por que não serão alguns destes, vítimas do que há de aproveitar aos contemporâneos e vindouros? Há um argumento que desfaz em parte todos esses ataques às boticas; é que o homem é em si mesmo um laboratório. Que fundamento jurídico haverá para impedir que eu manipule e venda duas drogas perigosas? Se elas matarem, o prejudicado que exija de mim a indenização que entender; se não matarem, nem curarem, é um acidente e um bom acidente, porque a vida fica.
ASSIS, M. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1967 (fragmento).
No gênero crônica, Machado de Assis legou inestimável contribuição para o conhecimento do contexto social de seu tempo e seus hábitos culturais. O fragmento destacado comprova que o escritor avalia o(a)
A) manipulação inconsequente dos remédios pela população.
B) uso de animais em testes com remédios desconhecidos.
C) fato de as drogas manipuladas não terem eficácia garantida.
D) hábito coletivo de experimentar drogas com objetivos terapêuticos.
E) ausência de normas jurídicas para regulamentar a venda nas boticas.

✍️ Resolução em Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Avaliação crítica do contexto social e cultural da venda e uso de medicamentos no século XIX, por meio da crônica de Machado de Assis.
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Interpretação de texto, gêneros textuais (crônica), leitura crítica, ironia e linguagem argumentativa.
🎯 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
A) manipulação inconsequente dos remédios pela população.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
📌 O comando pede que identifiquemos como o autor avalia uma prática social observada em seu tempo, a partir do fragmento de uma crônica.
🔎 Ele quer saber qual é o foco da crítica feita por Machado de Assis no texto, ou seja, o que está sendo avaliado negativamente.
🎯 Objetivo cristalino da questão: Perceber que o autor critica a forma imprudente como as pessoas manipulam remédios e como isso acarreta envenenamentos e outros perigos para a saúde pública.
❓ Dúvida Comum:
Muitos estudantes se prendem à parte final do texto (onde Machado discute a liberdade de manipular drogas e o papel do homem como “laboratório”), confundindo ironia com opinião real do autor.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- Crônica: Gênero textual marcado pela abordagem de acontecimentos do cotidiano com olhar crítico ou reflexivo, muitas vezes utilizando ironia e sarcasmo.
- Contexto histórico: No século XIX, o controle sobre a produção e venda de medicamentos era precário. Machado, atento aos temas de sua época, usa a crônica para provocar a reflexão.
- Ironia argumentativa: Machado frequentemente utiliza ironia para criticar práticas sociais. Neste texto, sua defesa da liberdade de manipulação de drogas é uma crítica velada à falta de responsabilidade.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
- O autor inicia mencionando a crítica de um jornal sobre boticas que vendem drogas de modo irresponsável.
- Em seguida, relativiza a crítica, apontando que os envenenamentos decorrem mais da distração ou ignorância de quem manipula os remédios.
- Ele ironiza ao dizer que todo ofício tem seu aprendizado, como se justificasse os danos à saúde com a “aprendizagem” do ofício de manipular drogas.
- A frase “há um argumento que desfaz todos esses ataques… o homem é em si mesmo um laboratório” é claramente irônica: não é uma defesa real, mas uma crítica sarcástica à irresponsabilidade no uso de substâncias perigosas.
✅ Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
A) manipulação inconsequente dos remédios pela população. 🟢
✔️ Correta. Essa é exatamente a crítica feita: a ideia de que as pessoas manipulam drogas sem o devido cuidado ou conhecimento, o que leva aos envenenamentos mencionados no texto. O autor reconhece que a “distração ou ignorância” pode causar graves danos.
B) uso de animais em testes com remédios desconhecidos. 🔴
❌ Errada. A menção a cães e coelhos aparece de forma exemplificativa, como um comentário secundário para ilustrar os sacrifícios feitos em nome do progresso humano.
✅ Como ficaria certa: Se o foco da crônica fosse a denúncia ou discussão ética sobre experimentação animal, o que não é o caso.
C) fato de as drogas manipuladas não terem eficácia garantida. 🔴
❌ Errada. A crônica não se concentra na eficácia dos remédios, mas sim nos riscos decorrentes da manipulação inadequada.
✅ Como ficaria certa: Se o texto tratasse da ineficácia dos remédios ou da crítica à falta de comprovação científica, o que não é mencionado.
D) hábito coletivo de experimentar drogas com objetivos terapêuticos. 🔴
❌ Errada. Embora se fale no uso de drogas, não há uma naturalização ou ênfase positiva nesse hábito, mas sim uma crítica à irresponsabilidade na sua manipulação.
✅ Como ficaria certa: Se o autor apresentasse uma análise sociológica do comportamento da população ao buscar curas por conta própria — o que não ocorre aqui.
E) ausência de normas jurídicas para regulamentar a venda nas boticas. 🔴
❌ Errada. A menção ao “fundamento jurídico” aparece em tom irônico, como um questionamento sarcástico — não como uma crítica direta à legislação.
✅ Como ficaria certa: Se o foco fosse a discussão sobre regulamentações legais ou ausência de leis sobre a venda de remédios.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
O texto de Machado de Assis, com seu tom crítico e irônico, aponta para a falta de responsabilidade na manipulação e uso de remédios, tanto por parte dos vendedores quanto da população. A defesa exagerada da liberdade de manipular substâncias perigosas é um recurso irônico que expõe o absurdo dessa prática.