Assum preto
Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do assum preto
Pra ele assim, ai, cantá mió
Assum preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil veiz a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá
GONZAGA, L.; TEIXEIRA, H. Disponível em: www.luizgonzaga.mus.br. Acesso em: 30 jul. 2012 (fragmento).
As marcas da variedade regional registradas pelos compositores de Assum preto resultam da aplicação de um conjunto de princípios ou regras gerais que alteram a pronúncia, a morfologia, a sintaxe ou o léxico. No texto, é resultado de uma mesma regra a
a) pronúncia das palavras “vorta” e “veve”.
b) pronúncia das palavras “tarvez” e “sorto”.
c) flexão verbal encontrada em “furaro” e “cantá”.
d) redundância nas expressões “cego dos óio” e “mata em frô”.
e) pronúncia das palavras “ignorança” e “avuá”.

Resolução em texto
📘 Matérias Necessárias: Linguística (Variedades Regionais), Fonologia do Português Brasileiro
📔 Nível da Questão: Médio (ENEM)
✅ Gabarito: B) pronúncia das palavras “tarvez” e “sorto”
🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificar a regra fonológica que explica variantes regionais em palavras como talvez → tarvez e solto → sorto.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 Retomar o Comando da Questão
📌 “No texto, é resultado de uma mesma regra a ____.”
1.2 O que está sendo pedido?
📌 Indicar qual par de palavras do fragmento demonstra a aplicação de um único fenômeno fonológico típico do falar regional.
1.3 Objetivo Cristalino
📌 Reconhecer que tanto talvez [talˈvɛz] → tarvez [taʁˈvɛz] quanto solto [ˈsɔl.tu] → sorto [ˈsɔʁ.tu] decorrem da mesma substituição do fonema lateral /l/ pelo fonema vibrante /ʁ/.
1.4 Identificação de Palavras-Chave
📌 “tarvez” (de talvez), “sorto” (de solto), “variedade regional”, “alteram a pronúncia”.
1.5 ✔ Pergunta de Atenção
Você notou que, em ambos os casos, o fonema /l/ muda para /r/, mesmo ocorrendo em posições diferentes (inicial de sílaba em talvez, final de sílaba em solto)?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 Rotacismo (L → R)
📌 Na fala nordestina (e em outras variedades), é comum substituir o fonema lateral alveolar /l/ pelo fonema vibrante alveolar /ʁ/, fenômeno chamado rotacismo.
2.2 Contexto Fonológico
📌 Esse fenômeno ocorre quer o /l/ esteja em inicial de sílaba (tal-) ou em final de sílaba (-sol-), levando a variantes como tarvez e sor-to.
❓ Dúvida Única
“E quanto a outras consoantes, como /d/ ou /t/? Elas também mudam?”
✔ Não: o texto não apresenta mudanças de /d/ ou /t/, mas enfatiza consistentemente o L → R como traço característico.
✔ Pergunta de Atenção
Repare como essa mesma regra fonológica explica ambos os casos, apesar de talvez e solto nascerem de palavras diferentes.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
- “Tarvez por ignorança” → talvez (“TAL-vez”) vira tar-vez (“TAR-vez”), substituindo /l/ por /r/.
- “Assum preto veve sorto” → solto (“SOL-to”) vira sor-to (“SOR-to”), novamente /l/ → /r/.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Talvez e solto contêm o fonema lateral /l/.
- Em ambas as palavras, na variedade nordestina “cantada” por Gonzaga, esse /l/ é rotacizado para /r/.
- Portanto, tarvez e sorto são produções fonológicas paralelas, comuns em registros regionais.
Passo 5: Resolução e Análise das Alternativas
- A) pronúncia das palavras “vorta” e “veve”.
- Quando seria correta? Se o enunciado destacasse a troca de /l/ por /r/ em volta → vorta e velha → verê.
- Por que aqui é incorreta? “Veve” vem de teve, e aí não há /l/ envolvido; o fenômeno de L → R só incide em “vorta”, não em “veve”.
- B) pronúncia das palavras “tarvez” e “sorto”.
- Cenário de coerência: Ambas advêm de talvez e solto, onde o fonema /l/ foi rotacizado para /r/.
- Conclusão: Correta.
- C) flexão verbal encontrada em “furaro” e “cantá”.
- Quando seria correta? Se o foco fosse regras de formação de pretérito (“furar” → “furara”) e de infinitivo nasalizado.
- Por que aqui é incorreta? Embora observe morfologia verbal regional, não é a mesma regra em ambos: “furaro” é analogia de particípio, “cantá” é infinitivo; fenômenos distintos.
- D) redundância nas expressões “cego dos óio” e “mata em frô”.
- Quando seria correta? Se o texto destacasse repetição de ideias (“cego dos olhos” e “mata em flor”).
- Por que aqui é incorreta? “dos óio” e “mata em frô” não são redundâncias, mas simples variações regionais de plural e de timbre vocálico.
- E) pronúncia das palavras “ignorança” e “avuá”.
- Quando seria correta? Se ambas revelassem a mesma transformação de consoantes ou vogais, como nasalização.
- Por que aqui é incorreta? “Ignorança” mantém pronúncia padrão; “avuá” vem de voar, mas envolve supressão de consoante e mudança de clustêr, regra distinta.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1. Resumo do Raciocínio
📌 O poema evidencia o rotacismo (/l/ → /r/) como traço fonológico único que transforma talvez em tarvez e solto em sorto.
6.2. Alternativa Correta
✅ B) pronúncia das palavras “tarvez” e “sorto”.
6.3. 🔍 Resumo Final para Revisão
A variedade nordestina frequentemente substitui o fonema lateral alveolar /l/ pelo vibrante /r/, criando padrões como tarvez e sorto – um exemplo clássico de variação regional da língua.