Exmº Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
[…]
ADMINISTRAÇÃO Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama.
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS
RAMOS, G. Viventes das Alagoas. São Paulo: Martins Fontes, 1962.
O relatório traz a assinatura de Graciliano Ramos, na época, prefeito de Palmeira dos Índios, e é destinado ao governo do estado de Alagoas. De natureza oficial, o texto chama a atenção por contrariar a norma prevista para esse gênero, pois o autor
a) emprega sinais de pontuação em excesso.
b) recorre a termos e expressões em desuso no português.
c) apresenta-se na primeira pessoa do singular, para conotar intimidade com o destinatário.
d) privilegia o uso de termos técnicos, para demonstrar conhecimento especializado.
e) expressa-se em linguagem mais subjetiva, com forte carga emocional.

Resolução em texto
📘 Matérias Necessárias: Redação Oficial, Análise de Estilo e Linguagem
📔 Nível da Questão: Médio (ENEM)
✅ Gabarito: E) expressa-se em linguagem mais subjetiva, com forte carga emocional.
🎯 Tema/Objetivo Geral: Mostrar como o relatório oficial de Graciliano Ramos foge à impessoalidade esperada, adotando traços subjetivos e irônicos.
🔹 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 Retomar o Comando da Questão
📌 “O texto… é destinado ao governo do estado… e contraria a norma prevista para esse gênero, pois o autor ____.”
1.2 O que está sendo pedido?
📌 Identificar qual desvio do estilo impessoal e objetivo oficial aparece no relatório.
1.3 Objetivo Cristalino
📌 Reconhecer que, em vez de manter o tom neutro, o prefeito introduz subjetividade e carga emocional (ironia, humor crítico).
1.4 Identificação de Palavras-Chave
📌 “telegramas custaram pouco… pode-se ver… proclamando… badalados… o deputado F. esticou a canela – um telegrama.”
✔ Pergunta de Atenção
Você notou o tom de escárnio, o tom de comédia ácida ao relatar “telegrama porque derrubaram a Bastilha”? Isso foge de um relatório seco!
🔹 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 Gênero Relatório Oficial
📌 Caracteriza-se por linguagem impessoal, neutra, objetiva e sem juízo de valor.
2.2 Subjetividade e Carga Emocional
📌 Uso de ironia, adjetivos valorativos e humor crítico torna o texto subjetivo.
❓ Dúvida Única
“Mas existem relatórios históricos que usam discurso elogioso; isso também seria subjetivo?”
✔ Sim, mas ainda assim costumam aderir a um elogio protocolar e evitam sarcasmo. Aqui, o humor crítico e o julgamento (“considerável”, “badalados”) ultrapassam o formalismo.
✔ Pergunta de Atenção
Repare na escolha de eventos triviais (“deitou pedra na rua”, “esticou a canela”) para ridicularizar o excesso de comunicação oficial — isso é puro tom pessoal!
🔹 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
- O relato enumera gastos com telegramas de forma satírica.
- Destaca-se a repetição irônica (“porque se derrubou a Bastilha – um telegrama”).
- O autor critica a ostentação de informar tudo ao governo, usando humor.
🔹 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Expectativa: relatório oficial impessoal.
- Realidade: uso de ironia, adjetivos subjetivos (“considerável”, “badalados”).
- Efeito: o texto transmite opinião e emoção, não pura informação.
🔹 Passo 5: Resolução e Análise das Alternativas
A) Emprega sinais de pontuação em excesso.
- Quando estaria correta? Se o texto usasse reticências, travessões ou vírgulas de forma exagerada sem propósito estilístico.
- Por que é incorreta? A pontuação serve ao tom irônico, mas não é excessiva além do aceitável; não é o desvio principal.
B) Recorrere a termos e expressões em desuso no português.
- Quando estaria correta? Se encontrássemos arcaísmos voluntários, como “vossigoria” ou “dond’estes”.
- Por que é incorreta? O vocabulário é contemporâneo (1929), sem arcaísmos; a casualidade vem do humor, não do léxico obsoleto.
C) Apresenta-se na primeira pessoa do singular, para conotar intimidade com o destinatário.
- Quando poderia estar correta? Se o texto contivesse “eu fiz”, “achei”, “gostaria de dizer”.
- Por que é incorreta? Embora venha de Graciliano Ramos, mantém 3ª pessoa (“os telegramas custaram”), não “eu”.
D) Privilegia o uso de termos técnicos, para demonstrar conhecimento especializado.
- Quando estaria correta? Num relatório de obras públicas usando jargões de engenharia ou orçamentários detalhados.
- Por que é incorreta? Aqui, o autor é irônico, lista eventos triviais e não usa qualquer tecnicismo.
E) Expressa-se em linguagem mais subjetiva, com forte carga emocional.
- Cenário de coerência: Ironia, humor, avaliação crítica, escolha de exemplos prosaicos e valorativos.
- Conclusão: Correta.
🔹 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1 Resumo do Raciocínio
📌 Graciliano Ramos subverteu o tom neutro do relatório oficial ao usar ironia, humor crítico e juízos de valor, conferindo-lhe subjetividade e carga emocional.
6.2 Alternativa Correta
✅ E) expressa-se em linguagem mais subjetiva, com forte carga emocional.
6.3 🔍 Resumo Final para Revisão
Relatórios formais demandam impessoalidade; aqui o prefeito emprega sarcasmo ao narrar telegramas inúteis, transformando o documento em crítica pessoal e sátira política.