Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto muito dinheiro, precisava casar, mas casar com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres modernas para o adultério, uma menina que até chorava na aula simplesmente por não ter respondido a uma pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso esporádico, uma verdadeira exceção no meio de uma sociedade roída por quanto vício há no mundo. Ia concluir o curso, e, quando voltasse ao Ceará, pensaria seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha, mas inocente…
CAMINHA, A. A normalista. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 16 maio 2016.
Alinhado às concepções do Naturalismo, o fragmento do romance de Adolfo Caminha, de 1893, identifica e destaca nos personagens um(a)
A) compleição moral condicionada ao poder aquisitivo.
B) temperamento inconstante incompatível com a vida conjugal.
C) formação intelectual escassa relacionada a desvios de conduta.
D) laço de dependência ao projeto de reeducação de inspiração positivista.
E) sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.

Resolução em texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura brasileira, Naturalismo, Análise de discurso, Relações de poder e gênero.
📔 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
E) sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Compreender como o Naturalismo retrata personagens condicionados pelo meio social e pelas ideias de gênero predominantes na época.
🔷 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Comando da Questão:
“O fragmento do romance de Adolfo Caminha, de 1893, identifica e destaca nos personagens um(a)…”
📌 Explicação Detalhada:
A pergunta busca saber qual traço típico do Naturalismo é mais evidente no trecho lido. O foco está na maneira como o narrador representa a mulher e a estrutura da sociedade, através do ponto de vista do personagem masculino.
📌 Palavras-chave:
- “Naturalismo”
- “personagens”
- “destaca”
- “modelo”
📌 Objetivo:
Analisar como o fragmento expressa a visão naturalista sobre o comportamento humano, focando na forma como estratificações sociais e de gênero moldam o julgamento do personagem sobre o que seria uma mulher ideal.
Agora que sabemos o foco da questão, vamos entender o que o Naturalismo defendia e como isso se manifesta no fragmento.
🔷 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📌 1. O que é Naturalismo?
✔ Movimento literário do fim do século XIX.
✔ Inspirado pelas ciências biológicas e sociais (Darwin, Taine, positivismo).
✔ Mostra o ser humano como produto do meio, da hereditariedade e do momento histórico.
📌 2. Determinismo social e de gênero
✔ A ideia de que o comportamento humano é condicionado por fatores externos, como classe social, gênero, ambiente familiar e cultura.
✔ O homem naturalista julga a mulher segundo papéis fixos: ou ela é “pura” e destinada ao casamento, ou é “promíscua” e descartável.
✔ Isso reforça estereótipos de gênero, típicos de uma sociedade patriarcal.
📌 3. Visão científica da moral
✔ A moral no Naturalismo é muitas vezes associada a fatores biológicos e sociais, não à escolha consciente.
✔ Isso gera uma leitura impessoal e crítica da sociedade, como se os personagens fossem “casos” a serem observados como experiências científicas.
🔷 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📌 Análise do Contexto:
O personagem masculino julga mulheres com base em critérios morais rigidamente associados à pobreza e à ingenuidade. Ele acredita que “moças pobres” seriam naturalmente mais puras, enquanto as de “vida alegre” são descartáveis.
📌 Frases-chave:
- “detestava-as” (referindo-se às mulheres de vida alegre)
- “porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira”
- “uma menina que até chorava na aula”
- “pobrezinha, mas inocente…”
🔹 Essas expressões evidenciam uma visão estereotipada da mulher, em que seu valor é medido por sua submissão, pobreza e ignorância, traços “valorizados” para fins matrimoniais.
🔹 Há uma oposição entre a “mulher para casar” e a “mulher para usar”, um modelo de gênero rigidamente binário, típico da sociedade patriarcal e retratado criticamente pelo Naturalismo.
🔷 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 O que o Naturalismo faz aqui?
✔ Retrata o personagem masculino não como um herói romântico, mas como alguém movido por preconceitos de classe e de gênero.
✔ Ele julga as mulheres não por suas ações, mas por seu contexto social: pobreza = pureza; vida alegre = impureza.
📌 Que crítica está implícita?
✔ O autor mostra um homem que projeta sobre Maria do Carmo o ideal feminino submisso, reforçando um tipo de visão machista e funcionalista da mulher: ela serve para o casamento por ser “inocente”, “pobrezinha”, “meiga”.
✔ A sociedade não oferece alternativas reais de emancipação feminina, e sim aprisiona a mulher em modelos de virtude e castidade, exigidos especialmente das mais pobres.
Com esse raciocínio bem formulado, vamos testar todas as alternativas e ver qual é, de fato, a mais compatível.
🔷 Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
📌 Reescrita e Análise das Alternativas:
- A) compleição moral condicionada ao poder aquisitivo.
❌ Quase correta, mas o foco está apenas no dinheiro, quando o Naturalismo trabalha também com gênero e papéis sociais. Reduz a leitura. - B) temperamento inconstante incompatível com a vida conjugal.
❌ Incorreta. Maria do Carmo é vista como constante, submissa e ideal, o que o personagem valoriza. - C) formação intelectual escassa relacionada a desvios de conduta.
❌ Errada. Aqui ocorre o oposto: o personagem associa a falta de intelectualidade à pureza, e não ao desvio. - D) laço de dependência ao projeto de reeducação de inspiração positivista.
❌ Confusa e fora de foco. A questão não trata de reeducação ou positivismo explícito. - E) sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.
✅ Perfeita. O fragmento revela como o narrador enxerga Maria do Carmo como ideal feminino porque ela se encaixa no estereótipo de mulher pobre e recatada. Essa análise está 100% alinhada com o Naturalismo, que mostra o ser humano como produto de forças sociais e biológicas que o moldam e o classificam.
🔷 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Resumo do Raciocínio:
O personagem julga as mulheres com base em critérios morais e sociais rígidos, que privilegiam a pobreza e a submissão. Isso demonstra uma sujeição aos modelos de gênero e classe impostos pela sociedade patriarcal, tema típico da estética naturalista.
📌 Reafirmação da Alternativa Correta:
✅ Alternativa E – sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.
🔍 Resumo Final:
No Naturalismo, personagens são condicionados por forças sociais. Aqui, o homem deseja casar com alguém “pobrezinha, mas inocente”, o que revela uma sociedade que dita o valor da mulher com base na classe social e na submissão feminina. O autor não endossa essa visão — ele a expõe criticamente, tornando esse retrato um exemplo claro da visão determinista da época.