Questão 30, caderno branco (09) do ENEM PPL 2015

Após ter examinado cuidadosamente todas as coisas, cumpre enfim concluir e ter por constante que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira todas as vezes que a enuncio ou que a concebo em meu espírito.

DESCARTES, R. Meditações. Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

A proposição “eu sou, eu existo” corresponde a um dos momentos mais importantes na ruptura da filosofia do século XVII com os padrões da reflexão medieval, por

A) estabelecer o ceticismo como opção legítima.

B) utilizar silogismos linguísticos como prova ontológica.

C) inaugurar a posição teórica conhecida como empirismo.

D) estabelecer um princípio indubitável para o conhecimento.

E) questionar a relação entre a filosofia e o tema da existência de Deus.

Resolução Em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

História da Filosofia, Filosofia Moderna, Racionalismo, Filosofia de René Descartes.

🎯 Nível da Questão: Médio — exige conhecimento específico sobre a Filosofia Moderna e o papel do “Cogito” na obra de Descartes, mas não envolve interpretação textual complexa.

✅ Gabarito: D) estabelecer um princípio indubitável para o conhecimento.

🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificar a importância filosófica do princípio indubitável de Descartes (“Penso, logo existo”) e sua ruptura com a tradição medieval.


📖 Resolução Passo a Passo

Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

O comando propõe identificar qual foi a importância da proposição “eu sou, eu existo” na ruptura da Filosofia Moderna com a tradição medieval.

➡️ Palavras-chave importantes:

  • “ruptura da filosofia do século XVII com os padrões da reflexão medieval”
  • “eu sou, eu existo”

➡️ O que o comando quer?
Que você perceba como essa frase marca uma mudança radical no modo de pensar. A filosofia medieval baseava-se principalmente na autoridade da tradição e da teologia, enquanto Descartes busca um princípio de certeza absoluta por meio do uso da razão, superando a dúvida.

➡️ Objetivo da questão:
Identificar qual das alternativas melhor expressa esse papel de fundamento inabalável que Descartes buscou estabelecer com o “Cogito”.

❓ Dúvida Comum: “Descartes criou um ceticismo absoluto?” ou “Descartes é o pai do empirismo?”
👉 Não! A dúvida de Descartes é metodológica, não absoluta. Além disso, sua filosofia funda o racionalismo, não o empirismo.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

➡️ Cogito ergo sum (“Penso, logo existo”):
Proposição fundamental da Filosofia Moderna, elaborada por René Descartes nas “Meditações Metafísicas”. Marca a busca por um fundamento inquestionável do conhecimento.

➡️ Dúvida metódica:
Estratégia de Descartes para duvidar de tudo que fosse possível, até encontrar algo que fosse absolutamente indubitável. O ponto que resistiu foi: se duvido, penso; e se penso, existo.

➡️ Ruptura com a Filosofia Medieval:
Enquanto a filosofia medieval partia da confiança nas verdades reveladas por Deus e na tradição aristotélico-tomista, Descartes propôs que a razão humana, sozinha, poderia fundamentar o conhecimento, a partir de uma certeza inabalável.

➡️ Princípio indubitável:
O “eu penso, logo existo” não depende de experiência sensorial, tradição ou autoridade religiosa, mas exclusivamente da capacidade racional de pensar.


Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

➡️ Frase central:
“eu sou, eu existo” é verdadeira sempre que penso ou concebo essa proposição.

➡️ O que isso significa?
Significa que mesmo que tudo possa ser colocado em dúvida — os sentidos, o mundo externo, até mesmo Deus — a única certeza que não pode ser negada é a existência do próprio sujeito que pensa.

➡️ Interpretação geral:
Esse fragmento expressa o núcleo da filosofia cartesiana: a busca de um fundamento absolutamente certo para construir todo o conhecimento. Essa certeza inaugura o racionalismo moderno e rompe com a tradição filosófica anterior, que partia da autoridade religiosa e dos sentidos.


Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução

A) estabelecer o ceticismo como opção legítima
🔴 Errado:
Embora Descartes utilize a dúvida metódica, ele não é um cético. O objetivo não é permanecer na dúvida, mas superá-la para encontrar uma certeza absoluta.

💡 Como ficaria correta?
Se dissesse que Descartes utilizou a dúvida como método temporário, e não como uma posição filosófica definitiva.

B) utilizar silogismos linguísticos como prova ontológica
🔴 Errado:
Descartes usa raciocínio lógico, mas não se trata de um silogismo tradicional ou de uma “prova ontológica”. A prova ontológica clássica é relacionada à existência de Deus, e não ao “eu”.

💡 Como ficaria correta?
Se se referisse à “prova ontológica da existência de Deus”, como na obra de Anselmo de Cantuária, ou ao argumento ontológico em Descartes, que aparece mais adiante, mas não no “eu penso, logo existo”.

C) inaugurar a posição teórica conhecida como empirismo
🔴 Errado:
Descartes é racionalista, acredita que a razão é a principal fonte do conhecimento, e não a experiência sensorial, que é a base do empirismo.

💡 Como ficaria correta?
Se mencionasse a filosofia de John Locke ou David Hume, que são expoentes do empirismo, corrente oposta ao racionalismo cartesiano.

D) estabelecer um princípio indubitável para o conhecimento
🟢 Correta:
Como vimos, a frase “eu sou, eu existo” exprime exatamente esse princípio inquestionável, base para toda construção do saber. Esse é o núcleo da filosofia cartesiana e o maior legado do racionalismo.

➡️ Retoma-se aqui o raciocínio elaborado: frente à dúvida radical, sobra apenas a certeza do sujeito pensante — a única base segura para o conhecimento.

E) questionar a relação entre a filosofia e o tema da existência de Deus
🔴 Errado:
Embora Descartes aborde a existência de Deus em outras partes de sua obra, neste momento da sua reflexão o foco é estabelecer uma certeza sobre a própria existência, não discutir Deus.

💡 Como ficaria correta?
Se a questão mencionasse a “prova da existência de Deus” ou “a ideia de Deus como garantia da verdade”, pontos que aparecem posteriormente em sua filosofia.


Passo 5: Conclusão e Justificativa Final

A filosofia cartesiana inaugura a Modernidade ao romper com a tradição medieval, colocando a razão e a busca por um princípio indubitável como centro do saber. O “eu penso, logo existo” é a expressão máxima dessa certeza absoluta, que não pode ser negada nem mesmo pela dúvida mais radical.

Por isso, a alternativa D está correta: “estabelecer um princípio indubitável para o conhecimento”.

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