Questão 37, caderno azul do ENEM PPL 2018

Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto muito dinheiro, precisava casar, mas casar com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres modernas para o adultério, uma menina que até chorava na aula simplesmente por não ter respondido a uma pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso esporádico, uma verdadeira exceção no meio de uma sociedade roída por quanto vício há no mundo. Ia concluir o curso, e, quando voltasse ao Ceará, pensaria seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha, mas inocente…

CAMINHA, A. A normalista. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 16 maio 2016.

Alinhado às concepções do Naturalismo, o fragmento do romance de Adolfo Caminha, de 1893, identifica e destaca nos personagens um(a)

A) compleição moral condicionada ao poder aquisitivo.

B) temperamento inconstante incompatível com a vida conjugal.

C) formação intelectual escassa relacionada a desvios de conduta.

D) laço de dependência ao projeto de reeducação de inspiração positivista.

E) sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.

Resolução em texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura brasileira, Naturalismo, Análise de discurso, Relações de poder e gênero.

📔 Nível da Questão:
Médio

✅ Gabarito:
E) sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.

🎯 Tema/Objetivo Geral:
Compreender como o Naturalismo retrata personagens condicionados pelo meio social e pelas ideias de gênero predominantes na época.


🔷 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📌 Comando da Questão:

“O fragmento do romance de Adolfo Caminha, de 1893, identifica e destaca nos personagens um(a)…”

📌 Explicação Detalhada:

A pergunta busca saber qual traço típico do Naturalismo é mais evidente no trecho lido. O foco está na maneira como o narrador representa a mulher e a estrutura da sociedade, através do ponto de vista do personagem masculino.

📌 Palavras-chave:
  • “Naturalismo”
  • “personagens”
  • “destaca”
  • “modelo”
📌 Objetivo:

Analisar como o fragmento expressa a visão naturalista sobre o comportamento humano, focando na forma como estratificações sociais e de gênero moldam o julgamento do personagem sobre o que seria uma mulher ideal.

Agora que sabemos o foco da questão, vamos entender o que o Naturalismo defendia e como isso se manifesta no fragmento.


🔷 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

📌 1. O que é Naturalismo?

✔ Movimento literário do fim do século XIX.
✔ Inspirado pelas ciências biológicas e sociais (Darwin, Taine, positivismo).
✔ Mostra o ser humano como produto do meio, da hereditariedade e do momento histórico.

📌 2. Determinismo social e de gênero

✔ A ideia de que o comportamento humano é condicionado por fatores externos, como classe social, gênero, ambiente familiar e cultura.
✔ O homem naturalista julga a mulher segundo papéis fixos: ou ela é “pura” e destinada ao casamento, ou é “promíscua” e descartável.
✔ Isso reforça estereótipos de gênero, típicos de uma sociedade patriarcal.

📌 3. Visão científica da moral

✔ A moral no Naturalismo é muitas vezes associada a fatores biológicos e sociais, não à escolha consciente.
✔ Isso gera uma leitura impessoal e crítica da sociedade, como se os personagens fossem “casos” a serem observados como experiências científicas.


🔷 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

📌 Análise do Contexto:

O personagem masculino julga mulheres com base em critérios morais rigidamente associados à pobreza e à ingenuidade. Ele acredita que “moças pobres” seriam naturalmente mais puras, enquanto as de “vida alegre” são descartáveis.

📌 Frases-chave:
  • “detestava-as” (referindo-se às mulheres de vida alegre)
  • “porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira”
  • “uma menina que até chorava na aula”
  • “pobrezinha, mas inocente…”

🔹 Essas expressões evidenciam uma visão estereotipada da mulher, em que seu valor é medido por sua submissão, pobreza e ignorância, traços “valorizados” para fins matrimoniais.

🔹 Há uma oposição entre a “mulher para casar” e a “mulher para usar”, um modelo de gênero rigidamente binário, típico da sociedade patriarcal e retratado criticamente pelo Naturalismo.


🔷 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

📌 O que o Naturalismo faz aqui?

✔ Retrata o personagem masculino não como um herói romântico, mas como alguém movido por preconceitos de classe e de gênero.
✔ Ele julga as mulheres não por suas ações, mas por seu contexto social: pobreza = pureza; vida alegre = impureza.

📌 Que crítica está implícita?

✔ O autor mostra um homem que projeta sobre Maria do Carmo o ideal feminino submisso, reforçando um tipo de visão machista e funcionalista da mulher: ela serve para o casamento por ser “inocente”, “pobrezinha”, “meiga”.

✔ A sociedade não oferece alternativas reais de emancipação feminina, e sim aprisiona a mulher em modelos de virtude e castidade, exigidos especialmente das mais pobres.

Com esse raciocínio bem formulado, vamos testar todas as alternativas e ver qual é, de fato, a mais compatível.


🔷 Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução

📌 Reescrita e Análise das Alternativas:
  • A) compleição moral condicionada ao poder aquisitivo.
    ❌ Quase correta, mas o foco está apenas no dinheiro, quando o Naturalismo trabalha também com gênero e papéis sociais. Reduz a leitura.
  • B) temperamento inconstante incompatível com a vida conjugal.
    ❌ Incorreta. Maria do Carmo é vista como constante, submissa e ideal, o que o personagem valoriza.
  • C) formação intelectual escassa relacionada a desvios de conduta.
    ❌ Errada. Aqui ocorre o oposto: o personagem associa a falta de intelectualidade à pureza, e não ao desvio.
  • D) laço de dependência ao projeto de reeducação de inspiração positivista.
    ❌ Confusa e fora de foco. A questão não trata de reeducação ou positivismo explícito.
  • E) sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.
    ✅ Perfeita. O fragmento revela como o narrador enxerga Maria do Carmo como ideal feminino porque ela se encaixa no estereótipo de mulher pobre e recatada. Essa análise está 100% alinhada com o Naturalismo, que mostra o ser humano como produto de forças sociais e biológicas que o moldam e o classificam.

🔷 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

📌 Resumo do Raciocínio:

O personagem julga as mulheres com base em critérios morais e sociais rígidos, que privilegiam a pobreza e a submissão. Isso demonstra uma sujeição aos modelos de gênero e classe impostos pela sociedade patriarcal, tema típico da estética naturalista.

📌 Reafirmação da Alternativa Correta:

✅ Alternativa E – sujeição a modelos representados por estratificações sociais e de gênero.

🔍 Resumo Final:

No Naturalismo, personagens são condicionados por forças sociais. Aqui, o homem deseja casar com alguém “pobrezinha, mas inocente”, o que revela uma sociedade que dita o valor da mulher com base na classe social e na submissão feminina. O autor não endossa essa visão — ele a expõe criticamente, tornando esse retrato um exemplo claro da visão determinista da época.

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