Entrei numa lida muito dificultosa. Martírio sem fim o de não entender nadinha do que vinha nos livros e do que o mestre Frederico falava. Estranheza colosso me cegava e me punha tonto. Acho bem que foi desse tempo o mal que me acompanha até hoje de ser recanteado e meio mocorongo. Com os meus, em casa, conversava por trinta, tinha ladineza e entendimento. Na rua e na escola — nada; era completamente afrásico. As pessoas eram bichos do outro mundo que temperavam um palavreado grego de tudo. Já sabia ajuntar as sílabas e ler por cima toda coisa, mas descrencei e perdi a influência de ir à escola, porque diante dos escritos que o mestre me passava e das lições marcadas nos livros, fiquei sendo um quarta-feira de marca maior. Alívio bom era quando chegava em casa.
BERNARDES, C. Rememórias dois. Goiânia: Leal, 1969.
O narrador relata suas experiências na primeira escola que frequentou e utiliza construções linguísticas próprias de determinada região, constatadas pelo
A) registro de palavras como “estranheza” e “cegava”.
B) emprego de regência não padrão em “chegar em casa”.
C) uso de dupla negação em “não entender nadinha”.
D) emprego de palavras como “descrencei” e “ladineza”.
E) uso do substantivo “bichos” para retomar “pessoas”.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de texto, Variação linguística, Registro linguístico regional, Léxico popular, Norma-padrão vs. norma popular.
🎯 Nível da Questão: Médio.
✅ Gabarito: Letra D
Resolução Passo a Passo
📖 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
Comando da questão:
“O narrador relata suas experiências na primeira escola que frequentou e utiliza construções linguísticas próprias de determinada região, constatadas pelo…”
Objetivo da questão:
Identificar no texto uma marca linguística regional, ou seja, um elemento do vocabulário ou da estrutura frasal que denuncia a origem geográfica ou cultural do narrador. A questão quer que você aponte qual alternativa contém exemplo de regionalismo ou marca de oralidade não padrão, como palavras típicas do falar popular de certas áreas do Brasil.
Palavras-chave importantes:
- “Construções linguísticas próprias de determinada região” → Isso aponta para regionalismos.
- “Constatadas pelo…” → Você deve encontrar provas textuais dessa variação.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
🧩 O que é variação linguística?
É a maneira como a língua muda conforme região, grupo social, idade, contexto etc. Não existe um “erro” na variação — apenas um uso diferente conforme o falante.
📍 Variação regional:
Uso de termos típicos de uma localidade. Por exemplo:
- “trem” em Minas Gerais com sentido genérico,
- “guria” no Sul para “menina”,
- “arretado” no Nordeste para algo muito bom ou bravo.
💬 Marcas de oralidade e linguagem popular:
O texto apresenta uma linguagem coloquial, com traços de oralidade e regionalismo. Isso se evidencia no vocabulário e na forma como as frases são montadas — mais próximas da fala que da norma culta escrita.
📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O narrador (possivelmente uma criança à época dos fatos) relata sua dificuldade de adaptação à escola, tanto cognitivamente (não entendia os livros) quanto socialmente (não conseguia se comunicar com os outros).
Palavras e expressões-chave para esta questão:
- “estranheza colosso”, “mocorongo”, “ladineza”, “afrásico”, “descrenei”
Esses termos não são comuns na norma culta, nem em todo o país — são marcas regionais, muitas vezes mais próximas da linguagem oral e popular do interior.
Especial destaque para:
- “ladineza” = esperteza, jogo de cintura (usada em regiões do Centro-Oeste)
- “descrenei” = desanimei, desacreditei (forma regional e informal)
Essas palavras não existem nos dicionários formais, o que denuncia sua origem regional e caráter popular.
📖 Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
🔴 A) registro de palavras como “estranheza” e “cegava”
Essas palavras existem na norma culta e são de uso comum. “Estranheza” é um substantivo derivado de “estranho” e “cegava” é conjugação padrão do verbo “cegar”.
🔁 Como ficaria certa: Se mencionasse palavras realmente regionais ou pouco usuais, como “mocorongo” ou “ladineza”.
🔴 B) emprego de regência não padrão em “chegar em casa”
Apesar de “chegar a casa” ser a forma normativa, “chegar em casa” é uma variação muito disseminada, comum na oralidade de várias regiões, mas não é exclusiva de uma região específica.
🔁 Como ficaria certa: Se dissesse “emprego de regência característica de determinada região”, associando a um uso regional marcante e não apenas coloquial.
🔴 C) uso de dupla negação em “não entender nadinha”
A dupla negação (“não + nadinha”) é um traço da oralidade brasileira, mas ocorre em diversas regiões. Também é um fenômeno gramatical, não lexical (não se trata de palavras regionais, e sim de estrutura frasal informal).
🔁 Como ficaria certa: Se a questão pedisse por marca de informalidade ou oralidade em geral, não de regionalismo.
🟢 D) emprego de palavras como “descrencei” e “ladineza”.
✔️ Correta. São termos típicos de determinada região, usados no texto de maneira natural e espontânea. Essas palavras representam o léxico regional, aquilo que só se ouve em certos lugares do Brasil.
✅ Essa alternativa cumpre exatamente o que o comando pediu: identificação de construções linguísticas regionais.
🔴 E) uso do substantivo “bichos” para retomar “pessoas”
Isso é um traço de figura de linguagem (metáfora ou hipérbole), e não exatamente um regionalismo. Pessoas sendo chamadas de “bichos” ocorre em diferentes registros (inclusive na literatura clássica).
🔁 Como ficaria certa: Se a questão fosse sobre recursos expressivos, e não sobre regionalismo.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
A questão nos leva a reconhecer que a linguagem do narrador revela sua origem regional e seu distanciamento da norma padrão da escola. Termos como “descrencei” e “ladineza” são típicos da fala popular regional e não estão no vocabulário formal. São essas palavras que melhor revelam a marcação regional pedida no enunciado — o que torna a alternativa D a correta com clareza e precisão. ✅