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Questão 63 caderno azul do ENEM 2020 PPL – Dia 1

A agenda escolar 2008 convida os alunos das escolas municipais do Recife à leitura mensal de trechos de poemas dos 12 artistas agraciados com estátuas desde 2005. Dessa maneira, esses alunos tiveram acesso, em cada mês do ano, a informações sobre as personalidades retratadas no papel e no espaço público, lendo e discutindo seus versos e visitando as esculturas instaladas estrategicamente no centro da cidade. Trata-se, em suma, de uma pedagogia do espaço público que repousa no reconhecimento de personalidades e lugares simbólicos para a cidade. De acordo com a prefeitura, o itinerário poético seria uma maneira de fazer reconhecer talentos que embelezam os postais recifenses, além de estreitar laços do cidadão com a cultura.

MACIEL, C. A. A.;  BARBOSA, D. T. Democracia, espaços públicos e imagens simbólicas da cidade do Recife. In: CASTRO, I. E.; RODRIGUES, J. N.; RIBEIRO, R. W. (Org.). Espaços da democracia. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013 (adaptado).

No texto, está descrita uma ação do poder público que coloca a paisagem como um fator capaz de contribuir para a

A)  inclusão das minorias reprimidas.

B)  consolidação dos direitos políticos.

C)  redução de desigualdades de renda.

D)  construção do sentimento de pertencimento.

E)  promoção do crescimento da economia.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Geografia Urbana, Sociologia (Cultura e Identidade), Interpretação de Texto.

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a função simbólica do espaço urbano e como políticas culturais podem transformar a cidade de mero cenário físico em um lugar de memória e identidade coletiva.

Nível da Questão:
Médio.
Por que está neste nível? A questão não exige decoreba, mas demanda uma sensibilidade sociológica para traduzir “estreitar laços com a cultura” em um conceito técnico como “pertencimento”. É fácil cair nos distratores econômicos ou políticos se a leitura for superficial.

Gabarito:
(D) construção do sentimento de pertencimento.
Resumo: Ao conectar os estudantes com a história e a arte estampada nas ruas (estátuas), a prefeitura transforma o espaço físico em espaço afetivo, fazendo o cidadão sentir que faz parte daquela cidade.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão descreve um projeto educativo que mistura poesia (livros) com estátuas (ruas). Ela quer saber: Qual é o efeito social e psicológico dessa mistura na cabeça dos alunos/cidadãos?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você entra em uma casa cheia de fotos de estranhos. Você se sente um visitante. Agora, imagine entrar em uma casa cheia de fotos dos seus avós e tios. Você se sente em casa.
A prefeitura quer transformar a cidade (que muitas vezes parece estranha e hostil) nessa “casa familiar”, enchendo-a de rostos e histórias que os alunos conhecem. O desafio é identificar o nome desse sentimento de “estar em casa”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  1. Identificar o objetivo explícito no texto (“estreitar laços”).
  2. Analisar a relação entre Espaço Público e Memória.
  3. Concluir qual alternativa define a conexão emocional entre pessoa e lugar.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar um Fluxograma de Raciocínio para entender a construção da identidade urbana.

🧠 A FÓRMULA DO LUGAR

  1. Espaço Físico: A rua, a praça, o concreto. (Frio, impessoal).
    ⬇️
  2. Símbolo Cultural: A estátua do poeta, o verso no papel. (Atribuição de significado).
    ⬇️
  3. Apropriação: O aluno lê, visita e entende quem foi aquela pessoa.
    ⬇️
  4. Resultado: O espaço físico vira LUGAR.
    • Conceito Chave: Na Geografia Humanista, “Lugar” é o espaço dotado de valor afetivo. É onde nos sentimos parte. Isso gera Pertencimento.

