Quantos há que os telhados têm vidrosos
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos.
Adeus, praia, adeus, ribeira,
De regatões tabaquista,
Que vende gato por lebre
Querendo enganar a vista.
Nenhum modo de desculpa
Tendes, que valer-vos possa:
Que se o cão entra na igreja,
É porque acha aberta a porta.
GUERRA, G. M. In: LIMA, R. T. Abecê de folclore. São Paulo: Martins Fontes, 2003 (fragmento).
Ao organizar as informações, no processo de construção do texto, o autor estabelece sua intenção comunicativa. Nesse poema, Gregório de Matos explora os ditados populares com o objetivo de
A) enumerar atitudes.
B) descrever costumes.
C) demonstrar sabedoria.
D) recomendar precaução.
E) criticar comportamentos.

Resolução em texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura brasileira (Barroco), interpretação de texto poético, análise de linguagem figurada e crítica social.
📔 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
E) criticar comportamentos.
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Identificar como o uso de ditados populares no poema serve à função crítica, típica da poesia barroca de Gregório de Matos.
🔷 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 1.1 Retomada do Comando da Questão
“Nesse poema, Gregório de Matos explora os ditados populares com o objetivo de…”
📌 1.2 Explicação Detalhada
A questão quer que o aluno reconheça o propósito comunicativo do autor ao empregar ditos populares, ou seja, por que Gregório de Matos escolheu essas expressões específicas.
📌 1.3 Palavras-chave
- “ditados populares” – Provérbios ou expressões de sabedoria popular.
- “objetivo” – Intenção do autor com a seleção desses ditados.
- “Gregório de Matos” – Poeta conhecido por sua veia satírica e crítica aos costumes da sociedade colonial brasileira.
📌 1.4 Objetivo
Identificar como os ditados populares são utilizados para criticar atitudes sociais e morais da época, revelando o tom satírico e mordaz do poeta.
🔷 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📌 1. Gregório de Matos – “Boca do Inferno”
✔ Gregório foi um poeta do período barroco brasileiro, famoso por seu tom crítico e sarcástico. Denunciava a corrupção, a hipocrisia religiosa, a exploração econômica e os vícios das elites coloniais.
📌 2. Ditado Popular como Recurso Literário
✔ Ditados são utilizados para reforçar ideias já consolidadas pela tradição oral, e quando inseridos em contextos poéticos, funcionam como instrumento de crítica social disfarçada de sabedoria popular.
📌 3. Crítica Social
✔ A crítica está em apontar comportamentos hipócritas, desonestos e permissivos, como se fossem verdades evidentes. Através do riso ou da ironia, o autor denuncia sem necessariamente ofender diretamente.
🔷 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📌 Análise do Contexto
O poema é construído como uma série de provérbios que, embora pareçam inocentes, têm alvo certo: comportamentos hipócritas, a falsidade, a dissimulação e a conivência social.
📌 Frases-chave:
- “Quantos há que os telhados têm vidrosos / E deixam de atirar sua pedrada”
→ Crítica à hipocrisia: quem erra também, mas aponta o dedo para o outro. - “Que vende gato por lebre”
→ Denúncia à enganação e trapaça. - “Se o cão entra na igreja, / É porque acha aberta a porta”
→ A sociedade permite o desrespeito, é cúmplice do desvio moral.
📌 Relação com o conteúdo linguístico
O uso dos ditados como linguagem figurada tem função crítica e satírica, transmitindo uma mensagem profunda por meio de expressões comuns ao povo.
🔷 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 O poema se organiza em torno de provérbios populares, que são conhecidos e utilizados no cotidiano para transmitir valores ou fazer julgamentos sobre comportamentos.
📌 Gregório de Matos aponta os desvios morais da sociedade, como a hipocrisia, a falsidade e a tolerância ao erro – sempre com um olhar ácido e sarcástico.
📌 Ao dizer que “quem tem telhado de vidro não joga pedra”, ele expõe a contradição de quem critica os outros, mas comete os mesmos erros. A crítica se amplia com o provérbio da “porta da igreja”, onde a omissão da sociedade é colocada como parte do problema.
✔ Ou seja, a linguagem popular é usada como espelho para escancarar os vícios da sociedade da época, sendo um recurso eficiente para aproximar o leitor e ao mesmo tempo denunciar.
🔷 Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
📌 Reescrita das Alternativas:
A) enumerar atitudes.
B) descrever costumes.
C) demonstrar sabedoria.
D) recomendar precaução.
E) criticar comportamentos.
✅ Subpasso: Alternativa Correta – Letra E
✔ Gregório de Matos emprega os ditados populares não como conselho, mas como ferramenta de denúncia e crítica.
✔ Através do tom irônico e das imagens, ele expõe e condena os comportamentos inadequados da sociedade, como a falsidade e o descaso moral.
✔ A linguagem popular confere acesso direto ao público e legitima a crítica como se fosse uma verdade incontestável.
❌ Subpasso: Análise das Alternativas Incorretas
- A) enumerar atitudes
❌ Cenário hipotético: Se o poema apenas listasse ações cotidianas.
❌ Erro: Há uma intenção crítica, não apenas enumeração. - B) descrever costumes
❌ Cenário hipotético: Se o texto apresentasse uma etnografia ou retrato social neutro.
❌ Erro: O tom é de denúncia, não de descrição cultural. - C) demonstrar sabedoria
❌ Cenário hipotético: Se o autor usasse os ditados para exaltar saberes populares.
❌ Erro: Ele usa os provérbios para ironizar comportamentos, não para ensinar diretamente. - D) recomendar precaução
❌ Cenário hipotético: Se fosse um texto orientador.
❌ Erro: O poema não orienta o leitor, mas critica as falhas morais que já existem.
🔷 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 O poema de Gregório de Matos utiliza provérbios populares como estratégia para criticar os vícios morais da sociedade colonial, mantendo o tom irônico e direto.
📌 A linguagem do povo é transformada em instrumento de ataque aos poderosos, aos hipócritas, aos desonestos – um recurso típico da poesia satírica barroca.
📌 A alternativa correta é a letra E, pois somente ela capta com precisão a função crítica presente no texto.
🔍 Resumo Final:
Gregório de Matos emprega ditados populares como armas de crítica moral e social. O uso do saber popular não visa ensinar, mas denunciar — e sua força está justamente na aproximação com a linguagem do povo. O objetivo é criticar comportamentos e hipocrisias da sociedade colonial.
✅ Alternativa correta: E) criticar comportamentos.