Quando Deus confundiu as línguas na torre de Babel, ponderou Filo Hebreu que todos ficaram mudos e surdos, porque, ainda que todos falassem e todos ouvissem, nenhum entendia o outro. Na antiga Babel, houve setenta e duas línguas; na Babel do rio das Amazonas, já se conhecem mais de cento e cinquenta. E assim, quando lá chegamos, todos nós somos mudos e todos eles, surdos. Vede agora quanto estudo e quanto trabalho serão necessários para que esses mudos falem e esses surdos ouçam.
VIEIRA, A. Sermões pregados no Brasil. In: RODRIGUES, J. H. História viva. São Paulo: Global, 1985 (adaptado).
No decorrer da colonização portuguesa na América, as tentativas de resolução do problema apontado pelo padre Antônio Vieira resultaram na
A) ampliação da violência nas guerras intertribais.
B) desistência da evangelização dos povos nativos.
C) indiferença dos jesuítas em relação à diversidade de línguas americanas.
D) pressão da Metrópole pelo abandono da catequese nas regiões de difícil acesso.
E) sistematização das línguas nativas numa estrutura gramatical facilitadora da catequese.

✍️ Resolução Em Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Compreender as estratégias linguísticas e culturais utilizadas pelos missionários jesuítas para superar as barreiras de comunicação durante a colonização portuguesa na América, com foco na catequese dos povos indígenas.
📚 Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de texto.
- Conhecimento sobre o processo de colonização portuguesa e catequese indígena.
- Noções sobre sistematização e gramaticização das línguas nativas.
🎯 Nível da Questão:
Médio.
✅ Gabarito:
Alternativa E.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
➡️ O que o comando quer?
Identificar qual foi a consequência das tentativas de superar a barreira linguística entre colonizadores portugueses e povos indígenas, a partir do contexto apresentado no texto de Padre Antônio Vieira.
➡️ Objetivo cristalino da questão:
Perceber que a dificuldade de comunicação entre europeus e indígenas gerou um esforço sistemático por parte dos missionários — especialmente os jesuítas — para organizar, aprender e estruturar as línguas nativas de modo a facilitar o processo de evangelização.
❓ Dúvida Comum:
Uma confusão recorrente é achar que os colonizadores simplesmente impuseram a língua portuguesa e abandonaram ou ignoraram as línguas indígenas, mas o processo foi mais complexo: envolveu aprendizado, adaptação e sistematização.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
- Catequese: processo de evangelização e instrução religiosa promovido principalmente pelos jesuítas entre os povos indígenas.
- Sistematização das línguas: processo de organizar uma língua oral em regras gramaticais escritas, criando gramáticas e dicionários para facilitar a comunicação e o ensino religioso.
- Missões jesuíticas: iniciativas religiosas e culturais que buscaram converter indígenas ao cristianismo, promovendo também a assimilação cultural.
Esse conhecimento permite compreender que a ação dos jesuítas não foi de indiferença ou abandono, mas de sistematização ativa das línguas indígenas.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
Padre Antônio Vieira utiliza a metáfora da Torre de Babel para expressar a imensa diversidade linguística encontrada pelos portugueses na Amazônia: “mais de cento e cinquenta” línguas.
Frase-chave: “quando lá chegamos, todos nós somos mudos e todos eles, surdos.” — indicando a completa incomunicabilidade entre colonizadores e indígenas.
Interpretação geral: a partir dessa constatação, Vieira sugere a necessidade de estudo e esforço para superar essa barreira linguística, fundamental para a missão evangelizadora.
✅ Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) ampliação da violência nas guerras intertribais. 🔴
❌ Incorreta. Embora a presença dos europeus tenha afetado dinâmicas intertribais, o texto não aborda esse aspecto. Para estar correta, o texto precisaria mencionar como a incomunicabilidade gerou conflitos armados entre tribos ou com os colonizadores, o que não ocorre.
B) desistência da evangelização dos povos nativos. 🔴
❌ Incorreta. Muito pelo contrário: houve um esforço intenso e sistemático para evangelizar os povos indígenas, e não a desistência. Para estar correta, seria preciso que o texto expressasse abandono ou recuo das missões evangelizadoras, o que não acontece.
C) indiferença dos jesuítas em relação à diversidade de línguas americanas. 🔴
❌ Incorreta. O texto sugere justamente o oposto: a diversidade linguística levou a uma necessidade de esforço e estudo por parte dos jesuítas, não indiferença. Para estar correta, o texto deveria expressar desprezo ou desinteresse pela multiplicidade linguística, o que não ocorre.
D) pressão da Metrópole pelo abandono da catequese nas regiões de difícil acesso. 🔴
❌ Incorreta. Não há referência a pressões da Metrópole nesse sentido. Ao contrário, a Igreja e a Coroa incentivavam as missões, inclusive em áreas de difícil acesso. Para estar correta, o texto precisaria mencionar ordens da Metrópole para abandonar as missões, o que não ocorre.
E) sistematização das línguas nativas numa estrutura gramatical facilitadora da catequese. 🟢
✅ Correta! O texto sugere a necessidade de “estudo e trabalho” para que “esses mudos falem e esses surdos ouçam”. Historicamente, essa necessidade levou à sistematização das línguas nativas por missionários, que criaram gramáticas e instrumentos pedagógicos para facilitar a catequese, superando a barreira de incomunicabilidade descrita na metáfora da Babel.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
A alternativa correta é E, pois sintetiza com precisão a solução histórica para o problema apresentado: a sistematização das línguas nativas para permitir a comunicação e a catequese. A partir do reconhecimento da diversidade linguística, os missionários, especialmente os jesuítas, produziram gramáticas e outros instrumentos linguísticos essenciais à sua missão evangelizadora.