Questão 26, caderno branco (09) do ENEM PPL 2015

A pura lealdade na amizade, embora até o presente não tenha existido nenhum amigo leal, é imposta a todo homem, essencialmente, pelo fato de tal dever estar implicado como dever em geral, anteriormente a toda experiência, na ideia de uma razão que determina a vontade segundo princípios a priori.

KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. São Paulo: Barcarolla, 2009.

A passagem citada expõe um pensamento caracterizado pela

A) eficácia prática da razão empírica.

B) transvaloração dos valores judaico-cristãos.

C) recusa em fundamentar a moral pela experiência.

D) comparação da ética a uma ciência de rigor matemático.

E) importância dos valores democráticos nas relações de amizade.

📝 Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução

  • Filosofia: Ética kantiana — deontologia, imperativo categórico.
  • História: Iluminismo — valorização da razão e sua influência nas concepções morais modernas.

TEMA/OBJETIVO GERAL: Ética Kantiana: a fundamentação racional e a exclusão da experiência como base moral.
Esta questão explora a base teórica da ética kantiana, exigindo que o estudante reconheça a recusa da experiência como fundamento da moral, em favor de uma razão prática pura.

🎚️ Nível da Questão: Médio

✅ Gabarito: C) recusa em fundamentar a moral pela experiência


📖 Resolução Passo a Passo

🔹 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Trecho base:
“A pura lealdade na amizade […] é imposta […] anteriormente a toda experiência, na ideia de uma razão que determina a vontade segundo princípios a priori.”

➡️ O comando da questão quer saber qual característica do pensamento está presente nesse trecho.
➡️ Palavras-chave:

  • “anteriormente a toda experiência” → significa que o fundamento é a priori.
  • “razão que determina a vontade” → indica um modelo racional de ética.

👉 O que se quer:
Identificar a característica central da ética kantiana expressa nesse excerto.

✅ Objetivo Cristalino:
Perceber que Kant recusa a fundamentação empírica da moral, ou seja, não fundamenta a moral na experiência, mas na razão.

❓ DÚVIDA COMUM: “Será que Kant recusa toda e qualquer experiência na ética ou apenas a coloca como algo secundário?”
Essa é uma dúvida muito comum: Kant não nega que vivemos experiências, mas sustenta que os princípios morais não podem ser fundamentados na experiência — eles são independentes dela.


📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para resolver a questão, é necessário compreender:

✅ 1. A diferença entre “a priori” e “a posteriori”

  • A priori: conhecimento independente da experiência.
  • A posteriori: conhecimento baseado na experiência.

✅ 2. A ética deontológica de Kant

  • Não é teleológica (não visa a um fim, como felicidade).
  • É baseada no dever: age-se corretamente porque é correto, não pelo resultado.
  • Fundamenta-se na razão pura: princípios universais, necessários e independentes da experiência.

✅ 3. O imperativo categórico

  • Regra moral universal: “Age apenas segundo uma máxima que possas querer que se torne lei universal.”
  • Exemplo: ser leal não porque resulta bem, mas porque é um dever racional.

📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

O texto expressa:

➡️ “Pura lealdade” → A amizade é valorizada como um dever racional, não por seus benefícios.
➡️ “anteriormente a toda experiência” → A moral existe antes e independentemente da vivência empírica.
➡️ “razão que determina a vontade segundo princípios a priori” → A vontade moralmente correta é determinada pela razão, não pelos sentimentos ou conveniências.

👉 Interpretação central:
Kant afirma que a moralidade é uma obrigação racional e universal, independente das circunstâncias vividas ou dos interesses pessoais.


📖 Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução

A) Eficácia prática da razão empírica 🔴
➡️ Errado! Kant separa razão empírica (baseada na experiência) da razão prática pura (que fundamenta a moral).
Como ficaria correta? → Se dissesse “eficácia prática da razão pura”, poderia confundir, mas não seria ideal.

B) Transvaloração dos valores judaico-cristãos 🔴
➡️ Errado! Essa expressão é típica de Nietzsche, que critica e propõe inverter os valores morais. Kant não faz isso; ele quer uma fundamentação racional e universal para a moral.
Como ficaria correta? → Se fosse uma questão sobre Nietzsche, e falasse da “reavaliação crítica dos valores morais tradicionais”.

C) Recusa em fundamentar a moral pela experiência 🟢
➡️ Correta! O texto fala de uma moral fundamentada “anteriormente a toda experiência”, ou seja, recusa a experiência como base moral.
Perfeito, essa é a essência da ética kantiana: dever e razão, não consequências ou vivências.

D) Comparação da ética a uma ciência de rigor matemático 🔴
➡️ Errado! Kant usa uma estrutura racional, mas não afirma que a ética é idêntica a uma ciência matemática. Sua preocupação é com a universalidade e necessidade, não com rigor matemático estrito.
Como ficaria correta? → Se dissesse “fundamentação racional universal”, sem associar diretamente à matemática.

E) Importância dos valores democráticos nas relações de amizade 🔴
➡️ Errado! Kant não fala de valores democráticos nem usa a democracia como base de sua ética. O foco é no dever racional, independente de qualquer regime político.
Como ficaria correta? → Se fosse sobre ética política contemporânea ou teoria democrática.


🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final

✅ A alternativa C é a correta porque expressa a essência da ética kantiana: a recusa da experiência como base da moralidade. Para Kant, a moral deve ser fundamentada em princípios racionais a priori, universais e necessários, e não em interesses, convenções ou resultados empíricos.

Esse modelo é absolutamente central na filosofia moral moderna e distingue Kant de teorias consequencialistas ou utilitaristas.

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