Questão 39, caderno azul do ENEM PPL 2018

Ela parecia pedir socorro contra o que de algum modo involuntariamente dissera. E ele com os olhos miúdos quis que ela não fugisse e falou:
— Repita o que você disse, Lóri.
— Não sei mais.
— Mas eu sei, eu vou saber sempre. Você literalmente disse: um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa, mas seremos um só.
— Sim.
Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta? Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo.

LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990.

A obra de Clarice Lispector alcança forte expressividade em razão de determinadas soluções narrativas. No fragmento, o processo que leva a essa expressividade fundamenta-se no

A) desencontro estabelecido no diálogo do par amoroso.

B) exercício de análise filosófica conduzido pelo narrador.

C) registro do processo de autoconhecimento da personagem.

D) discurso fragmentado como reflexo de traumas psicológicos.

E) afastamento da voz narrativa em relação aos dramas existenciais.

Resolução em texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura brasileira, análise narrativa, fluxo de consciência, introspecção e subjetividade.

📔 Nível da Questão:
Difícil (pela intensidade filosófica e psicológica do texto)

✅ Gabarito:
C) registro do processo de autoconhecimento da personagem.

🎯 Tema/Objetivo Geral:
Identificar como o texto de Clarice Lispector expressa o autoconhecimento através de uma estrutura narrativa introspectiva e fragmentada.


🔷 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📌 Comando da Questão:

“No fragmento, o processo que leva à expressividade fundamenta-se no…”

📌 Explicação Detalhada:

A pergunta exige que identifiquemos qual elemento estrutural ou estilístico garante a força expressiva do texto de Clarice Lispector, ou seja, aquilo que dá profundidade à escrita e à emoção.

📌 Palavras-chave:
  • “expressividade”
  • “fundamenta-se no”
  • “fragmento”
📌 Objetivo:

Compreender como o texto constrói o processo de autoconhecimento da personagem Lóri, por meio de seu discurso interior, de suas emoções conflitantes e da sua rejeição à felicidade.

Agora que compreendemos a proposta da questão, vamos relembrar os conceitos fundamentais para resolver com segurança.


🔷 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

📌 1. Autoconhecimento na literatura clariciana:

✔ Tema recorrente em Clarice Lispector.
✔ Os personagens vivem processos intensos de descoberta de si, como se estivessem se despindo emocionalmente.
✔ Não há uma ação externa grandiosa, mas dramas profundos dentro da alma.

📌 2. Fluxo de consciência:

✔ Técnica que permite acesso direto ao pensamento da personagem.
✔ Pensamentos não-linearizados, subjetivos, emocionais e reflexivos.
✔ Em vez de narrar ações, Clarice narra a forma como a personagem sente e interpreta o mundo.

📌 3. A felicidade como conflito:

✔ No texto, a felicidade não é acolhida de imediato.
✔ Ela é percebida como um risco, um abismo.
✔ Isso provoca um conflito interno — quero ser feliz, mas tenho medo do que isso significa.


🔷 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

📌 Análise do contexto:
  • Lóri e Ulisses estão num momento de entrega emocional e filosófica.
  • O trecho não descreve ações, mas pensamentos fragmentados e intensos.
📌 Frases-chave:
  • “Então isso era a felicidade.”
  • “O amor pela vida mortal a assassinava docemente…”
  • “Que faço da felicidade?”
  • “Prefiro a mediocridade.”
  • “Ele era o perigo.”

🔹 Todas essas frases mostram que a felicidade desencadeia um turbilhão de reflexões em Lóri, onde a experiência emocional se torna insustentável — um paradoxo angustiante.

🔹 Isso revela que o centro da narrativa não está na história externa, mas no que se passa internamente com a personagem.


🔷 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

📌 Clarice Lispector não narra ações tradicionais, mas processos de transformação interior.
📌 A expressividade do texto está no movimento da consciência de Lóri:

✔ Primeiramente, ela reconhece a felicidade;
✔ Em seguida, sente medo dela;
✔ Depois, reflete sobre a condição humana e a mortalidade;
✔ Por fim, recua emocionalmente e abandona Ulisses por medo de “sentir demais”.

📌 Esse movimento é o registro do autoconhecimento: ela experimenta, analisa, recua, sofre e aprende — tudo isso em tempo real com o leitor.

📌 O texto é, portanto, uma jornada interna, não geográfica, e isso define a sua estrutura, estilo e expressividade.


🔷 Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução

✅ Alternativa C: registro do processo de autoconhecimento da personagem.
  • ✔ Exato. O foco é como Lóri lida com seus sentimentos profundos ao experimentar a felicidade.
  • ✔ A linguagem é introspectiva, poética, existencial.
  • ✅ Alternativa correta.

❌ Alternativa A: desencontro estabelecido no diálogo do par amoroso.
  • ❌ Embora exista diálogo, ele é breve e não há conflito direto entre os dois.
  • ❌ O conflito é interno da personagem, não um “desencontro” entre o casal.

❌ Alternativa B: exercício de análise filosófica conduzido pelo narrador.
  • ❌ Não é o narrador quem analisa filosoficamente, é a própria personagem (Lóri).
  • ❌ O foco é a voz interior da personagem, não uma voz narradora externa.

❌ Alternativa D: discurso fragmentado como reflexo de traumas psicológicos.
  • ❌ O discurso é fragmentado sim, mas não se trata de trauma psicológico, e sim de medo existencial e introspecção filosófica.

❌ Alternativa E: afastamento da voz narrativa em relação aos dramas existenciais.
  • ❌ Ao contrário! Há um aprofundamento nos dramas existenciais.
  • ❌ A narrativa mergulha no íntimo da personagem — é o exato oposto do afastamento.

🔷 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

📌 Resumo do Raciocínio:

Clarice Lispector constrói o texto com base em reflexões internas, fragmentos emocionais e filosóficos, revelando como a personagem Lóri experimenta e rejeita a felicidade, por medo de sua profundidade. Essa complexidade é o que torna o texto expressivo.

📌 Reafirmação da Alternativa Correta:

✅ Alternativa C – registro do processo de autoconhecimento da personagem.

🔍 Resumo Final:

A escrita de Clarice Lispector vai além da narrativa convencional. Ela nos convida a mergulhar nos abismos do ser, onde a felicidade pode se transformar em angústia e o amor em silêncio. Lóri representa o ser humano diante da vastidão de sentir — e a coragem de autoconhecer-se é o verdadeiro drama da personagem.

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