Quem acompanhasse os debates na Câmara dos Deputados em 1884 poderia ouvir a leitura de uma moção de fazendeiros do Rio de Janeiro: “Ninguém no Brasil sustenta a escravidão pela escravidão, mas não há um só brasileiro que não se oponha aos perigos da desorganização do atual sistema de trabalho”. Livres os negros, as cidades seriam invadidas por “turbas ignaras”, “gente refratária ao trabalho e ávida de ociosidade”. A produção seria destruída e a segurança das famílias estaria ameaçada. Veio a Abolição, o Apocalipse ficou para depois e o Brasil melhorou (ou será que alguém duvida?). Passados dez anos do início do debate em torno das ações afirmativas e do recurso às cotas para facilitar o acesso dos negros às universidades públicas brasileiras, felizmente é possível conferir a consistência dos argumentos apresentados contra essa iniciativa. De saída, veio a advertência de que as cotas exacerbariam a questão racial. Essa ameaça vai completar 18 anos e não se registraram casos significativos de exacerbação.
GASPARI, E. As cotas e a urucubaca. Folha de S. Paulo, 3 jun. 2009.
O argumento elaborado pelo autor sugere que as censuras às cotas raciais são
A) politicamente ignoradas.
B) socialmente justificadas.
C) culturalmente qualificadas.
D) historicamente equivocadas.
E) economicamente fundamentadas.

✍️ Resolução em Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Analisar um texto opinativo e identificar o caráter histórico dos argumentos contrários às ações afirmativas, estabelecendo relação entre fatos históricos e seus desdobramentos sociais.
📚 Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de texto opinativo
- Identificação de analogias históricas
- Compreensão de argumentos e críticas sociais
- Reconhecimento de ironia e sentido figurado
🎯 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
D) historicamente equivocadas
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O comando pede que se identifique como o autor classifica os argumentos contrários às cotas raciais, com base no texto apresentado.
➡️ O que o comando quer?
Quer que o candidato reconheça o tipo de avaliação feita pelo autor acerca dos argumentos contrários às cotas: se são ignorados, justificados, qualificados, equivocados ou fundamentados, e sob qual perspectiva.
➡️ Objetivo Cristalino da questão:
Perceber que o autor utiliza uma analogia histórica (o medo infundado após a abolição da escravidão) para afirmar que os argumentos contra as cotas raciais também são equivocados do ponto de vista histórico, ou seja, falharam como previsões.
❓ Dúvida Comum:
Muitos podem confundir “equivocados” com “ignorados” ou “justificados”, mas o essencial é perceber que o foco está na falha das previsões ao longo do tempo, uma crítica histórica.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- Ação afirmativa: Políticas que visam corrigir desigualdades históricas, como as cotas raciais no Brasil, para aumentar o acesso de grupos minorizados às universidades e empregos.
- Analogia histórica: Técnica argumentativa que compara dois eventos históricos distintos para reforçar um ponto de vista.
- Equívoco histórico: Quando previsões ou crenças do passado se mostram incorretas com o decorrer do tempo e dos fatos.
- Crítica social: O autor utiliza um tom irônico e crítico para desqualificar argumentos conservadores com base na falha histórica desses discursos.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O autor cita dois momentos:
- Em 1884, antes da abolição, muitos acreditavam que a liberdade dos negros traria caos: “turbas ignaras”, “ociosidade”, “destruição da produção”.
- Após a abolição, esses temores não se concretizaram e o país continuou seu desenvolvimento.
Em seguida, ele faz um paralelo com as cotas raciais:
- Argumentos contrários diziam que as cotas exacerbariam conflitos raciais.
- Décadas depois, esses medos não se confirmaram: não houve exacerbação racial significativa.
Assim, o autor sugere que ontem, como hoje, os argumentos contrários a mudanças sociais importantes se mostraram historicamente equivocados.
✅ Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) politicamente ignoradas. 🔴
Errado. O autor não afirma que os argumentos contrários foram politicamente ignorados. Pelo contrário, eles foram ouvidos e debatidos, mas se mostraram equivocados historicamente.
Como ficaria certa? → Se o texto dissesse que a sociedade ou o governo optaram por ignorar os argumentos políticos contrários às cotas.
B) socialmente justificadas. 🔴
Errado. O autor não justifica esses argumentos, mas critica-os, mostrando que foram incorretos ao longo da história.
Como ficaria certa? → Se o autor defendesse que, mesmo erradas, as críticas eram socialmente justificáveis naquele contexto.
C) culturalmente qualificadas. 🔴
Errado. Não há menção a uma qualificação cultural dos argumentos, mas sim a uma crítica histórica.
Como ficaria certa? → Se o texto avaliasse que tais argumentos tinham respaldo em valores culturais da época, o que não ocorre.
D) historicamente equivocadas. 🟢
Correto. O autor demonstra, com base em eventos históricos (abolição e cotas), que os argumentos contrários a mudanças sociais importantes foram equivocados ao longo do tempo. Assim, a crítica é histórica e fundamentada na experiência.
E) economicamente fundamentadas. 🔴
Errado. Embora argumentos econômicos possam ter sido usados contra as cotas, o autor não destaca esse aspecto, mas sim a falha histórica desses argumentos.
Como ficaria certa? → Se o texto defendesse que a oposição às cotas se baseava essencialmente em fundamentos econômicos, o que não é o caso aqui.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
O autor, por meio de uma analogia histórica, demonstra que os argumentos contrários às cotas raciais se assemelham àqueles contra a abolição da escravidão: previsões de caos que não se concretizaram. Assim, esses argumentos podem ser classificados como historicamente equivocados, justificando a escolha da alternativa D.