O Detalhe Crítico:
O texto fala em “pedagogia do espaço público”. Isso significa ensinar que a cidade não é só para transitar (passar de carro/ônibus), mas para existir e se reconhecer.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar as pistas do texto:

  • “informações sobre as personalidades retratadas no papel e no espaço público” -> O aluno aprende que aquelas estátuas não são bonecos de bronze, são pessoas reais da história dele.
  • “estreitar laços do cidadão com a cultura” -> Esta é a frase crucial. “Estreitar laços” significa criar intimidade.
  • “fazer reconhecer talentos” -> Valorização do que é local, do que é “nosso”.

A Análise do Detetive:
Quando a escola leva o aluno para ver a estátua de um poeta pernambucano e diz “ele escreveu sobre este rio que você vê”, o aluno deixa de ser um indivíduo isolado e passa a se ver como herdeiro daquela cultura. Ele “pertence” àquele cenário. A paisagem deixa de ser cenário e vira identidade.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Cuidado para não pensar que “pedagogia” ou “prefeitura” significam automaticamente “política partidária” (Alternativa B) ou “economia/turismo” (Alternativa E). O foco do texto está nos laços e nos símbolos, que são elementos culturais/afetivos, não financeiros ou eleitorais.

A Bússola (O Perfil do Culpado):
Síntese do raciocínio: A ação cria uma conexão emocional e identitária entre o habitante e o habitat.
Expectativa: Uma alternativa que fale sobre identidade, inclusão cultural ou sentir-se parte da cidade.


4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos examinar os suspeitos.

  • A) inclusão das minorias reprimidas.
    • Análise: Embora a cultura possa empoderar minorias, o texto fala de “alunos” e “cidadãos” de forma genérica, focando em “personalidades e lugares simbólicos” (poetas consagrados). Não há menção explícita a uma luta contra repressão de minorias específicas neste excerto.
    • Diagnóstico do Erro: Extrapolação (O texto não dá base para essa especificidade).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • B) consolidação dos direitos políticos.
    • Análise: Direitos políticos referem-se a votar e ser votado. Conhecer poesia e estátuas melhora a cidadania cultural, mas não garante diretamente direitos políticos ou eleitorais.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão de conceitos (Cidadania Cultural x Cidadania Política).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • C) redução de desigualdades de renda.
    • Análise: Ler poemas e ver estátuas é enriquecedor para a alma, mas infelizmente não redistribui renda nem aumenta o salário dos pais dos alunos. A desigualdade econômica persiste independentemente da valorização simbólica.
    • Diagnóstico do Erro: Pensamento Mágico (Achar que cultura resolve economia diretamente).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

  • D) construção do sentimento de pertencimento.
    • Análise: Perfeita. Ao ver sua cultura valorizada e exposta na cidade, o indivíduo sente que aquele espaço também é dele, que ele faz parte daquela história. Ele se “apropria” da cidade. É a tradução exata de “estreitar laços”.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

  • E) promoção do crescimento da economia.
    • Análise: Turismo cultural gera dinheiro? Sim. Mas o texto foca na escola e no cidadão, com objetivo de “fazer reconhecer talentos”. O viés é pedagógico e identitário, não mercadológico. O crescimento econômico seria uma consequência indireta e distante, não o objetivo descrito.
    • Diagnóstico do Erro: Desvio de foco (Olhar para o lucro, não para o humano).
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A cidade educadora é aquela que usa suas ruas e monumentos como livros abertos, transformando habitantes em cidadãos que dizem: “Eu sou daqui, e isso aqui é meu” (Pertencimento).

Resumo-flash (A Imagem Mental):
🗿 + 📖 = ❤️
(Estátua + Poesia = Amor pela cidade).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Pense no movimento recente de derrubada de estátuas (como de figuras escravocratas) ao redor do mundo. Isso é o reverso da medalha desta questão. As pessoas derrubam estátuas justamente porque NÃO sentem pertencimento ou representatividade naquelas figuras. Elas sentem que a paisagem as agride. Isso prova o poder da paisagem na construção (ou destruição) da identidade coletiva.

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