Este mês, a reportagem de capa veio do meu umbigo. Ou melhor, veio de um mal-estar que comecei a sentir na barriga. Sou meio italiano, pizzaiolo dos bons, herdei de minha avó uma daquelas velhas máquinas de macarrão a manivela. Cresci à base de farinha de trigo. Aí, do nada, comecei a ter alergias respiratórias que também pareciam estar ligadas à minha dieta. Comecei a peregrinar por médicos. Os exames diziam que não tinha nada errado comigo. Mas eu sentia, pô. Encontrei a resposta numa nutricionista: eu tinha intolerância a glúten e a lactose. Arrivederci, pizza. Tchau, cervejinha.
Notei também que as prateleiras dos mercados de repente ficaram cheias de produtos que pareciam ser feitos para mim: leite, queijo e iogurte sem lactose, bolo, biscoito e macarrão sem glúten. E o mais incrível é que esse setor do mercado parece ser o que está mais cheio de gente. E não é só no Brasil. Parece ser em todo Ocidente industrializado. Inclusive na Itália.
O tal glúten está na boca do povo, mas não está fácil entender a real. De um lado, a imprensa popular faz um escarcéu, sem no entanto explicar o tema a fundo. De outro, muitos médicos ficam na defensiva, insinuando que isso tudo não passa de modismo, sem fundamento científico. Mas eu sei muito bem que não é só modismo — eu sinto na barriga.
O tema é um vespeiro — e por isso julgamos que era hora de meter a colher, para separar o joio do trigo e dar respostas confiáveis às dúvidas que todo mundo tem.
BURGIERMAN, D. R. Tem algo grande aí. Superinteressante, n. 335, jul. 2014 (adaptado)
O gênero editorial de revista contém estratégias argumentativas para convencer o público sobre a relevância da matéria de capa. No texto, considerando a maneira como o autor se dirige aos leitores, constitui uma característica da argumentação desenvolvida o(a)
A) relato pessoal, que especifica o debate do assunto abordado.
B) exemplificação concreta, que desconstrói a generalidade dos fatos.
C) referência intertextual, que recorre a termos da gastronomia.
D) crítica direta, que denuncia o oportunismo das indústrias alimentícias.
E) vocabulário coloquial, que representa o estilo da revista.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de texto
- Estratégias argumentativas
- Gêneros textuais (editorial de revista)
- Tipos de discurso (narrativo, argumentativo)
- Função do relato pessoal na argumentação
🎯 Nível da Questão: Médio.
✅ Gabarito: Letra A.
Resolução Passo a Passo
📖 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
🔍 Comando da questão:
“Constitui uma característica da argumentação desenvolvida o(a)…”
🎯 Objetivo da questão:
Identificar qual é o recurso argumentativo central utilizado pelo autor para engajar o leitor e justificar a escolha do tema da matéria de capa.
🔑 Palavras-chave:
- “maneira como o autor se dirige aos leitores”
- “característica da argumentação”
- “gênero editorial de revista”
Esses termos indicam que a questão foca no modo como o texto busca convencer o leitor, ou seja, na estratégia argumentativa usada no editorial.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📌 Editorial de revista:
Um texto de opinião, geralmente assinado, em que o autor expõe seu ponto de vista sobre um tema atual. Mistura elementos subjetivos e argumentativos.
🗣️ Estratégias argumentativas comuns:
- Relato pessoal: torna o texto mais próximo do leitor e ajuda a contextualizar o problema.
- Exemplificação: reforça argumentos com dados ou casos concretos.
- Vocabulário coloquial: aproxima linguagem e público.
- Crítica direta: usada para posicionamento mais contundente.
- Referência intertextual: inclui outras fontes, referências culturais etc.
📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📃 O texto começa com um relato pessoal:
“veio de um mal-estar que comecei a sentir na barriga […] comecei a peregrinar por médicos […] Encontrei a resposta numa nutricionista”.
Esse relato é o ponto de partida para introduzir a temática da intolerância alimentar, tornando o assunto mais concreto e humano.
🧩 Além disso, o autor comenta que esse incômodo pessoal gerou curiosidade e levou à produção da matéria.
💬 Trecho-chave:
“O tema é um vespeiro — e por isso julgamos que era hora de meter a colher […] e dar respostas confiáveis.”
📌 O tom é pessoal e engajado, e a experiência individual serve como âncora argumentativa para um debate coletivo.
📖 Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
🔸 A) relato pessoal, que especifica o debate do assunto abordado. ✅
✔️ Correta! O texto é todo centrado na experiência pessoal do autor com intolerância alimentar. Esse relato não é gratuito: ele abre caminho para uma reflexão mais ampla, justificando a escolha do tema da matéria.
🔸 B) exemplificação concreta, que desconstrói a generalidade dos fatos. ❌
🔴 Erro: Embora existam exemplos (como os produtos no mercado), eles não são o foco argumentativo principal.
✅ Ficaria certa se o texto trouxesse vários casos concretos alheios ao autor, como dados de pesquisa ou relatos de terceiros.
🔸 C) referência intertextual, que recorre a termos da gastronomia. ❌
🔴 Erro: Apesar de termos como “pizza” e “macarrão” aparecerem, não há intertextualidade real (isto é, diálogo com outros textos).
✅ Estaria correta se houvesse citação ou diálogo com obras gastronômicas ou culturais.
🔸 D) crítica direta, que denuncia o oportunismo das indústrias alimentícias. ❌
🔴 Erro: O autor não critica diretamente as indústrias. Ele só menciona que há muitos produtos voltados a intolerantes.
✅ Ficaria certa se o texto apontasse interesses econômicos ou manipulação de mercado.
🔸 E) vocabulário coloquial, que representa o estilo da revista. ❌
🔴 Erro: Embora o vocabulário seja acessível, essa não é a principal característica da argumentação.
✅ Estaria correta em uma questão sobre estilo linguístico, não sobre estratégias argumentativas.
📖 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
✅ O texto apresenta uma estratégia argumentativa baseada no relato pessoal, usada como recurso para engajar o leitor e dar credibilidade à matéria de capa.
Essa abordagem é comum em editoriais e colunas, pois permite partir do particular para chegar ao universal.
🎯 A alternativa correta é a letra A, pois reconhece que o relato do autor especifica e legitima o debate proposto.