Questão 86 caderno azul do ENEM 2020 PPL – Dia 1

Com a retração do binômio taylorismo/fordismo, vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial, fabril, tradicional, manual, estável e especializado, herdeiro da era da indústria verticalizada do tipo taylorista e fordista. Esse proletariado vem diminuindo com a reestruturação produtiva do capital, dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho, reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis por meio de empregos formais.

ANTUNES, R. O caracol e sua concha: ensaio sobre a nova morfologia do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2005.

Uma nova característica dos trabalhadores requerida pelas mudanças apresentadas no texto é o(a)

A)  formação em nível superior.

B)  registro em organização sindical.

C)  experiência profissional comprovada.

D)  flexibilidade no exercício da ocupação.

E)  obediência às normas de segurança laboral.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Sociologia do Trabalho, Geografia Econômica (Modelos Produtivos), Atualidades.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar a transição do modelo Fordista/Taylorista (rígido) para o modelo de Acumulação Flexível (Toyotismo), identificando como essa mudança impacta o perfil exigido do trabalhador contemporâneo.

Nível da Questão:
Médio.
Por que está neste nível? Exige domínio de conceitos sociológicos específicos (“reestruturação produtiva”, “desregulamentação”) e a capacidade de deduzir a consequência prática desses conceitos na vida do trabalhador, sem cair no senso comum.

Gabarito:
(D) flexibilidade no exercício da ocupação.
Resumo: Se o mercado agora é volátil, sem estoques fixos e sem estabilidade, o trabalhador não pode mais ser “especialista em apertar um único parafuso”. Ele precisa ser “polivalente” e aceitar contratos precários e mudanças constantes de função.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
O texto descreve a morte do “velho emprego”: aquele operário de fábrica que fazia a mesma coisa por 30 anos e se aposentava na mesma empresa. O texto diz que hoje o trabalho é “desregulamentado” e instável. A questão quer saber: Qual é a qualidade pessoal que esse novo trabalhador precisa ter para sobreviver nesse caos instável?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine dois tipos de ferramentas:

  1. O Martelo (O Trabalhador Fordista): Ele é pesado, robusto, dura a vida toda, mas só serve para uma coisa: bater.
  2. O Canivete Suíço (O Trabalhador Atual): Ele faz de tudo um pouco, adapta-se a qualquer situação, mas é facilmente trocado ou descartado.
    A questão pergunta: Qual é a característica principal do Canivete Suíço? Resposta: Ele é flexível/adaptável.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  1. Comparar o perfil do trabalhador antigo (citado como “especializado/estável”) com o novo cenário.
  2. Entender o conceito de “Reestruturação Produtiva”.
  3. Identificar a palavra que resume a adaptação a mudanças constantes.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos abrir o Dossiê dos Modelos Produtivos.

🏭 FORDISMO/TAYLORISMO (O Passado)

  • A Palavra-Chave: RIGIDEZ.
  • O Trabalhador: Especialista em uma única tarefa repetitiva (ex: apertar a roda).
  • O Emprego: Longa duração, carteira assinada, sindicatos fortes.

📱 TOYOTISMO/ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL (O Presente)

  • A Palavra-Chave: FLEXIBILIDADE.
  • O Trabalhador: Polivalente ou Multifuncional. Ele precisa operar a máquina, consertar a máquina e fazer o controle de qualidade.
  • O Emprego: Terceirizado, temporário, PJ, “Uberizado”.
  • O Contexto: O texto de Ricardo Antunes critica essa mudança, chamando-a de precarização. O mercado chama de “modernização”.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar as “pistas” do texto de Ricardo Antunes.

  • “retração do binômio taylorismo/fordismo” -> O modelo rígido acabou.
  • “redução do proletariado… estável e especializado” -> Não precisamos mais de gente que só sabe fazer uma coisa e quer ficar para sempre.
  • “formas mais desregulamentadas” -> Sem regras fixas, horários mudam, funções mudam.

A Análise do Detetive:
Se o emprego não é mais estável e se as regras mudam o tempo todo, o trabalhador que disser “ah, isso não é minha função” será demitido.
Para se manter empregado nesse cenário, o indivíduo precisa dançar conforme a música. Se a empresa precisa dele na montagem hoje e no estoque amanhã, ele vai. Se o contrato é por hora ou por projeto, ele aceita.
Essa capacidade de se moldar ao que a empresa precisa chama-se Flexibilidade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Muitos alunos marcam (A) formação em nível superior.
Por que caem? Porque ouvimos que “estudar é importante”.
Onde está o erro? O texto fala de uma mudança estrutural na forma de trabalhar, não apenas na escolaridade. A “nova morfologia” atinge desde o engenheiro até o entregador de aplicativo. Um entregador precisa ser flexível (aceitar corridas, horários), mas não precisa de curso superior. A flexibilidade é a regra geral, o diploma é específico.

A Evolução do Operário: Da Peça Fixa ao Malabarista

🏭 Esquerda (Fordismo): O trabalhador era especialista. Sua função era fixa, repetitiva e estável. Ele era uma peça rígida na engrenagem.

🤹 Direita (Acumulação Flexível): O novo trabalhador precisa ser polivalente. Ele opera, conserta, controla e negocia. A Flexibilidade (D) é a capacidade de mudar de função e se adaptar a um mercado que não para de mudar.


4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos examinar os suspeitos.

  • A) formação em nível superior.
    • Análise: Embora a qualificação seja desejável, a reestruturação produtiva também criou milhões de empregos precários que não exigem diploma (telemarketing, aplicativos). A característica universal da mudança não é o diploma, mas a instabilidade/adaptação.
    • Diagnóstico do Erro: Generalização indevida (Confundir qualificação com a lógica do sistema).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) registro em organização sindical.
    • Análise: O texto diz que o proletariado tradicional (base dos sindicatos) está diminuindo. A tendência atual é a desmobilização sindical (trabalhadores isolados, terceirizados, PJs), e não o aumento do registro.
    • Diagnóstico do Erro: Contradição histórica (O novo modelo enfraquece sindicatos).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) experiência profissional comprovada.
    • Análise: Em um mercado que muda rápido, muitas vezes a “experiência antiga” (vício de trabalho) é mal vista. As empresas buscam “soft skills” (capacidade de aprender) mais do que apenas tempo de casa.
    • Diagnóstico do Erro: Visão tradicionalista.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) flexibilidade no exercício da ocupação.
    • Análise: Perfeito. Isso se manifesta de duas formas:
      1. Funcional: O trabalhador faz várias tarefas (polivalência).
      2. Contratual: O trabalhador aceita horários móveis, banco de horas e contratos temporários.
        É a resposta exata à “desregulamentação” citada no texto.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • E) obediência às normas de segurança laboral.
    • Análise: Obedecer normas é requisito em qualquer época (Fordismo ou Toyotismo). Não é uma nova característica trazida pela mudança descrita.
    • Diagnóstico do Erro: Característica atemporal (Não específica da mudança).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A morte do emprego estável e especializado do Fordismo deu lugar à Acumulação Flexível, onde o trabalhador deve ser uma peça móvel e adaptável, exercendo a flexibilidade tanto nas funções que desempenha quanto nos contratos que aceita.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🤸 O Novo Trabalhador: Um contorcionista que precisa se encaixar em qualquer caixa que a empresa oferecer.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conecte isso com a Uberização. O motorista de Uber é o exemplo máximo dessa “flexibilidade”: ele não tem horário fixo, não tem salário fixo, não tem chefe fixo e, se o carro quebrar, o problema é dele. É a flexibilidade levada ao extremo, onde o risco do negócio é transferido da empresa para o trabalhador.

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